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Justiça & Direito

- Atualizado em

Romance forense: Shangri-la, a capital da magistratura

Última semana antes do recesso, o Doutor Sofrenildo – advogado zeloso – matutava sobre as perdas do decêndio:

1) Uma audiência não realizada por pane na internet;

2) Outra audiência adiada porque a juíza entrara em licença;

3) Uma reintegração de posse frustrada, porque o esbulhador exibira, ao oficial de justiça, um quente atestado que comprovava estar ele acometido de Covid-19;

4) Meia dúzia de diferentes alvarás não expedidos porque os autos se encontravam “conclusos” aos respectivos magistrados.

E por aí…

Foi então que o Doutor Sofrenildo lembrou-se de uma sugestão dada por um conselheiro da Ordem Internacional dos Advogados: “Pega um veículo, toma o rumo do Himalaia e, nos condomínios de luxo dali, encontrarás magistrados disponíveis a receber advogados e a prestar-lhes pronta prestação jurisdicional presencial”.

Assim fez. O Doutor Sofrenildo foi direto a Shangri-la, aquela da criação literária de 1925 do inglês James Hilton, definida como um lugar paradisíaco situado nas montanhas do Himalaia. Um local onde o tempo parecia deter-se em um ambiente de felicidade e saúde, com a convivência harmoniosa entre pessoas das mais diversas procedências.

E nessa conjunção prazerosa, o Doutor Sofrenildo adentrou em um ecológico condomínio, anunciando-se como “advogado militante, interessado em falar com o Juiz Doutor Otoniel e seus colegas que aqui residem”. De imediato, educados seguranças facilitaram-lhe o acesso. Em meia dúzia de modernas quadras de tênis, todas com vista para um embasbacante mar azul calipso, realizava-se o “Permanente Jus Campeonato de Beach Tennis”.

Percebendo o visitante, todos os magistrados tenistas interromperam as respectivas partidas e recepcionaram o Doutor Sofrenildo, a quem perguntaram em coro: “Em que podemos ajudar?”.

Modesto, o advogado explicou: “Tentando melhorar o meu Natal, após mais um ano de tantas perdas, aqui venho em busca das assinaturas de Vossas Excelências. Suplico pelo menos três dos seis alvarás a que faço jus, após demorados processos”.

Enquanto o garçom oferecia gelada água de coco ao visitante, dois estagiários rapidamente se movimentavam. Assim, em poucos minutos o advogado recebeu não os três, nem os seis, mas sete alvarás – o último deles relativo a um inesperado e polpudo precatório vintenário.

Antes que agradecesse aos doutos tenistas e partisse de volta à sua casa, o Doutor Sofrenildo sentiu um rápido tremor corporal. E – decepção – logo percebeu que estivera sonhando, em sua própria casa, na urbe congestionada. Então levantou-se, tomou um banho relâmpago, vestiu-se.

A esposa (Dona Sofrência) serviu-lhe um breakfast rápido, e ele partiu em direção ao Foro Central. Estava esperançoso de que seus alvarás tivessem sido assinados.

Na chegada, viu na porta (fechada) do prédio, um aviso em letras garrafais: “Antecipamos em um dia a vigência do recesso. Volte em 1º de fevereiro de 2022”.

Enfartado, o Doutor Sofrenildo sucumbiu ali mesmo. O médico legista chamado pela OAB atestou: “Morreu de tristeza e decepção”.

E Shangri-la – com seus penduricalhos – continua sendo a realidade de um novo mundo possível.

Extraoficialmente.

FONTE: ESPACOVITAL.COM.BR

#capital #magistratura

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