Colunista

Ricardo Bezerra

Ricardo Bezerra

Advogado, inscrito na OAB/PB, tendo exercido o encargo de Juiz Leigo na Comarca de Bayeux/PB nos anos de 2001 e 2002.

- Atualizado em

A CRISE NA DEMOCRACIA NÃO É DA INDÚSTRIA CULTURAL

Você acha que a indústria cultural é a responsável pela crise na democracia?

Você acha que a indústria cultural é a responsável pela crise na democracia?

Fazemos para uma melhor compreensão da nossa reflexão a citação dos textos abaixo onde encontramos as definições de Indústria cultural e de democracia, para em seguida adentrarmos em alguns questionamentos.

O termo Indústria Cultural (em alemão Kulturindustrie) foi criado pelos filósofos e sociólogos alemães Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), apresentado no capítulo “A indústria cultural: iluminação como engano em massa”, do livro Dialética do Esclarecimento (1944), em que propuseram que a cultura popular é semelhante a uma fábrica que produz bens culturais padronizados – filmes, programas de rádio, revistas etc. – usados para manipular a passiva sociedade de massa. Para os autores, o consumo dos prazeres fáceis da cultura popular, disponibilizados pelos meios de comunicação de massa, torna as pessoas dóceis, por mais difíceis que sejam suas circunstâncias econômicas.

Ainda para Adorno e Horkheimer, o perigo inerente à indústria cultural é o cultivo de falsas necessidades psicológicas que só podem ser atendidas e satisfeitas pelos produtos do capitalismo; assim, eles perceberam especialmente a cultura produzida em massa como perigosa para a sobrevivência das artes mais difíceis de serem produzidas do ponto de vista técnico e intelectual. De acordo com os pensadores, a indústria cultural:

[…] não introduz as massas nas áreas de que eram antes excluídas, mas serve, ao contrário, nas condições sociais existentes, justamente para a decadência da cultura e para o progresso da incoerência bárbara”.

Democracia é um regime político em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente — diretamente ou através de representantes eleitos — na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governação através do sufrágio universal. Ela abrange as condições sociais, econômicas e culturais que permitem o exercício livre e igual da autodeterminação política. [1] .

Colocar a indústria cultural como manipuladora de massas é, ao meu entender, uma confirmação de que as políticas públicas de educação não funcionam e se a indústria cultural tem esta capacidade plena de manipulação é porque a democracia é frágil e vulnerável diante do não cumprimento da autodeterminação política[2].

A cultura é um produto da sociedade e esta sociedade produz a cultura conforme seus hábitos de origem na ocupação do espaço urbano ou da sua origem e embasada na sua educação proporcionada pelo poder democrático que rege o cidadão. Quando este poder democrático não proporciona uma educação com um fundamento cultural sólido terá esta lacuna preenchida pela indústria cultural que irá produzir conforme os anseios do cidadão.

Vinculando-se a relação do cidadão com a política, iremos ver que a indústria cultural é resultado da política pública da democracia instalada. Desta forma, a democracia amparada em seu estatuto político que desconhece a educação e a trata como mercadoria de corrupção não pode reclamar da indústria cultural divergente da sua “pretensão” e não da sua realização.

Atribuir-se à indústria cultural como fonte de crise na democracia é apenas reconhecer que a democracia aplica à educação o seu estatuto político, criando fanatismos, violência e imperando o medo pela sua ausência de plena aplicabilidade.

Uma democracia séria e sem corrupção tem por base o cumprimento e abrangência das condições sociais, econômicas e culturais. Como poderiam ser manipulados os cidadãos se a democracia como regime político tivesse em seus Gestores a probidade administrativa? O que temos é um regime democrático vulnerável e que sem educação não se pode exigir ou culpar a indústria cultural onde os problemas estruturais do capitalismo são frutos da gestão democrática.

Para uma reflexão trago uma fragmentação sobre “ponto de vista da cultura”:

Feito o necessário, agora podemos concluir: a única superação possível para o que se entende enquanto apropriação cultural é a superação do modo de produção capitalista. Enquanto o produto do trabalho humano (e aqui, insere-se a cultura) for transformado sempre em mercadoria com o objetivo de gerar mais-valor, é impossível pensar em uma outra dinâmica do ponto de vista da cultura. Pretendo com essa afirmação, evidenciar o óbvio: não é dizendo para as pessoas não consumirem que o problema da apropriação cultural será resolvido. Justamente porque o produto do trabalho humano (mais uma vez: a cultura se insere aqui) é transformado em mercadoria no processo de produção, não no consumo. É no processo de produção que a cultura se converte em mercadoria e perde sua essência, de maneira que agora seu valor de uso é subordinado ao seu valor de troca. Essa reflexão do ponto de vista da economia é importante para não cairmos no equívoco comum de achar que é possível resolver problemas estruturais do capitalismo a partir da individualidade. Apenas a superação do modo de produção capitalista poderá proporcionar aos seres humanos uma cultura que seja pensada sob o prisma da identificação, da resistência. Inclusive, é preciso apontar que a própria ideia da cultura como elemento de resistência aparece localizada historicamente e se agravando cada vez mais no contexto do capitalismo.[3]

 

Não se pode falar em democracia sem falar do gestor, daquela pessoa que irá cuidar do estatuto político[4] e com ele fazer da educação um instrumento para criação, existência e manutenção da indústria cultural. Quando há uma crise no sistema democrático passa por quem foi consagrado pelo sufrágio universal com finalidade de liderar uma nação e não, essencialmente ou culposamente, pela indústria cultural que é apenas reflexo da democracia instalada.

Segundo Amós Oz[5] a política misturou-se às concepções da indústria do entretenimento. Vê-se, portanto, que a política diante da sua fragilidade e vulnerabilidade foi à indústria do entretenimento, ou seja, a “indústria” está sempre na forma passiva de ser ou representar o pensamento e a história sobre a ocupação da política, onde esta por não cumprir com seu estatuto político se torna alvo da indústria cultural e promove a permissividade de uma participação de candidatos extremistas[6] com a concepção de sê-los os mais divertidos. A crise democrática não é de responsabilidade da indústria cultural e sim daqueles que são eleitos no sufrágio universal e não conseguem cumprir e estabelecer o estatuto político e se transformam em diversão para a indústria cultural que tem por finalidade expressar na liberdade de expressão a cultura e história do seu povo como retrato da ausência ou inexistência de políticas públicas de educação e cultura.

A política educacional e cultural implantada na democracia pelo voto popular é que leva o cidadão, principalmente os jovens, na visão das críticas às bases de instabilidade democrática, a desprezar o noticiário como fonte de conhecimento diante de permanente descaso para com a administração pública e da contaminação sistêmica da corrupção dos eleitos pelo sufrágio universal, optando-se por programas “satíricos”[7] com intuito de ver em situação cultural vulnerável quem deveria estar em situação de Governança Democrática no cumprimento do estatuto político.

QUEM AMEAÇA A DEMOCRACIA É ELA MESMA.

O profissional artista sério e de base cultural não é ameaçado pela degradação da indústria cultural satírica, porque sempre haverá uma corte e um bobo para com o pão e circo levar para parte da comunidade a visão carcomida e podre da democracia, frágil e vulnerável pelos seus próprios atos que são, apenas, base da liberdade de expressão da indústria cultural.

[1] Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre

[2]Liberdade política (também conhecida como autonomia política ou ação política) é um conceito central na história ocidental e do pensamento político e uma das características mais importantes (reais ou ideais) das sociedades democráticas. Ela foi descrita como uma relação livre de opressão ou coerção; a ausência de condições incapacitantes para o indivíduo e para o cumprimento de condições propícias; ou a ausência de condições vividas de compulsão, por exemplo, compulsão econômica, em uma sociedade. Embora a liberdade política seja muitas vezes interpretada negativamente, como a liberdade de restrições externas irracionais sobre a ação, também pode se referir ao exercício positivo de direitos, capacidades e possibilidades de ação, e o exercício de direitos sociais ou de grupos. O conceito também pode incluir a liberdade de restrições “internas” sobre a ação política ou da fala (por exemplo, conformidade social, de consistência, ou de comportamento “inautêntico”). O conceito de liberdade política está intimamente ligado com os conceitos de liberdades civis e direitos humanos, que em sociedades democráticas são normalmente oferecidas a proteção legal do Estado.

A autodeterminação dos povos é o princípio que garante a todo povo de um país o direito de se autogovernar, realizar suas escolhas sem intervenção externa, exercendo soberanamente o direito de determinar o próprio estatuto político. Em outras palavras, é o direito que o povo de determinado país tem de escolher como será legitimado o direito interno sem influência de qualquer outro país.( Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre)

[3] Diário Liberdade, Brasil, por Alex Agra, 05 de novembro de 2016 (https://gz.diarioliberdade.org/brasil/item/90542-a-cultura-como-mercadoria.html)

[4] A palavra estatuto é diferente de contrato social, pode referir-se a uma variedade de normas jurídicas cuja característica comum é a de regular as relações de certas pessoas que têm em comum pertencerem a um território ou sociedade. Normalmente, os estatutos são uma forma de Direito Privado. A palavra estatuto vem do latim statutun ‘regulamento, sentença, aresto’

Existem normas com força de lei ou regulamentares, que recebem o nome de estatuto. Normalmente recebem esse nome por razões históricas, e, muitas vezes, apenas dão uma regulamentação para um coletivo concreto. São normas com efeitos erga omnes. (Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.)

[5] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/06/1895944-crise-democratica-e-fruto-da-industria-cultural-diz-escritor-amos-oz.shtml

[6] Amós Oz – citação anterior.

[7] Noticiário satírico é um estilo de humor apresentado em formato jornalístico, com notícias satíricas, fictícias ou exageradas.

Em geral, uma notícia satírica explora algum aspecto de algum evento ou aspecto da realidade, exagerando-o para fins humorísticos ou mesmo para crítica. Em alguns casos, notícias satíricas são sutis e podem se passar por verdadeiras para alguns leitores.

O Brasil conta com diversas iniciativas do tipo. Na TV, destacam-se programas de notícias como Casseta & Planeta, Urgente!, Furo MTV, Sensacionalista e Greg News. Outros exemplos são sites como O Bairrista, que satiriza o sentimento regionalista gaúcho; O Sensacionalista, um jornal satírico brasileiro de escopo nacional; o G17; o The Piauí Herald, suplemento da Revista Piauí; o Jornal VDD; e o Diário Pernambucano, satirizador de assuntos de Pernambuco e de todo o país.

Uma importante referência do estilo no mundo é o The Onion, que produz sátiras bastante elaboradas a respeito da realidade norte-americana.

A sátira é uma técnica literária ou artística que ridiculariza um determinado tema (indivíduos, organizações, estados), geralmente como forma de intervenção política ou outra, com o objectivo de provocar ou evitar uma mudança. O adjectivo satírico refere-se ao autor da sátira

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre

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