Maceió — O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), insiste que não tem negócios com o usineiro e ex-deputado João Lyra, hoje um de seus principais algozes. A versão de Lyra (foto), apresentada na quinta-feira ao corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP), é bem diferente. Ele disse ter mantido uma parceria política e financeira com Renan até 2005. Naquele ano, quando a sociedade em veículos de comunicação foi desfeita, o presidente do Senado teria cumprido uma parte do acerto: obter a concessão de uma rádio para Lyra em Maceió. O corregedor recebeu um documento em que Renan trata da concessão.
Ao depor a Tuma, na sede de seu grupo empresarial no bairro de Guaxuma, Lyra entregou um ofício, assinado por Renan, de 24 de junho de 2005. No documento, o presidente do Senado informa à direção da Rádio Paraíso (composta pelo próprio usineiro) ter assinado o Decreto Legislativo nº 627, que renovava a concessão da emissora para exploração “de serviço de audiodifusão sonora em onda média” na capital alagoana. Encaminhava, em anexo, cópia do decreto.
Renan foi rápido em comunicar aos conterrâneos a renovação da concessão. A rádio se chamava originalmente Rádio Educadora de Palmares. O processo iniciado no Ministério das Comunicações, aprovado pela Câmara dos Deputados, teve seu desfecho no dia 17 de junho de 2005 no plenário do Senado, quando não foi apresentada qualquer queixa ao parecer proposto pela Comissão de Educação. No dia 22 de junho, o decreto foi publicado no Diário Oficial da União. Dois dias depois, Renan tratou de comunicar a decisão ao dono da rádio.
Segundo Lyra, a renovação da concessão da emissora fez parte de um acerto no qual o usineiro e Renan desfaziam a sociedade, montada em 1998, para compra da Empresa Editora O Jornal e da Rádio Manguaba do Pilar. Lyra teria ficado com o impresso e Renan com a rádio. O usineiro argumentou que precisava também ter uma emissora de rádio. O presidente do Senado teria ficado incumbido, então, de obter a concessão de uma rádio para o ex-sócio. No acerto final entre os dois, o ex-deputado teria repassado R$ 500 mil a Renan, relatou Lyra, no depoimento.
Em resposta, Renan Calheiros, por meio de sua assessoria, levantou suspeitas sobre a veracidade dos documentos do adversário e avisou não ter informações, ontem, sobre a concessão citada por Lyra. Disse que pode ter enviado o ofício pois, como senador de Alagoas, acompanha o processo de concessão de emissoras de rádios a pedido de representantes das emissoras. Ele disse que envia “comunicação de rotina” para avisar da concessão e “não interfere” no processo pois não tem poderes para isso. Sua função, reafirmou, é apenas assinar os decretos de concessão. A resposta de Renan deixa claro, porém, que o presidente do Senado não perdeu a oportunidade de tirar proveito político das concessões de rádio aprovadas pela Casa para seu estado.
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Quem está sendo investigado é Renan e cabe a ele disponibilizar o sigilo bancário e fiscal de Uchôa e tudo se esclarecerá
João Lyra, ex-deputado
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O NÚMERO
R$ 500 mil
é quanto Lyra disse ter repassado a Renan
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Vídeos de campanha
Aliados de João Lyra também divulgaram, ontem, dois vídeos para desmentir Renan. Em uma carta, na quinta-feira, para demonstrar não ter negócios com o usineiro, o presidente do Senado disse ter feito campanha com ele pela última vez em 1986. Em um vídeo de 2002, Lyra, o senador e o atual governador de Alagoas, Teotônio Vilela, participam de comício juntos em União dos Palmares. O usineiro pede votos para os dois, que se elegeram senadores. Lyra elegeu-se deputado federal.
Em outro vídeo, Lyra abraça amistosamente Renan e a esposa Verônica em fevereiro de 2004, em meio ao bloco Pinto da Madrugada, no carnaval fora de época de Maceió. Em resposta, Renan disse que se referia na nota a coligações eleitorais formais com o agora desafeto e não excluía eventual apoio pessoal de Lyra.