É absolutamente impossível, na minha concepção, julgar a mentira ou o mentiroso. Mentir é ter conhecimento dos efeitos da verdade. Por conseguinte, se a mentira pode significar a própria sobrevivência do indivíduo, não nos parece lógico defender a obrigação absoluta de não mentir defendida por KANT. A mentira seria, pois, um estado de necessidade, para o qual não há crime nem imoralidade. Em suma: a virtude de se dizer a verdade cederia em nome da própria vida.
Aliás, o questionamento que se pode fazer sobre a mentira é se ela representa, em qualquer situação, perda da moral. Feita essa ilação inicial, entendo que a afirmação de Hannah Arendt – “a mentira é uma tentação, que não conflita com a razão, porque as coisas poderiam ser como o mentiroso as conta” -, deve ser encarada nos seguintes aspectos: se a mentira é contada com o pensamento de se estar falando a verdade, embora não, então a mentira seria essa tentação que não conflita com a razão, porque no consciente do ‘mentiroso’ as coisas são da forma como ele as conta. Ao contrário, se a mentira é contada de forma a simular uma verdade, que seria a verdade da conveniência do ‘mentiroso’, logicamente a situação se subverte, dela decorrendo a ofensa à moral não admitida por KANT.
O que eu quero dizer é que a consciência da mentira é mais importante do que ela própria. Se a mentira representa uma alteração da realidade a partir do desejo inconsciente de quem a conta, não vejo ausência de moral. A mentira seria, assim, a realidade almejada pelo indivíduo.
Como é cediço, o horror à mentira defendido por Kant derivou do imperativo categórico: “age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”.
Entretanto, não é a mentira que horroriza a condição humana e nem a mentira poderá ter a força de se tornar uma lei universal. A mentira deve ser encarada dentro da circunstância que a envolve e não na idéia de que o homem perfeito não pode mentir. Se falar a verdade representa a base de todos os demais deveres e virtudes, então seriam pecados sonhar e querer viver.
Sonhar, naquela hipótese de se mentir apenas pensando numa verdade que não existe, mas que é desejada; viver, no caso de se preservar a vida, mesmo que em detrimento da verdade.
Não estou defendendo a mentira, é verdade. Apenas devo compreendê-la, porquanto a mentira pode ser uma verdade contada de forma irreal.