O ex-policial civil Jorge Luiz Fernandes, o “Jorge Abafador”, condenado a pena de 47 anos de reclusão por dois homicídios, foi transferido essa semana da Delegacia de Cidade Alta para o Comando da Polícia Militar, no Tirol, por determinação da Justiça. A transferência ocorreu porque o preso teria privilégios na delegacia, de onde, segundo denúncias, ele saía quando queria.
A transferência foi determinada pelo desembargador Amaury Moura Sobrinho, atendendo a pedido do Ministério Público Estadual. “Jorge Abafador” deixou a cela da 1ª DP – onde estava há três anos – levando apenas uma mala com roupas e objetos de uso pessoal. Chateado, o preso usou uma máscara preta emprestada por um colega policial e óculos escuros para esconder o rosto.
Ele foi escoltado por duas equipes de policiais de elite até o Instituto Técnico Científico de Polícia, na Ribeira, para exames de corpo delito e depois foi encaminhado ao comando da PM. Durante todo o trajeto, ele preferiu não falar com a imprensa.
O Ministério Público, no pedido de transferência, citou que a custódia de “Jorge Abafador” na delegacia é um “desvio de execução da pena”. O preso, segundo as denúncias, saía da delegacia quando queria e tinha outros privilégios. Outra denúncia dá conta que o preso usava a delegacia como “prostíbulo e local de bebedeira”.
Na verdade, “Jorge Abafador” tinha autorização judicial para dar expediente interno na delegacia até às 18 horas, quando deveria retornar para a cela. “Estou aqui há oito meses e ele nunca saiu da delegacia para canto nenhum. A custodia dele atendia as determinações judiciais”, disse o delegado do 1º DP, Sílvio Fernando, que está na titularidade da delegacia há oito meses.
As denúncias de saída irregular da cela são investigadas pela Corregedoria da Polícia. Existem vários indícios de que o ex-policial recebe privilégios. Um deles dá conta que “Jorge Abafador” estaria ameaçando de morte funcionários da Junta Médica do Estado para tentar se aposentar. O ex-policial teria ido à Junta Médica algumas vezes – no horário em que deveria estar preso – e ameaçado os médicos.
Os relatos dos crimes cometidos por “Jorge Abafador” chegaram à CPI do Grupo de Extermínio e até na Organização das Nações Unidas (ONU). Ele foi citado em vários casos de execução e morte. “Jorge Abafador” é acusado de participar da chacina de Mãe Luíza. Ele está preso desde 1995. A transferência é temporária, mas existe um pedido do MP para que o ex-policial seja transferido para um presídio de segurança máxima, onde deve ser submetido a um regime disciplinar especial. O MP vem pedindo a transferência do preso desde 2001. Um recurso que tramita no Tribunal de Justiça, com o pedido de transferência para um presídio, deve ser julgado ainda este ano.