seu conteúdo no nosso portal

Armas para o povo: qual o objetivo da perigosa fala do presidente da República?

A nação brasileira foi presenteada com um show de horrores advindos da revelação do malsinado vídeo da reunião ministerial realizada em 22 de abril de 2020.
A nação brasileira foi presenteada com um show de horrores advindos da revelação do malsinado vídeo da reunião ministerial realizada em 22 de abril de 2020. Dentre as inúmeras aberrações trazidas e crimes de várias naturezas perpetrados por inúmeros atores da equipe do Governo Federal, chamou atenção a fala do chefe do poder Executivo, em relação à necessidade de armar população brasileira para combater a suposta ditadura de esquerda no Brasil.

O presidente, em um discurso recheado de xingamentos a governadores e prefeitos, em flagrante desrespeito ao seu posto de chefe de Estado, afirmou, aos berros, que deseja “escancarar a questão do armamento aqui. Eu quero todo mundo armado! Que povo armado jamais será escravizado”. Algo semelhante a esse rompante de fúria foi registado pelo “O Jornal Correio da Manhã”, em 12 de agosto de 1937: “Mussolini diz que só um povo armado é forte e livre”.

Benito Mussolini foi um dos fundadores do fascismo na Itália, que alcançou o poder com a bandeira de combate aos comunistas e os socialistas. Porém, após assumir o poder abandonou qualquer estética democrática do seu governo e estabeleceu sua ditadura totalitária. Para alcançar esse estágio, e mantê-lo, Mussolini armou o povo e criou uma milícia denominada “camisas negras”.

Os “camisas negras”, força armada do fascismo, foram organizados como uma violenta ferramenta militar desse movimento político. Os fundadores foram intelectuais nacionalistas, ex-oficiais militares, membros especiais dos Arditi e jovens latifundiários que se opunham aos sindicatos de trabalhadores e camponeses do meio rural. Seus métodos tornaram-se cada vez mais violentos à medida em que o poder de Mussolini aumentava, através da intimidação e assassinatos contra opositores políticos e sociais. Entre seus componentes, que formavam um grupo muito heterogêneo, incluíam-se criminosos e oportunistas em busca da fortuna fácil.

São grandes as semelhanças do discurso fascista de Mussolini  e o ideário proposto por Jair Bolsonaro na famigerada reunião do dia 22 de abril, especialmente no que diz a armar a população contra uma possível ditadura.

A Venezuela bolivariana dos ditadores Hugo Chávez e Nicolás Maduro –tão criticada por bolsonaristas– também fala em armas para o povo com muita frequência. Em 2006, seu oitavo ano de mandato, o então presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que se deveriam armar 1 milhão de venezuelanos, para evitar a invasão dos Estados Unidos.

Mas, quem são os ditadores potenciais na visão do presidente do Brasil? Por inúmeras vezes, ele se reportou aos governadores e prefeitos que estavam determinando o fechamento do comércio de produtos não essenciais a fim de evitar a propagação do Covid-19.

Dessa forma, não é difícil concluir que o presidente estava a sugerir que a população – especialmente a manada que o segue – se arme contra estes agentes políticos, em flagrante ofensa ao federalismo e ao Estado Democrático de Direito. O discurso presidencial está em evidente descompasso com a Constituição da República, que, logo no preâmbulo, estabelece que a Assembleia Nacional Constituinte esteve reunida com o objetivo de instituir um Estado Democrático destinado a assegurar a harmonia social e a solução pacífica das controvérsias.

Ademais, a conduta do presidente da República tangencia ao tipo penal previsto no artigo 4º, IV (“A segurança interna do país”), da Lei 1079/50, que cuida dos crimes de responsabilidade do chefe do Executivo federal, na medida em que um espírito beligerante dos seus seguidores contra os políticos contrários ao fim do isolamento.

Democracia é o regime político caracterizado justamente pela existência de diversas ideologias, por vezes com visões conflitantes de modelo ideal de sociedade. A questão é que, em um contexto de conflito, as controversas são resolvidas sem violência por meio da Política. É assim que funciona as sociedades civilizadas e democráticas. Pretender o contrário é flertar com estados totalitários.

Os ditadores da atualidade têm se diferenciados dos antigos por uma característica muito peculiar: utilizam o discurso de defesa da democracia e da liberdade para implantar um regime totalitário, em que o pensamento divergente não pode existir. As instituições e a sociedade abram os olhos para o Brasil idealizado pelo Governo Bolsonaro e revelado na fatídica reunião ministerial.

*Marcelo Aith é advogado especialista em Direito Público e Direito Penal e professor da Escola Paulista de Direito
 

**Marcos Limão é jornalista e advogado, com especializações em Marketing Político e Direito Eleitoral.

Armas para o povo: qual o objetivo da perigosa fala do presidente da República?

Compartihe

OUTRAS NOTÍCIAS

Sócio retirante desligado antes do Código Civil de 2002 não se submete ao prazo de dois anos
TJMT mantém multa aplicada a posto por falta de informação sobre preços
Borracheiro receberá adicional de insalubridade por estresse térmico