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Câmara se omite sobre militância de aluguel

Numa sexta-feira útil, dia de trabalho para a maioria dos brasileiros, as principais autoridades da Câmara dos Deputados, responsáveis por responder pela instituição, silenciaram. Ontem, durante todo o dia, o Correio tentou contato com o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e com o corregedor, Átila Lins (PSD-AM), para ouvi-los sobre o pagamento, em dinheiro vivo, a uma claque formada para aplaudir deputados favoráveis à nova lei dos caminhoneiros. A cena foi flagrada pela reportagem, na noite da última terça-feira, nas dependências da Casa, logo após a votação da proposta. A responsabilidade pela distribuição de notas de R$ 20 e de R$ 50 foi assumida justamente por mais uma autoridade que poderia ser acionada pelo cidadão a agir sobre o caso: o ouvidor da Casa, deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP).

Não houve retorno. Henrique Alves passou o dia em Mossoró, Rio Grande do Norte, estado em que deve disputar o governo nas próximas eleições. Lins, segundo assessoria de imprensa, estava no interior do Amazonas, onde tentará se reeleger deputado. Único a atender, o presidente do Conselho de Ética, deputado Ricardo Izar (PSD-SP), informou que o colegiado só pode investigar se houver representação. Já o PSol anunciou ontem que vai pedir à Secretaria-Geral da Câmara dos Deputados apuração sobre o caso.

“Desconfiávamos de que havia uma plateia comprada porque as pessoas não tinham nada a ver com a classe interessada. Pareciam não entender o conteúdo negativo do projeto aos caminhoneiros. O vídeo gravado pela reportagem do Correio se soma a indícios que tínhamos, e isso merece uma investigação séria sobre a ilicitude”, disse o líder do PSol, deputado Ivan Valente (SP).

Ao se posicionar contrariamente ao projeto, Valente se tornou alvo de vaias da claque. “É uma proposta contrária ao interesse público e, sobretudo, à vida, já que expande a carga horária dos caminhoneiros para 12 horas. Isso (motoristas cansados) coloca em risco todos que trafegam pelas estradas brasileiras. Como um projeto contrário às leis trabalhistas poderia ter um apoio tão grande?”, questiona o deputado. Valente se refere aos aplausos calorosos recebidos por parlamentares que se posicionavam a favor do projeto, na tribuna.

Logo depois da votação, por volta das 22h de terça-feira, um grupo de cerca de 30 pessoas se dirigiu à chapelaria do Congresso, onde começou o repasse de dinheiro. Com a grande movimentação no local, foram orientados a seguir para o gabinete do deputado Nelson Marquezelli, no 9º andar do Anexo IV. O parlamentar, integrante da bancada ruralista, presidiu a comissão especial que analisou o projeto e era um dos mais aplaudidos pela claque ao fazer a defesa da proposta em plenário. Na sala do deputado, o grupo foi orientado a subir para o 10º andar, onde não há gabinetes.

O vídeo gravado pela reportagem e disponível no site do Correio mostra as pessoas na fila, à espera de pagamento. À frente, em uma bancada, duas mulheres, com crachá de funcionários da Câmara, distribuem notas de R$ 20 e de R$ 50 depois de conferirem os nomes em lista. Ao perceber a presença da reportagem, uma das mulheres se irrita e manda o grupo deixar o local. A distribuição continua, então, em um dos estacionamentos da Casa.

Fonte: Correio Braziliense

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