A empreiteira Gautama funcionava como uma espécie de assessoria direta para deputados, senadores e empresas que percorriam os gabinetes da Esplanada dos Ministérios atrás de dinheiro do governo federal para obras públicas nos estados e municípios. A revelação está no depoimento do superintendente de produtos da Caixa Econômica Federal, Flávio Pin, dado no dia 21 à ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ela preside o inquérito que investiga as fraudes apuradas pela Operação Navalha, da Polícia Federal.
Flávio Pin, que foi preso na operação por conta de supostas orientações que dava ao funcionário da Gautama, Flávio Henrique Candelot, afirmou no depoimento que para ele Candelot “não é um empreiteiro, é um assistente ou um assessor de deputado, pois ele fala em nome de empresa, de deputado, de senador, indiferentemente”.
No depoimento, Pin deu um exemplo concreto. Segundo ele, Candelot chegou a ir à Caixa Econômica Federal acompanhado do ex-deputado federal Pedro Corrêa (PE), na época presidente do PP, partido que comanda o Ministério das Cidades. Pin afirmou, ainda, que Candelot — na verdade, segundo a PF, um empregado da Gautama — parecia ser “um consultor, o qual assessora aos que precisam de orientação na condução dos processos, com vista à realização de obras públicas”.
O depoimento de Pin reforça as investigações da Polícia Federal na Operação Navalha. Corrêa, que teve seu mandato cassado por envolvimento no escândalo do mensalão, foi citado nos relatórios da PF que descrevem as supostas fraudes envolvendo a Gautama. A PF levanta suspeitas de que o ex-deputado e ex-presidente do PP faria tráfico de influência junto ao ministro das Cidades, Márcio Fortes, e ao secretário-executivo Rodrigo Figueiredo para liberar dinheiro para a quadrilha.
O Ministério das Cidades concentra a maior parte das obras de saneamento e habitação, inclusive projetos inscritos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e é um tradicional alvo do interesses de empreiteiras.
Flávio Pin nega ter atendido a esquemas políticos. Em seu depoimento, ele afirma que entre as suas funções, a superintendência que chefiava desenvolvia um trabalho “absolutamente apolítico e fora de influências pessoais ou de pedidos de apadrinhados” e nega ter favorecido Candelot.