Enquanto a Câmara Federal caminha para a aprovação de lei que proíbe a contratação de parentes até segundo grau na União, Estados e municípios, a Câmara de Fortaleza dá sinais de que a prática está longe de ser abolida. Na recentemente formada mesa diretora da Casa, pelo menos quatro dos seis componentes possuem parentes lotados em seus gabinetes. A mãe e um irmão da prefeita Luizianne Lins (PT) também foram convidados para trabalhar na Casa.
O presidente da Câmara, Tin Gomes (PHS), mantém o irmão Carlos Frederico Carmo Gomes no quadro de assessores parlamentares, em seu gabinete. Para Tin, o caso não pode ser enquadrado como nepotismo, uma vez que o irmão o acompanha na vida pública há mais de 12 anos. Em sua opinião, nepotismo seria se os seus oito irmãos estivessem empregados na Casa.
Tin alegou que além de conhecer o seu trabalho na vida pública, Carlos Frederico também acumula experiência própria na área política porque já foi vereador e vice-prefeito em Santa Quitéria. ”Ele vai ser meu sucessor. Se eu for deputado, com certeza ele vai ser candidato a vereador”, sinalizou.
A chefe de gabinete do 1º vice-presidente da Casa, Sérgio Novais (PSB) é a irmã do vereador, Eliane Novais. Ele alega que a irmã trabalha com ele há 14 anos. Para Sérgio, o nepotismo é um problema histórico no Brasil e que a situação se agrava porque acabam acontecendo deformações. ”Concordo que deve existir uma legislação no Brasil que evite os abusos existentes. Mas, o pessoal que trabalha comigo, realmente trabalha”.
Além da irmã Eliane, Sérgio Novais convidou o irmão da prefeita Luizianne, Samuel Lins, para ser seu assessor parlamentar. Mas o vereador disse não considerar nepotismo no caso de Samuel, porque não existe grau de parentesco. Na realidade, Samuel é tio do filho de Sérgio com Luizianne. ”Eles não estão escondidos. São duas pessoas que estão expostas, mas que eu assumo a responsabilidade, porque são de minha confiança e que trabalham”.
Já a mãe de Luizianne, Luiza Maria de Oliveira Lins, é servidora da Prefeitura de Fortaleza desde 1973. Mas no ano em que a filha chegou à frente da administração pública, Luiza deixou o Instituto Municipal de Pesquisa, Administração e Recursos Humanos (Imparh), onde estava lotada desde 1982, e aceitou convite do presidente da Câmara para ser coordenadora cultural do Instituto de Pesquisa Américo Barreira (Ipab), cargo de confiança de Tin Gomes. O Ipab funciona em uma sala da Câmara, mas em estrutura precária e poucos funcionários da Casa têm conhecimento sobre o instituto.
A nomeação, de número 0342/2005, foi assinado por Tin Gomes e publicada no Diário Oficial do Município (DOM) no dia 22 de março, com efeito retroativo para o dia 1º de março.
A aproximação entre Luiza Lins e Tin Gomes se deu ainda no segundo turno das eleições em Fortaleza, no ano passado. Segundo Luiza, quando Tin soube que ela era funcionária pública do Imparh, logo pensou em seu nome para coordenar o Instituto de Pesquisa Américo Barreira. ”Sou pedagoga, trabalho com pesquisa e com concurso. Tenho 30 anos de experiência com a cidade e também com os órgãos municipais”.
Sobre o fato de sua atuação no Ipab ser considerada um ato de nepotismo, Luiza respondeu que Luizianne nunca teve parentes trabalhando com ela. ”Ela (Luizianne) não me colocou na Câmara. Eu estava credenciada para o cargo por ser funcionária pública e por ter competência”.