Capaz de causar mais estragos no centro do poder do que a lista do mensalão, a agenda da cafetina Jeany Mary Corner está com a Polícia Federal (PF). O bloco que conteria nomes de políticos e autoridades foi entregue pela própria dona aos delegados que investigam a suposta mesada paga a parlamentares da base governista. A mulher apontada como a mais famosa agenciadora de garotas de programa da capital do país prestou depoimento na tarde da última quinta-feira à PF, em São Paulo.
Jeany foi intimada a dar esclarecimentos à PF sobre as festas realizadas no fim de 2003 no Hotel Grand Bittar, no Setor Hoteleiro Sul de Brasília. Os eventos, com petistas de primeiro escalão e diretores de estatais entre os convidados, teriam sido organizados em comemoração a licitações vencidas por empresários amigos ou mesmo para a distribuição do suposto mensalão, já que algumas datas de saques coincidem com as festas no hotel.
O nome dela surgiu na CPI dos Correios, depois que o senador Demóstenes Torres (PFL-GO) perguntou se Simone Reis Vasconcelos, diretora financeira da SMPB — uma das empresas de Marcos Valério de Souza — conhecia a cafetina Jeany. Simone negou. Muito se comentou das tais festas, regadas a uísque e energéticos, e de quem delas participou.
Mas quem poderia fornecer essas pistas pouco ajudou. De acordo com seu depoimento, Jeany administra uma empresa de promoção de eventos e não mexe com prostituição. Não soube apontar os convidados desses eventos, porque não ia a eles. Ela admitiu, no entanto, que foi procurada por três vezes por Ricardo Penna Machado, ex-sócio de Marcos Valério na MultiAction, para organizar as festas no Grand Bittar. Participou, inclusive, de um jantar em companhia de Machado e das recepcionistas — como se refere às moças contratadas por ela — para que ele as conhecesse.
No primeiro evento, em setembro de 2003, afirmou ter organizado festa para 20 convidados. Para entretê-los, enviou oito garotas. O que elas fizeram durante ou depois da festa Jeany não soube dizer aos policiais, também sob a justificativa de que não acompanhava os eventos. Disse que a administração ficava sob a responsabilidade de Carla Cristina Lara, namorada de Rogério Buratti, ex-assessor do ministro Antonio Palocci na gestão do petista na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP).
Em novembro, ocorreu o segundo evento no Grand Bittar. Dessa vez, a festa era para um público maior — que ela não soube apontar durante o depoimento. Foram enviadas para o evento 18 meninas. Os acertos das duas recepções foram feitos com Ricardo Machado. Ela negou conhecer o empresário Marcos Valério. Foi procurada para uma terceira festa, que não ocorreu, mas chegou a viajar a Goiânia para recrutar as recepcionistas para o evento. Jeany não informou o quanto recebeu por cada festa, mas disse que cada recepcionista custa R$ 150, ficando 20% para ela.
Também à Polícia Federal, porém, Machado afirmou que fez contato com Jeany a pedido de Marcos Valério e que os custos ficaram sob a responsabilidade do sócio. Em nota divulgada no mês passado, Valério negou que tivesse “colaborado ou financiado festas para políticos com participação de garotas de programa”.
Festa para Virgílio
Jeany Mary Corner afirmou à Polícia Federal que, no início do ano, organizou evento de promoção da candidatura do deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) à presidência da Câmara. As recepcionistas contratadas circulavam pelo Hotel Nacional, em Brasília, com camisetas baby look estampadas com o nome dele. Virgílio negou que a cafetina tenha promovido a festa. “Não a contratei. Fui homenageado num jantar”, disse o deputado, segundo o qual a recepção foi oferecida por um grupo de empresários mineiros. Ele acrescentou que o evento foi público e registrado pela TV. “Tudo ocorreu de forma discreta e respeitosa. A equipe de Jeany foi muito competente”, ironizou.