Durante a acareação com quatro sacadores de recursos de suas contas bancárias, feita na última quinta-feira pela CPI do Mensalão, o publicitário Marcos Valério de Souza revelou que o dinheiro chegou a ser entregue em domicílio pela corretora Bônus Banval. Segundo ele, a empresa paulista cobrava 3% de comissão pelo serviço. “A Bônus mostrou segurança, foi um ótimo negócio”, falou, diante de uma platéia boquiaberta de deputados e senadores.
A revelação de Valério ocorreu quando a sessão de acareação já durava mais de 12 horas – começara às 10h –, às 23h47 da última quinta-feira. O senador Rodolpho Tourinho (PFL-BA), que o interrogava na ocasião, ficou perplexo. “Acho que o serviço de entrega de dinheiro era um dos principais papéis da Bônus Banval nesse esquema todo”, afirmou Tourinho, após a sessão, já na madrugada de sexta-feira.
Marcos Valério explicou que a entrega em domicílio tornou-se necessária quando a diretora-financeira da SPMB, Simone Vasconcelos, pediu-lhe para não mais fazer a distribuição em espécie. Na acareação, a própria Simone explicou ter tomado tal atitude por temer pela própria segurança. “Até os funcionários do Banco Rural já me conheciam, sabiam que eu andava com grandes somas de dinheiro”, justificou-se.
Há detalhes de algumas das entregas. No dia 26 de abril de 2004, um funcionário da Bônus Banval teria ido até a sede do PT, na rua Silveira Martins, número 132, no Centro de São Paulo, com uma mala contendo R$ 545 mil sacados das contas das empresas de Marcos Valério. “Os recursos foram entregues ao pessoal do financeiro”, detalhou, referindo-se a secretária de Delúbio Soares. Sentado próximo ao publicitário, Delúbio fez um sinal afirmativo com a cabeça.
Divergência
Naquele mesmo dia, outro emissário da Bônus Banval, segundo Marcos Valério, entregou R$ 1,2 milhão a João Cláudio Genu, assessor do líder do PP, José Janene (PR). Genu era a pessoa indicada para pegar todo o dinheiro repassado ao PP. Ele, no entanto, nega a operação. “Eu confirmo ter recebido apenas R$ 700 mil, em três ocasiões, duas na agência do Banco Rural e outro no hotel, acho que no Grand Bittar”, desmentiu. Os integrantes da CPI não deram nenhum crédito ao assessor de Janene.
Entre os dias 26 e 30 de abril de 2004, Valério disse ter mandado, também pelo serviço de entrega em domicílio da Bônus Banval, R$ 750 mil a prepostos do então presidente da Casa da Moeda, Manoel Severino dos Santos. Esse dinheiro teve como destino a campanha municipal do PT no Rio de Janeiro — o candidato era o deputado Jorge Bittar.
O exclusivíssimo serviço de entrega também teria servido ao PT do Distrito Federal, de acordo com Marcos Valério. No mesmo dia 26 de abril, R$ 120 mil foram deixados num endereço indicado por Raimundo Ferreira Júnior, então vice-presidente do diretório regional. A informação é controversa. Até agora, sabia-se que Ferreira Júnior, como Genu, estivera na agência do Banco Rural e lá recebera dinheiro. Ele não foi encontrado para dar sua versão a respeito da nova forma de recebimento.
A revelação de Marcos Valério sobre a entrega de dinheiro em espécie em locais indicados pelos receptores realça a linha de investigação sobre a Bônus Banval. Os membros da CPI consideram a corretora a ponta final do esquema de lavagem de dinheiro montado pelos petistas. A ela, caberia aplicar recursos no mercado futuro, recolher impostos sobre os rendimentos, e assim limpá-los do ponto de vista tributário. Depois, os redistribuiria a laranjas indicados pelos mentores da máquina.
A corretora, entretanto, nega tal avaliação. Afirma que todas as operações realizadas são previstas na legislação e jura ter mandado as informações necessárias para a Polícia Federal e para a própria CPI. Por intermédio da assessoria de imprensa, a corretora também negou o serviço de entrega em domicílio descrito por Marcos Valério na acareação de quinta feira.