Milhares de advogados participaram de protestos ocorridos em todo o Paquistão contra a demissão do juiz Iftikhar Mohammed Chaudhry, do Supremo Tribunal paquistanês, entrando em confronto com a polícia e mantendo uma crise judicial que ameaça o poder do presidente do país, Pervez Musharraf.
Enquanto isso, no noroeste do país, combates entre membros de tribos locais e insurgentes uzbeques supostamente ligados à rede terrorista Al Qaeda entraram no terceiro dia de lutas, com um número de mortos não confirmado, mas que varia de mais de 50 a até 106 pessoas.
O norte do Paquistão também tem sofrido com chuvas torrenciais que já fizeram pelo menos 70 vítimas.
O juiz Chaudhry foi demitido pelo presidente Musharraf no dia 9 de março, acusado de cometer abuso de poder.
Embora o governo afirme que a demissão não teve motivos políticos, advogados em greve nacional e partidos de oposição acusam Musharraf de tentar controlar o Supremo Tribunal antes da realização de eleições que devem trazer desafios legais para seu governo.
Nesta quarta-feira, cerca de 3.000 advogados fizeram passeata no leste da cidade de Lahore, gritando slogans contra o governo. Advogados também boicotaram procedimentos em tribunais em toda a Província do Punjab.
Antes do protesto, a polícia prendeu cerca de cem ativistas em suas casas para tentar impedir manifestações violentas, disse um oficial da polícia de Lahore. Aftab Cheema, chefe de operações da polícia, admitiu que “poucas pessoas” foram presas, mas não quis dar detalhes.
Na cidade de Quetta, no sudoeste, cerca de 200 advogados entraram em confronto com a polícia em uma marcha anti-Musharraf nesta quarta-feira. A polícia usou bastões e bombas de gás lacrimogêneo.
Houve protestos também em Karachi, a maior cidade do Paquistão, e na capital, Islamabad, onde centenas de pessoas que apóiam partidos religiosos de oposição fizeram manifestações perto do Supremo Tribunal.
Confrontos no noroeste
Também nesta quarta-feira, confrontos entre insurgentes uzbeques, supostamente ligados à rede terrorista Al Qaeda, e membros de tribos locais no Waziristão do Sul, no noroeste do Paquistão, se intensificaram, no terceiro dia de combates que deixaram dezenas de mortos. Os números divergem, de ao menos 50 até 106 vítimas.
O governo paquistanês considera os confrontos como um sinal de sucesso de seu controvertido plano de fazer com que os membros de tribos locais, e não das forças de segurança, combatam insurgentes estrangeiros.
Alguns analistas, porém, vêem os confrontos como uma luta de facções entre grupos militantes locais em uma região sem lei perto da fronteira com o Afeganistão, onde muitos simpatizam com o Taleban (grupo extremista islâmico deposto por uma coalizão liderada pelos EUA no final de 2001, que controlava mais de 90% do Afeganistão).
“Tribos locais lutando contra rebeldes estrangeiros são o resultado de uma política do governo”, disse o ministro do Interior, Aftab Khan Sherpao.
Na primeira confirmação oficial de mortes, Sherpao disse que mais de 50 pessoas morreram nas lutas, incluindo 40 insurgentes estrangeiros e seus aliados locais. Outros uzbeques foram detidos ou se entregaram, acrescentou.
Mas oficiais militares e de inteligência, que pediram anonimato, disseram que cerca de 70 pessoas morreram, incluindo membros de tribos locais liderados por Maulvi Nazir. Nazir é descrito como sendo “pró-governo”, embora ele seja conhecido como um simpatizante da causa taleban.
Um oficial da inteligência paquistanesa disse que as lutas nas vilas Kalosha, Azam Warsak e Doza Ghundai deixaram 106 mortos e 120 feridos.
Taleban
O governo do Paquistão, um aliado na guerra contra o terror dos Estados Unidos, há muito incita os homens das tribos do Waziristão do Sul a expulsarem insurgentes árabes e militantes da Ásia Central da região, mas com pouco sucesso.
Muitos desses insurgentes mudaram para as regiões tribais do Paquistão depois da queda do regime taleban no Afeganistão em 2001.
Há suspeitas de que a área serve de esconderijo para líderes da Al Qaeda, como Osama bin Laden e Ayman al Zawahiri.
O Waziristão do Sul também é visto como um refúgio de talebans que atacam as tropas dos EUA e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Afeganistão.
Chuvas
Também no norte do Paquistão, mais de 70 pessoas morreram em deslizamentos de terra e acidentes provocados pelas chuvas torrenciais que afetam a região há dois dias, informaram nesta quarta-feira as autoridades locais.
Na área paquistanesa da Caxemira, 37 pessoas foram vítimas de deslizamentos de terra. A região foi afetada em outubro de 2005 por um forte terremoto que fragilizou os terrenos locais.