A Polícia Federal vai abrir inquérito contra 3,5 mil pessoas e empresas suspeitas de movimentações ilegais de dinheiro nos Estados Unidos. Políticos, servidores públicos, empresários, artistas e jogadores de futebol estão entre os alvos da investigação. O grupo é acusado de usar doleiros e a conta Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova York, para fazer as operações, que consistiam tanto na remessa como no recebimento de dinheiro. Todos responderão por evasão de divisas, crime contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. As transações totalizam US$ 1 bilhão.
Entre os políticos da lista, segundo fontes na PF, está Paulo Salim Maluf. Por meio da Beacon Hill, o ex-prefeito de São Paulo realizou negociações num total de US$ 37,2 mil — valores bem mais modestos que os US$ 161 milhões atribuídos a ele e ao filho Flávio pelo doleiro Vivaldo Alves, o Birigüi, dinheiro movimentado no Safra National Bank de Nova York (EUA). Os dois Maluf estão presos em São Paulo há duas semanas, acusados de coagir testemunha e prejudicar a instrução do processo.
Transações
Celebridades também não escaparam da investigação da PF. Foram identificadas transações da Xuxa International Corporation, com sede no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. A empresa cuida dos negócios da apresentadora Xuxa Meneghel no exterior. O advogado Luiz Cláudio Moreira, da Xuxa Produções, informou ontem que a corporação movimenta recursos nos EUA, mas que todas as transações são legais e refletem na contabilidade aqui no Brasil, o que, segundo ele, faz com que a tributação recaia sobre todas elas. “Se alguma empresa que fizemos pagamentos indicou a Beacon Hill, foge totalmente do nosso controle”, argumentou o advogado.
O jogador de futebol Romário também apareceu na lista em poder da Polícia Federal, com transações que totalizam US$ 247 mil. Outro nome é o do banqueiro Daniel Dantas, dono do Oportunity, e investigado pela CPI dos Correios por envolvimento no escândalo dos mensalão. Assessores dos dois foram procurados pela reportagem, mas não retornaram as ligações.
Farol da Colina
As investigações sobre essas irregularidades começaram com a operação Farol da Colina (uma versão em português para Beacon Hill) há um ano — desdobramento da investigação do caso Banestado, também acusado de remessas ilegais ao exterior. Na primeira etapa da operação, a Polícia Federal conseguiu prender 70 doleiros em todo o país.
A partir de informações reunidas e analisadas durante a Farol da Colina, a Receita Federal notificou e começou a cobrar impostos e multas de aproximadamente 3,5 mil pessoas e empresas — um mutirão para tentar recuperar parte do dinheiro enviado ilegalmente ao exterior. Os valores de cada remessa variam de US$ 30 mil a US$ 20 milhões.
Com os doleiros fora de circulação — entre os quais Antonio Claramunt, o Toninho Barcelona, condenado a 25 anos de prisão —, começa a fase para tentar responsabilizar criminalmente todos aqueles que utilizaram a rede ilegal. Os processos correrão nos estados onde moram os acusados. Para São Paulo, serão enviados 2,2 mil dossiês, enquanto o Rio de Janeiro receberá 720, entre eles Xuxa, Romário e Dantas. Para Minas Gerais, onde operam doleiros ligados ao suposto esquema de corrupção operado pelo Partido dos Trabalhadores, seguem 300 inquéritos.