Declarações de Imposto de Renda de deputados federais incluídos na lista da degola apontam média de crescimento patrimonial de 60% nos dois primeiros anos do governo Lula. O patrimônio de oito deputados na fila das cassações cresceu em média 60% nos dois primeiros anos do governo Lula — exatamente no período em que o empresário Marcos Valério de Souza abasteceu o caixa 2 do PT e de partidos aliados. Os parlamentares integram uma lista de cerca de 100 nomes que estão sendo investigados pela Receita Federal por indícios de sonegação de impostos de 2002 a 2004.
As declarações de renda de João Paulo Cunha (PT-SP), Romeu Queiroz (PTB-MG), Josias Gomes (PT-BA), Vadão Gomes (PP-SP), José Janene (PP-PR), Paulo Rocha (PT-BA), José Borba (PMDB-PR) e Professor Luizinho (PT-SP) fazem parte do rol das que intrigam a Receita. Em alguns casos, há suspeita de que a movimentação de deputados é incompatível com o patrimônio.
O crescimento patrimonial mais espantoso é o do paulista Vadão Gomes, a quem Valério afirma ter pago R$ 3,7 milhões ao longo de 2004. De 2002 para 2003, seus bens saltaram de R$ 4,1 milhões para R$ 8,7 milhões, o que por si só não aponta irregularidade. Vadão é empresário do ramo de frigoríficos. O que auditores ressaltam, entretanto, são aparentes incoerências entre o rendimento declarado do parlamentar e sua movimentação bancária. Em 2003, Vadão declarou R$ 5 milhões à Receita. E movimentou R$ 866 mil. No ano seguinte, a situação se inverte: a renda cai para R$ 1,2 milhão, enquanto a movimentação salta para R$ 2,8 milhões. A movimentação é calculada de acordo com o pagamento de CPMF.
Em termos percentuais, a alteração de patrimônio mais expressiva é a de Paulo Rocha: variou 1.089% entre 2002 e 2004. Os valores, entretanto, são quase irrisórios se comparados aos de Vadão. Ele declarou R$ 12 mil em 2002. Em 2004, os bens chegaram a R$ 140 mil. A movimentação foi quase o dobro da renda. Em 2004, ela chegou a R$ 220 mil. E ele movimentou R$ 430 mil. Rocha aparece como beneficiário de R$ 920 mil das contas de Valério.
O mineiro Romeu Queiroz, que aparece nas listas de Valério como beneficiário de saques de R$ 350 mil entre 2003 e 2004, é outro que aumentou seu patrimônio de 2002 a 2004, embora de forma menos expressiva que alguns de seus colegas. Em 2002, o dote do minero declarado à Receita foi de R$ 5,5 milhões, mas em 2004 seu patrimônio pulou para R$ 6,1 milhões. Mas chama atenção da Receita o fato de, em 2004, ele ter declarado R$ 420 mil e, no mesmo período, ter movimentado R$ 4,4 milhões — 10 vezes mais do que os rendimentos informados ao fisco. Em setembro, reportagem do Correio mostrou que, em oito anos, Queiroz passou de dono de três vacas da raça girolando a proprietário de nove equipadas fazendas.
As costumeiras reclamações de parlamentares, de que a política só os fez empobrecer por conta dos altos custos de campanha não se aplica aos pesquisados. Professor Luizinho, cujo assessor sacou R$ 20 mil das contas de Valério, teve aumento de R$ 120 mil no patrimônio entre 2002 e 2003. De 2003 para 2004, a variação chegou R$ 356 mil. Em três anos como deputado, ele aumentou o patrimônio em três vezes. A movimentação é maior do que a renda, o que por si só não indica irregularidade.
O ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, também conseguiu melhorar o padrão de vida no governo Lula. Em 2002, o patrimônio de João Paulo era de R$ 233 mil. Em 2004, subiu para R$ 435 mil. A mulher dele sacou R$ 50 mil das contas de Valério. O deputado declarou renda de 216 mil em 2004. Nesse período, sua movimentação financeira foi de R$ 273 mil.
Josias Gomes, que recebeu R$ 100 mil das contas de Valério em 2004, também é alvo de investigações. Em 2002, ele declarou renda de R$ 33 mil, mas movimentou R$ 170 mil — cinco vezes mais. O salto na renda de Josias, deputado de primeiro mandato, é exponencial. De R$ 33 mil em 2002, a renda saltou para R$ 248 mil em 2004, ano em que movimentou R$ 679 mil.
No caso do ex-líder do PMDB José Borba é a movimentação que chama atenção. Em 2003, ele declarou renda de R$ 242 mil, mas movimentou R$ 317 mil. Em 2004, a renda foi de R$ 255 mil. As transações, R$ 433 mil. O dote declarado, de R$ 290 mil em 2002, subiu para R$ 420 mil em 2004. Valério afirma que Borba sacou R$ 2,1 milhões das contas.
José Janene, cujo assessor sacou R$ 4,1 milhões das contas de Valério, também viu seus bens aumentarem. Em 2002, o patrimônio declarado pelo homem forte do PP foi de R$ 972 mil. Em 2004, saltou para R$ 1,5 milhão. Janene declarou renda de R$ 566 mil em 2004. Mas, no mesmo período, movimentou R$ 1 milhão.
As declarações de renda de envolvidos no mensalão — cedidas por fontes oficiais — serão tema de reunião na próxima quarta entre integrantes da CPI dos Correios, técnicos da Receita e Polícia Federal.