Na única vez em que o ex-governador José Roberto Arruda falou oficialmente sobre as denúncias da Operação Caixa de Pandora, o resultado foi um depoimento contundente ao Ministério Público Federal (MPF). Sob o compromisso de dizer a verdade, Arruda contou a dois procuradores regionais da República, Ronaldo Meira de Vasconcellos e Alexandre Espinosa Bravo Barbosa, ter sofrido extorsão da promotora de Justiça Deborah Giovanetti Guerner, investigada por suspeita de corrupção. O depoimento ao qual o Correio teve acesso foi prestado em 2 de julho no prédio da Procuradoria Regional da República, quando Arruda falou na condição de testemunha.
Em duas horas de relato, o ex-governador contou ter sido procurado por Deborah no ano passado, antes da crise institucional deflagrada pela Operação Caixa de Pandora. De acordo com o depoimento, o encontro ocorreu no escritório principal da residência oficial de Águas Claras para tratar do que Arruda classificou de “questões desagradáveis”. Ele afirmou que Deborah foi portadora de uma ameaça: a divulgação da gravação feita pelo ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa em que ele apareceu recebendo dinheiro quando era deputado federal, em 2005. Aos procuradores, Arruda sustentou que ficou surpreso com o tom da chantagem. Ele disse que justificou a Deborah Guerner que os recursos seriam doação de campanha e já estariam registrados no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-DF).
No depoimento, Arruda disse ainda que avisou ao então procurador-geral de Justiça do DF, Leonardo Bandarra, da conversa que manteve com Deborah por receio do que a promotora e Durval poderiam estar tramando contra ele. Segundo Arruda, Bandarra o aconselhou a extinguir a Agência de Tecnologia da Informação, área em que Durval ainda exercia influência, e a mantê-lo no governo para que pudesse ser investigado sem que percebesse.
Recusa
No encontro com Deborah, diante das ameaças, Arruda afirmou ter se negado a negociar. Deborah, então, demonstrou, segundo Arruda, “irritação e destempero”. Na mesma conversa, a promotora teria lhe dito que recebeu três parcelas de R$ 800 mil do ex-governador Joaquim Roriz, por intermédio de Durval Barbosa. Por conta desse pagamento, ainda de acordo com o que Arruda disse ter ouvido de Deborah Guerner, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) não havia até aquele momento ajuizado qualquer ação judicial contra Roriz no episódio que ficou conhecido como a “Bezerra de Ouro” (leia no Entenda o caso).
Segundo Arruda, Deborah disse que ainda faltava uma parcela a receber do grupo de Roriz. No total, seriam R$ 3,2 milhões. Com a recusa de Arruda, a promotora de Justiça teria subido o tom: “Então o senhor vai ver as suas imagens na televisão e nenhuma explicação será capaz de amenizar o impacto”, relatou o ex-governador ao MPF. Apesar do embate, a conversa prosseguiu e Deborah teria passado a tratar de interesses dela que estariam sendo contrariados nos contratos de coleta de lixo. A promotora disse, segundo Arruda, que a empresa Nely Engenharia estaria sendo prejudicada. Durante o governo anterior e até aquele momento, a Nely havia prestado serviços emergenciais, mas depois teria ficado de fora da licitação.
Na investigação do Ministério Público do DF sobre a partilha do cheque de R$ 2,2 milhões que levou à renúncia de Roriz, a Nely Engenharia teve os sigilos bancário, fiscal e telemático (e-mails) quebrados, uma vez que o dinheiro foi dividido no estacionamento da empresa que mantinha contratos de lixo com o GDF, como subcontratada da Qualix, a concessionária dos serviços de limpeza urbana durante os dois últimos governos de Roriz.
Negativas
Em depoimentos prestados nas investigações da Operação Caixa de Pandora, Durval Barbosa sustentou que a promotora Deborah Guerner e o ex-procurador-geral de Justiça do DF Leonardo Bandarra tinham interesse nos contratos de lixo e receberam propina para favorecer empresas do setor. Bandarra nega as acusações e sustenta ser alvo de uma campanha para desacreditar seu trabalho como chefe do MPDFT.
A assessoria de Roriz considerou totalmente despropositado o depoimento de Arruda. Segundo o coordenador de Comunicação da campanha do ex-governador, Paulo Fona, o Ministério Público sempre foi rigoroso na fiscalização das ações de Roriz. “O rigor sempre foi até exagerado de parte do Ministério Público”, afirmou o jornalista. A promotora Deborah Guerner não foi localizada ontem. Bandarra alegou não ter tomado conhecimento da suposta extorsão cometida pela promotora e do suposto favorecimento a Roriz no MP. Ele também sustentou que os promotores sempre tiveram liberdade de ação.
Autor: Ana Maria Campos
Fonte: Correio Braziliense
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