Colunista

Josinaldo Malaquias

Josinaldo Malaquias

- Atualizado em

Reflexões sobre Mídia e Política

A inserção da mídia – na dinâmica cultural dos processos de construção da realidade histórica, social e econômica contemporânea – transcende os limites de simples instrumento de divulgação de informações e configura, ao interconectar comunicação e política, novas formas de sociabilidade as quais superam as concepções tradicionais das práticas política no Brasil.

1 – Introdução

A inserção da mídia – na dinâmica cultural dos processos de construção da realidade histórica, social e econômica contemporânea – transcende os limites de simples instrumento de divulgação de informações e configura, ao interconectar comunicação e política, novas formas de sociabilidade as quais superam as concepções tradicionais das práticas política no Brasil.

Redefinindo os limites da dimensão espaço-temporal, constrói um novo imaginário sociocultural e inaugura uma nova fase da organização social, centrada na esfera comunicacional, que possibilita uma reflexão acerca do homem enquanto sujeito da história.  Assim sendo, a mídia “deve ser considerada enquanto fonte geradora de sistemas de representação da realidade, utilizados seja para compreender a sociedade, seja para acionar diferentes formas de ação” (Chaia, 2001, p.287).

Solidificando a comunicação, enquanto instrumento de apreensão e percepção da realidade, a mídia estabelece, por intermédio de múltiplas linguagens, formas de atividades políticas que caracterizam as democracias contemporâneas.  Nesse sentido, Rubim (2000, p.14) mostra que “a comunicação, ao desenvolver sua atividade midiática, se transformou em componente fundamental e estruturante daquilo que se denomina contemporaneidade”.

Diante do exposto, o presente trabalho procurará refletir sobre as articulações da mídia com a política na consolidação do paradigma da sociedade de comunicação, idade mídia, ou planeta mídia, haja vista que a “mídia está intimamente vinculada ao poder e abre o estudo da cultura para as vicissitudes da política e para o matadouro da história” (Kellner, 2001, p. 54).

2 – Política e Mídia: algumas considerações

Compreendida como uma atividade característica dos homens livres para a realização de uma vida justa, feliz e permeada pela razão, o termo Política deriva do grego – Politikós – passando a ser definida, enquanto atividade prática para administrar a cidade, a Pólis, no livro A Política, escrito por Aristóteles.  De acordo com Finley, (1988:27) “foram os gregos que descobriram não apenas a democracia, mas também a política –a arte de decidir – através da discussão pública – e, então, de obedecer às decisões como condição necessária da existência sócia civilizada”.

Para Aristóteles, a Política é entendida como uma ciência prática estruturante das ações e das produções humanas e que concebe o Estado enquanto unidade indivisa que busca os ideais de justiça e perfeição, promove o bem comum e estabelece preceitos éticos que formam o governante, enquanto um ser virtuoso, o qual age pela razão e, jamais, pela paixão.

A origem de tal vocábulo, no entanto, é mitológica.  Pelo menos três mitos – da Idade do Ouro, do Fogo de Prometeu e de que a Natureza funda a Política – desvelam um percurso metodológico que parte da experiência cotidiana e se estrutura na atividade racional. O primeiro mito alude a um estágio fabuloso e paradisíaco no qual o homem vivia em eterna felicidade.  Tal realidade desaparece quando o homem quando uma entidade mística lhe concede a razão e, com esta o livre-arbítrio: é o contato com o Fogo de Prometeu, conforme a segunda versão mitológica. Por fim, dissemina-se a concepção de que a Política é parte da natureza humana.

O mito político é fabulação, deformação ou interpretação objetivamente recusável do real. Mas, na narrativa legendária, é verdade que ele exerce também uma função explicativa, fornecendo certo número de chaves para a compreensão do presente, constituindo uma criptografia através da qual pode parecer ordenar-se o caos desconcertante dos fatos e dos acontecimentos” (Giradert, 1987:13).

O pensamento grego, eminentemente especulativo, inspira os romanos, sobretudo Cícero e Sêneca, que procuram instrumentalizar os ideais de justiça e perfeição através de uma codificação positiva, seguindo a máxima de que o governante jamais poderá ceder à paixão, haja vista que a atividade governamental é, sobretudo, uma atividade racional que deve ser alicerçada na convenção e no consenso. “Os gregos – e isso ninguém poderá contestar – foram os primeiros a pensar sistematicamente sobre política, a observar, descrever e, finalmente, formular teorias políticas” (Idem, ibidem).

A derrocada do Império Romano coincide com a ascensão do Cristianismo que – fruto das tradições hebraica e romana – cria a Igreja a qual desenvolve um conceito de Política no qual o Poder (Kratos) deriva de Deus (Theos): Teocracia.  Organizando e centralizando uma nova forma de poder – vinculando Religião e Política – a Igreja institui o Feudalismo, criando poderes isolados e concretizando o fim do Estado Romano, e emerge como a maior potência do mundo.

A secularização do poder, entendido como construção humana consequente da ação social e das divisões sociais, se dá com o Pensamento de Maquiavel, considerado o Pai da Ciência Polícia Moderna.  Em sua obra, Maquiavel desmistifica concepções arraigadas de que todo o poder provém de Deus.  Com isso, inaugura uma nova fase histórica a qual coincidirá com a formação da burguesia que, consequentemente, passará a se insurgir contra o absolutismo.  “O ser humano não é mais uma criatura feita por Deus à sua imagem, mas um ator social definido por papéis, isto é, pelas condutas ligadas a status e que devem contribuir para o bom funcionamento do sistema social” (Touraine, 1999:26).

Neste contexto, as incipientes concepções das ciências sociais passam a orbitar em torno da reflexão política.  O contratualismo de Hobbes e Rousseau entende que a ordem social deriva da vontade expressa conscientemente num controle social. Ambos veem na propriedade privada um direito civil ao invés de um suposto direito natural.

Locke formula uma concepção de direito natural que pugna pelo direito à vida, pela liberdade e pelo acesso aos bens necessários à sobrevivência.  Para ele, estes três princípios podem ser concretizados através do trabalho.  Tal reflexão reforça o imaginário burguês, como uma classe trabalhadora, que se insurge contra a aristocracia e a nobreza que passam a ser vistas como parasitárias e improdutivas. A reação ao absolutismo se acirra e, finalmente, o liberalismo se solidifica com a irrupção da Revolução Francesa. Há de se levar em conta, também, a Revolução Industrial e a Independência do Estados Unidos.

Estes três episódios históricos mudam o mundo porque catalisam a Modernidade – enquanto a era das grandes narrativas e dos processos teleológicos redentores da humanidade –, fundamentada na razão, na ciência e no progresso. “A ideia de modernidade substitui Deus da sociedade pela ciência deixando as crenças religiosas para a vida privada” (Touraine, 1999:18).

O desenvolvimento industrial estimula o consumo e possibilita o acesso a determinados bens e serviços.  Novos modos de vida são criados, dentro de um clima progressista e otimista, insculpindo a lógica capitalista enquanto reflexo da Modernidade.

A concepção clássica de modernidade é antes de tudo a construção de uma imagem racionalista do mundo que integra o homem na natureza, o microcosmo no macrocosmo e que rejeita todas as formas de dualismo do corpo e da alma, do mundo humano e da transcendência” (Idem, 37).

Tal otimismo no progresso, na ciência e na razão começa a desmoronar a partir do instante em que se constata que, a cada dia, os mais ricos enriquecem e os miseráveis mais miseráveis ficam.  É a época do capitalismo selvagem o chegou a impingir jornadas de até 16 horas por dia para crianças de dois anos de idade.  É a face perversa da exploração do homem pelo homem.

Diante desta realidade surge o pensamento de Marx que – tendo por base a Economia Política Inglesa, o Idealismo Alemão e o Socialismo Utópico Francês – procura resgatar a dimensão libertária da luta contra a opressão.  Marx desmistifica o otimismo capitalista, alicerçado na exploração humana, e vislumbra uma sociedade na qual cada um ganhe de acordo com o seu trabalho e segundo a sua necessidade.

Nessa situação paroxística chega-se à presunção de que o capitalismo falhou e o socialismo é uma utopia, dilema que passa a ser superado a partir da comunicação de massa, a qual passa a ter um papel fundamental na formação da opinião pública.  Nessas circunstâncias, a mídia passa a estruturar o processo político. No entanto, como ressalta Rubim (2000:75):

Em sentido estrito, o campo da comunicação não tem como finalidade social prevista governar. Mas não se pode negar que através de inúmeros mecanismos, ele interfere e influencia o ato de governar ou agendar temas, requerer providências, propor soluções, criticar atitudes, sugerir alternativas, produzir imagens públicas, engendrar climas sociais, enfim – e por tudo isso –, afetar, no dia-a-dia a governabilidade”.

A mídia, ao integrar as distintas dimensões constitutivas da vida social, impõe uma maneira de perceber a realidade.  Daí as relações entre os homens, o trabalho, as necessidades cotidianas dependerem, cada vez mais, de dispositivos comunicacionais de todos os tipos, para gerar maiores espaços de autonomia em um mundo cada vez mais globalizado.

Essa globalização tem como percursos à homogeneização e a subalternização dos países sob o domínio das tecnologias de telecomunicações e da informática, traços básicos característicos da era da comunicação, e a integração de blocos regionais que estabelecem novas regras de jogo no cenário internacional.

Uma nova concepção de sociedade, baseada em novas práticas e valores centrados nas tecnologias de telecomunicações e informática, torna-se efetiva, estimulando uma troca civilizatória.  Nessa permuta, o conhecimento e a comunicação desempenham um importante papel, pois ampliam a capacidade de decisão de nossas sociedades bem como impulsionam a geração/uso da informação voltada para solução dos problemas sociais.

“No que se refere mais especificamente à produção de conhecimento científico, com o grande desenvolvimento contemporâneo das tecnologias da informação, a noção de informação passa a desfrutar de estatuto epistemológico destacado. As ciências em geral gradativamente passam a utilizar a noção de informação como noção básica” (Tenório, 1998, p.62).

Incentivando uma maior abertura, por via de recursos como a hipertextualidade, a conexão, a multilinguística, ou seja, aproximando texto e imagem, a mídia estimula novas formas de poder, de sociabilidade e de sentido que, inexoravelmente, lançam as bases para a formação e organização de novos processos políticos.

É que, com as modernas tecnologias telemáticas, a comunicação não pode ser reduzida, apenas, à mera transmissão de informações, mas, principalmente, à produção de sentido, uma vez que, ao veicularem mensagens, articulam as esferas do político com o simbólico.  Articulando o político com o simbólico, a mídia percebe que o “o trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana” (Orlandi, 2000, p.15).

A partir daí, na perspectiva de Foucault (1983, 1996, 1999a e 1999b), lança os instrumentos de superação da sociedade disciplinar – “aquela na qual o comando social é construído mediante uma rede difusa de dispositivos ou aparelhos que produzem e regulam os costumes, os hábitos e as práticas produtivas” (Hardt e Negri, 2001, p. 42) –, que são configurados através do paradigma da sociedade de controle a qual é caracterizada por instrumentos que regulam a disciplinaridade através da interiorização de valores veiculados pela mídia e que se estendem “bem para fora os locais estruturados de instituições sociais mediante redes flexíveis e flutuantes” (idem, 43).

A sociedade de controle se estrutura no conceito de biopoder, enquanto “forma de poder que regula a vida social por dentro, acompanhando-a, absorvendo-a e a rearticulando (idem, ibidem) haja vista que” todo o corpo social é abarcado pela máquina do poder e desenvolvido em suas virtualidades” (idem, ibidem).  Com isso é criada uma nova teoria da subjetividade que se concretiza por intermédio da comunicação, da linguagem e do conhecimento.

Assim sendo, a comunicação passa a atuar como pressuposto do discurso e das práticas sociais, políticas, culturais e históricas, sobretudo por ser consensual, conforme acentua Rubim (2001:80), a “compreensão da contemporaneidade como uma sociedade estruturada e ambientada pela comunicação, como uma verdadeira ‘idade mídia’, em suas profundas ressonâncias sobre a sociabilidade contemporânea em seus diversos campos”.

Nesta perspectiva depreendemos que a mídia, na atual conjuntura social, econômica, cultural e política, instaura uma nova ordem social na qual a comunicação estabelece novas formas de reflexão sobre a condição humana a partir de pesquisas de interface as quais privilegiam a questão da interdisciplinaridade do campo comunicacional e suas relações com a Política, a Cultura, a Filosofia, a Arte e a Literatura.

Suplantando os limites dos aspectos sociológico, antropológico, psicológico, linguístico e jornalístico, a comunicação – em sua modalidade midiática – possibilita apreendermos a irrupção de novas formas de sociabilidade, germinadas em novas concepções de governo, as quais produzem novos sentidos e categorias simbólicas, numa alternativa que parece buscar os laços de superação dos instrumentos de identificação e intersubjetividade do indivíduo em sociedade.

É que a modalidade midiática da comunicação – enquanto resultante da simultaneidade de duas revoluções: tecnológica, via Internet, informatização total e digitalização; e econômica, por intermédio da globalização – estrutura-se nas autoestradas da informação depois de fundir, na esfera da comunicação, os campos da cultura e da informação criando um novo paradigma cultural de dimensão planetária: a world culture.

“Nas circunstâncias atuais da globalização da economia, da cultura global (world culture) e da ‘civilização única’, estabelece-se o que alguns chamam a ‘sociedade de informação global’, cujo desenvolvimento se mede pela extensão das tecnologias da informação e da comunicação” (Ramonet, 1999:120).

A partir daí, uma nova noção de poder é concebida – um poder que se encontra em toda parte – em contraste com a definição na qual este era fundamentado na imposição coativa de uma pessoa sobre outras, modificando o comportamento destas.  De acordo com Castells (2000, p. 423), a “nova forma de poder reside nos códigos da informação e nas imagens da representação em torno das quais as sociedades organizam suas instituições e as pessoas constroem suas vidas e decidem o seu comportamento”.

Instrumentalizando a geração de sistemas de representação da realidade, os quais possibilitam a compreensão da sociedade, a mídia acaba por proscrever as características do conceito clássico de democracia liberal, tecido no desenvolvimento de uma esfera política, alicerçada no consenso e no interesse geral, e na existência de líderes autênticos que se auto afirmavam no poder muito antes da sociedade os eleger.

Tal afirmação é motivada diante esfacelamento do conceito de democracia, que, na atualidade – como mostra a realidade brasileira –, é reduzido a uma prática política caracterizada por alianças efêmeras, motivadas por conveniências e idiossincrasias particulares, divorciadas do interesse público.  Tais procedimentos desgastam os partidos e contribuem para o descrédito da representação política.

A consequência imediata é a pulverização do controle social em decorrência da inexistência de um centro do poder claramente definido.  Tal fato suscita uma reflexão acerca da produção de novas práticas políticas, permeadas pela modalidade midiática da comunicação, haja vista que “a política está essencialmente inserida, em termos de substância, organização, processo e liderança, na lógica inerente do sistema dos veículos de comunicação, especialmente da nova mídia eletrônica” (Castells, idem, p.374).

É que a crise dos partidos e da representação política solidificou o emprego das novas tecnologias da comunicação e aprimorou metodologicamente o marketing político que, ao utilizar a mídia para a veiculação de pesquisas de opinião, pragmatizou um novo paradigma político, o qual articula os processos eleitorais com os meios de comunicação.

Assim, a televisão, os jornais e o rádio funcionam como um sistema integrado, em que os jornais relatam o evento e elaboram análises, a televisão o digere e divulga ao grande público, e o rádio oferece a oportunidade de participação do cidadão além de abrir espaço e debates político-partidários direcionados sobre as questões levantadas pela televisão” (Castells, idem, 376).

A função política protagonizada pela mídia intensificou-se amplamente a partir dos últimos trinta anos, tanto no plano operacional quanto no aspecto tecnológico.  A partir de então as campanhas eleitorais passaram a combinar o marketing político com a mídia, através das pesquisas de opinião, objetivando a conquista do poder.  “O discurso político é uma jogada de venda articulada, e a participação política está reduzida à escolha entre as diversas imagens consumíveis” (Hardt e Negri, 2001, p.343).

2.1 A Política como espetáculo: o caso brasileiro

Estruturada numa legislação eleitoral ultrapassada e por uma justiça eleitoral despreparada, a Política no Brasil – na questão atinente ao processo eleitoral – transita entre a mistificação, o folclore, o insólito, o patético e o charlatanismo, sobretudo, com relação à dimensão midiática que começa a ser utilizada, a partir da década de 30 do século passado, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder.  É quando se cria o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda.

Inspirado na propaganda desenvolvida pelo nazi-fascismo o DIP estimula um nacionalismo ufanista.  Da época Vargas – contando com o seu retorno pelo sufrágio popular – até Jânio Quadros o clima é otimista e se caracteriza dentro de uma perspectiva mítica a qual pode ser explicada por Girardet (1987:11):

Denúncia de uma conspiração maléfica tendendo a subverter os povos à dominação de forças obscuras e perversas. Imagens de uma Idade de Ouro da qual convém redescobrir a felicidade ou de uma Revolução redentora que permite à humanidade entrar na fase final de sua história e assegura para sempre o reino da justiça.  Apelo ao chefe salvador, restaurador da ordem ou conquistador de uma nova grandeza coletiva”.

Com o golpe militar de 64 o panorama muda.  A repressão política, aliada à censura, molda uma propaganda estimulando o patriotismo contra uma suposta ameaça: o comunismo ateu.  É criada a Rede Globo, projetada nos Estados Unidos, que reforça os valores da ditadura considerada uma revolução irreversível.

A Rede Globo experimenta, então, um vertiginoso crescimento com o regime de concessões privilegiando pessoas ou grupos identificados com os objetivos do governo pós-64, usando-se ‘a Globo ostensivamente como instrumento de propaganda para construir o dito milagre brasileiro, para cooptar a classe média, para fazer a apologia da copa de setenta e se apossar da euforia popular’”( Pinho, 2000:181).

Nesse sentido, torna-se imprescindível a longa citação de Guareschi (1982:46-47) sobre as relações espúrias da Rede Globo com a ditadura e a ameaça que este complexo comunicacional, de dimensões continentais, representa para o conceito clássico de democracia, o qual vincula o voto à manifestação livre e consciente do cidadão.

A história da Rede Globo e sua espantosa ascensão está ligada, em grande parte, à penetração do capital estrangeiro nos meios de comunicação nacionais. Essa penetração, no caso da Globo, já começou nos anos 50, mas se consolidou nos anos 60. O escândalo Globo-Gupo Time-Life nos fornece um exemplo dessa penetração (seguimos, nessa análise, com o trabalho de Sérgio Caparelli*, (1980a: 47-57).

O Grupo Time-Life, em sua política de diversificar suas atividades nas áreas culturais, entrou em contato, primeiramente, com outras entidades brasileiras, como o Estado de São Paulo e os Diários Associados. Ambos recusaram a ajuda do Time-Life.  A Globo aceitou, então, a oferta de mais de 5 milhões de dólares, na época (1962), pois estava em fase de implantação.

De 1962 a 1965 processaram-se as maquinações e confabulações para burlar a legislação brasileira, pois esta proibia a intromissão de capital estrangeiro nos meios de comunicação do País.

Os 5 milhões de dólares entraram no Brasil por caminhos indiretos e seriam destinados à assistência técnica e administrativa, implantação de novas técnicas de programação, controle financeiro, assistência para compra de equipamentos, treinamento de pessoal no estrangeiro (leia-se nos EUA), assistência no que concerne à venda de anúncios etc. A entrada do capital foi feita como um investimento indireto: O Grupo Globo vendeu seu imóvel ao Grupo Time-Life e, em troca, pagaria um aluguel no montante de 45% de seu lucro líquido; pela assistência técnica e formação de pessoal, a Globo pagaria 3% do lucro bruto.

Segundo a Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI –, que examinou o escândalo Globo-Time-Life, em 1967, as perspectivas de capital estrangeiro nos meios de comunicação de massa têm uma ligação com o momento político vivido pelo Brasil após a revolução de 1954.  Apesar de o primeiro contato entre a Globo e Time-Life ter sido assinado em 1962, a inauguração da TV Globo se fez, somente, em 1965, e foi, então, que grandes somas de dinheiro foram derramadas na Globo.  Nesse período, os que assumiram o poder tinham necessidade dos meios de comunicação de massa, principalmente da televisão, para criar uma legitimidade que não possuíam.

O escândalo da Globo só foi descoberto pelo fato de os outros grupos econômicos brasileiros no campo da comunicação, em especial o Grupo Associados, cujo diretor João Calmon era também presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão – ABERT, terem denunciado a manobra.

Os planos da Globo consistiram na criação de um conglomerado, com objetivos comerciais, na mobilização da opinião pública em favor do governo da revolução e em servir de canal de entrada do capital estrangeiro no País, como já acontecera nos outros países da América Latina.

Conforme, ainda Caparelli (1980a:55), a articulação de interesses, no caso Globo Time-Life, parece estar ligado à esfera do Departamento de Estado Norte-Americano. Enquanto se desenvolviam as negociações, o Presidente Eisenhower designou Claire Luce como nova embaixatriz norte-americana no Brasil.  Ora, Claire Luce, que já fora embaixatriz na Itália, era a mulher de Henry Luce, proprietário do Time-Life.  Contudo, o Senado Americano vetou a indicação, provocando uma reação de escândalo do jornal O Globo, do Rio de Janeiro.

A CPI chegou à conclusão de que o acordo Globo-Time-Life era anticonstitucional.  O Presidente Castelo Branco, em vez de cassar a concessão, deu 90 dias de prazo para que a situação se regularizasse “.

O golpe se encarregou de legalizar o processo da Rede Globo. No entanto, a crise do petróleo no Oriente Médio, em 1973, mina os alicerces da ideologia do milagre brasileiro.  De forma embrionária a sociedade civil começa a se insurgir contra os excessos do regime militar.  A primeira reação parte da Igreja Católica, a partir das Comunidades Eclesiais de Base.  Posteriormente, são criados os movimentos sociais os quais emergem dos segmentos mais representativos da sociedade civil.  Sintomaticamente, nenhuma dessas reações de descontentamento é mostrada pela Rede Globo.

De 1982 a 1985, inicia-se o processo de retomada paulatina da redemocratização.  O movimento Diretas, já, desencadeado pela Emenda Dante de Oliveira, em 1984, a qual pugnava por eleições diretas imediatamente, é omitido pela Globo.  Só tardiamente, diante da perda de audiência para outras emissoras, passou a enfocar, tópica e tendenciosamente, o assunto.  Nesse sentido, conforme Lima (2001:142), tanto “o modelo liberal clássico como o modelo marxista-instrumental não conseguem explicar satisfatoriamente como informações políticas importantes foram distorcidas, omitidas ou promovidas pela Rede Globo nesse período”.

Em 1989, com a primeira eleição direta para Presidente da República, após o período militar, a propaganda política ressurge com o nome de Marketing Político para não ser associada com a propaganda ideológica, estigmatizada como características do nazismo e da repressão stalinista. A Política passa a ser teatralizada e reduzida à condição de espetáculo.

De acordo com a lógica do mercado – que diante do processo de globalização da economia elege a mídia como seu principal representante –, o Marketing Político passa a fabricar a imagem do candidato de acordo com o sonho ou o desejo do eleitor.  Daí passar a manipular com categorias simbólicas uma vez que a “falta de envolvimento real do povo na implantação do regime leva à tentativa de compensação, por meio da mobilização simbólica” (Carvalho, 1990:55).

Simultaneamente, o Marketing Político compreende que o poder não pode ser conquistado e, tampouco, mantido, apenas pela força ou pela razão.  Daí o apelo ao emocional, ao sentimento haja vista que a chegada ao poder “só se realiza e se conserva pela transposição, pela produção de imagens, pela manipulação de símbolos e sua organização em um quadro cerimonial” (Balandier, 1982:7).

Não é à toa que a televisão passa a ser o instrumento mais eficaz no processo político.  Meio de comunicação de maior persuasão, a mídia televisiva reflete a predominância da imagem sobre a leitura.  Esta privilegia a abstração. Aquela apela diretamente à dimensão volitiva. Ademais:

A debilidade da cultura nacional é propícia ao fortalecimento da televisão como aparelho dos sentidos, como apelo estético irresistível, como madrinha da modernidade nacional, árbitro de qualquer decisão – do amaciante de roupas ao voto –, fábrica e síntese do gosto e da cultura” (Weber, 2000:122).

Por outro lado, a falta de esclarecimento do cidadão sobre os direitos mínimos e o analfabetismo político cria um imaginário que associa Política à perfídia, à traição, à falsidade, ao embuste e à satisfação de interesses individuais: o voto é reduzido à condição de mercadoria.

A inexperiência brasileira com a democracia, fortalecida pelas mídias, dissocia o voto da mudança social e restringe à condição de expectador a função política do cidadão e do candidato. A votação aparece como brinde ou castigo, maniqueísmo das mídias, mostrando a política e seus candidatos dissociados do partido e estes sem ideologia” (Idem:119).

Dramatizando o simulacro e a representação, o Marketing Político cria, na televisão, uma gramática cujos signos atingem valores e atitudes dos espectadores que são influenciados por pesquisas de opinião e discursos programados de acordo com as aspirações do potencial eleitor.  Conforme Martin-Barbero, (:31):

Por outro lado, a televisão se constitui em ator decisivo das mudanças políticas, em protagonista das novas maneiras de fazer política, uma vez que é nela onde permanente simulacro das pesquisas suplanta a participação cidadã e onde o espetáculo escamoteia até dissolver, o debate político”.

Otávio Ianni (2001) conceitua a mídia televisiva como o Príncipe Eletrônico o qual supera a figura do príncipe, enquanto articulador político, conforme a concepção de Maquiavel; da mesma forma em que destroça a concepção do príncipe moderno, de Gramsci, que consiste numa organização que, via partido político, busca a hegemonia política, a qual consiste na conquista e preservação do poder.

O príncipe eletrônico é uma entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua, permeando continuamente todos os níveis da sociedade, em âmbito local, nacional, regional e mundial.  É o intelectual coletivo e orgânico das estruturas e blocos de poder presentes, predominantes e atuantes em escala nacional, regional e mundial, sempre em conformidade com os diferentes contextos socioculturais e político-econômicos desenhados no novo mapa do mundo” (Ianni, 2001:64-65).

Embora não seja concreta, essa nova modalidade de poder é real, uma vez que um “dos segredos do príncipe eletrônico é atuar diretamente no nível do virtual. Beneficia-se amplamente das tecnologias de linguagens que a mídia mobiliza para realizar e desenvolver cotidianamente a virtualização” (Idem: 74).

Combinando a coerção – por intermédio da violência simbólica – com a sedução o Marketing Político ver nas mídias um instrumento indispensável para a ação política em decorrência do poder destas de configurarem uma lógica criadora de novos códigos linguísticos, visuais, estéticos, sociais e simbólicos.

Diferentemente do que aconteceu na Europa e os Estados Unidos, o sistema político brasileiro não gerou partidos políticos de massa que pudessem exercer o seu papel de elos de ligação entre o estado e a sociedade civil, como é característico de uma democracia representativa moderna. Assim, os partidos políticos deixam algumas lacunas em sua atuação como instituições inerentes à democracia, que podem facilitar aos meios de comunicação de massa uma participação decisiva na formação de idéias e atitudes políticas do cidadão” (Pinho, 2000:183).

3 – Conclusão

A centralidade da mídia na vida cotidiana é, talvez, a maior característica deste início de milênio.  A virtualidade passa a ser real revivendo o clássico Mito da Caverna, de Platão, no qual um grupo de escravos confundia as sombras com a realidade.  As tecnologias midiáticas, porém, mostram uma sombra colorida e mais definida nas infovias da informação.

De uma maneira geral, a realidade passa a ser vivida através do simulacro, da simulação e da representação como consequência inexorável de um processo de globalização da economia que se instrumentaliza através da fusão da telemática, ou seja, da resultante da fusão das tecnologias da comunicação com as tecnologias da computação.

Sob o impacto da telemática alguns conceitos que permearam as ciências sociais do Século XIX, um século marcado pelas grandes narrativas e pela crença inabalável nos projetos teleológicos, se desencaixam da experiência cotidiana.  A noção de progresso torna-se ambígua diante da impossibilidade de uma isonomia deste, o que, em cinco anos, acabaria com todos os recursos naturais do planeta.

As barreiras geográficas são rompidas pela globalização, através da transmissão de informações em tempo real, ao mesmo tempo em que a centralidade do trabalho é quebrada, revelando uma nova e excludente lógica do capital, a qual não forma mais exércitos industriais de reserva: simplesmente elimina, exclui. A especulação financeira torna-se o instrumento supremo da produção.  A vida passa a ser um jogo e, como todo bom jogo, tem que ser lúdico.

Neste exercício lúdico a vida é reduzida a um espetáculo, a uma tele realidade como forma mitificadora e escatológica de conformação e subalternização.  Daí o culto ao individualismo consumista e narcisista que se masturba de dor na sensaboria da virtualidade afetiva.

Diante dessa situação a Política, enquanto construção humana, não poderia deixar de refletir tais categorias, sobretudo num País feito o Brasil, permeado pela mutilação da cidadania e pela desinformação política.  Da mesma forma, inexistem partidos com ideologias e identidades próprias que arregimente as massas.

A representação política, lamentavelmente, é fisiológica e, por isso mesmo, descompromissada com a dimensão coletiva.  Esse panorama leva ao ceticismo e ao descrédito na política.  Esta ressurge através do espetáculo encetado pelo marketing e reproduz a lógica da globalização e, via de consequência, a lógica do mercado.  O poder é o mercado, o candidato a mercadoria e o eleitor a moeda. Daí a sedução e a coerção simbólica durante os pleitos eleitorais e a consequente desilusão depois da realização destes.

Percebendo a extemporaneidade das práticas clientelistas e coronelistas, o postulante político tem que se adequar aos novos tempos.  O favor pessoal é insuficiente para uma vitória.  É preciso criar uma imagem, um sonho, um mito.  Neste contexto, entra o profissional de marketing que “fabrica” o candidato de acordo com a preferência do eleitorado, ou seja, cria uma imagem, um mito.

O processo de mitificação é concretizado através da mídia, sobretudo, com relação a dois meios de comunicação de massa: o Rádio e a Televisão uma que esta é o instrumento de maior persuasão e aquele o de maior penetração. A mídia passa a desempenhar um papel mais ideológico do que de formação de opinião e de esclarecimento.

Tal fato aponta para a necessidade em se promover reflexões interdisciplinares sobre a democratização dos meios de comunicação de massa no Brasil, cuja estrutura perversa é pior do que as capitanias hereditárias.  A comunicação de massa no Brasil encontra-se na mão de apenas sete famílias: Mesquita (O Estado de São Paulo); Frias (Folha de São Paulo); Sirotsky (RDB); Civita (Abril); Marinho (Globo) e Saad (Bandeirantes).

Ao mesmo tempo em que não encontram dificuldades em dramatizarem, representarem e simularem a política brasileira, a fim de lhe dar uma suposta legitimidade, a comunicação de massa no Brasil é uma ameaça ao cidadão comum, indefeso, porque o aliena.  Simultaneamente “sataniza” aquilo que lhe fere os interesses a exemplo dos movimentos sociais e dos segmentos pensantes.  Por que tanto rancor contra os cursos de Jornalismo? Por que ser contra ao Diploma de Jornalista?  No Japão, por exemplo, uma graduação em Jornalismo é feita em oito anos.

Fato notório e incontestável, a mídia estrutura o cotidiano. É poder. Diante destas constatações infere-se a reflexão sobre a relação Mídia/Poder é uma das temáticas mais importantes da contemporaneidade por reunir aspectos políticos, históricos, sociológicos, antropológicos, psicológicos, biológicos e linguísticos.

4 – Referências Bibliográficas

BALANDIER, G. O poder em cena. Brasília: UNB, 1982.

CARVALHO, J.M. A formação das almas. O imaginário da república no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

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