O rombo financeiro que levou ao colapso a Avestruz Master equivale a uma fortuna movimentada apenas por grandes empresas. À Polícia Federal (PF), o proprietário Jerson Maciel da Silva reconheceu um débito total de R$ 600 milhões e afirmou que, apesar disso, a companhia ainda é viável. Autoridades federais e estaduais não acreditam na recuperação da Master e estimam que a dívida possa ultrapassar R$ 1 bilhão.
O Correio teve acesso ao depoimento prestado pelo empresário na sede da PF, em Goiânia, na quarta-feira. O rei do avestruz afirma que a venda de aves por meio da emissão de Cédulas de Produto Rural (CPRs) é um negócio seguro. Maciel tentou desqualificar os alertas feitos por órgãos oficiais sobre possíveis riscos, chamando os especialistas de mercado de “pessoas compradas”.
Durante o interrogatório, detalhou como as operações ocorriam. Na avaliação do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal, está comprovado ao menos um delito: crime contra o sistema financeiro. Para avançar na apuração, o Ministério Público Federal deverá pedir a prorrogação da prisão de Jerson Maciel.
Os investigadores puderam concluir que a companhia funcionava de forma semelhante a um banco, pois a captação de recursos para a formação do plantel se dava com a comercialização de CPRs. O dirigente da Avestruz Master revelou todas as etapas de compra e recompra das aves e negou que pretendia “aplicar um golpe na praça”. Para o MPF e a Polícia Federal, o método adotado é ilegal e caracteriza-se como uma ciranda financeira.
Jerson Maciel disse também qual era a remuneração dos representantes da Avestruz Master e a sua própria. Segundo ele, os representantes da empresa recebiam de R$ 30 mil a R$ 40 mil em forma de comissão pelas vendas que realizavam. O MPF irá convocar os corretores para depor. O dono da Master admitiu receber mensalmente R$ 25 mil. Além disso, Maciel afirmou embolsar 5% das operações de compra e recompra de aves.
Os rendimentos dos administradores são alvo de investigações mais detalhadas por parte dos procuradores e delegados federais. Relatórios bancários que fazem parte do processo instaurado na PF mostram que a movimentação financeira dos principais executivos é incompatível com os bens ostentados por eles. Durante o interrogatório, Maciel não soube explicar de modo convincente como sua família conseguiu adquirir tantos carros de luxo e imóveis em tão pouco tempo.
Nos campos fiscal e tributário, os problemas da Avestruz Master devem aumentar. As autoridades acreditam em uma sonegação milionária. Na PF, Jerson Maciel rebateu essa suspeita e disse que um acerto de contas com a Receita Federal custou à Master R$ 27 milhões — que estão sendo pagos em parcelas. A empresa poderá ser foco de uma ação fiscal, o que implicará em um levantamento minucioso de tudo o que eventualmente a companhia deve em impostos.
Em nota divulgada na quinta-feira, o grupo Avestruz Master informou que busca se levantar. No documento, a empresa mostrou interesse em adquirir aves. “Apesar de não ter a obrigatoriedade de comprar os avestruzes vendidos através de CPRs, o grupo reafirma o total interesse em adquirir aves para manter seu plantel e atender a demanda do abatedouro e frigorífico Struthio Gold, que está prestes a entrar em funcionamento, conforme foi constatado pelo próprio Procon”, reforçou a nota. “Com relação à manutenção das aves, não faltará ração ou qualquer tipo de material. Com relação aos salários, informamos que nenhum funcionário da Avestruz Master deixará de receber. Pedimos a paciência e a colaboração de todos para que essas questões sejam equacionadas e as soluções viabilizadas”, finalizou o comunicado.