O juiz Jesseir Coelho de Alcântara, da 1ª Vara Criminal de Goiânia, vai ouvir, na próxima segunda-feira (27), às 14 horas, o depoimento de Marizete Martins do Carmo, testemunha arrolada pelo Ministério Público (MP) na ação penal relativa ao assassinato do menino Michael Mendes, de 4 anos de idade, num ritual de magia negra. O crime ocorreu em 8 de abril de 1989, provavelmente à meia-noite, dentro do terreiro de candomblé denominado Axê Ilê Oxalufã, situado no Setor Rio Formoso. Foram acusados do crime o pai de santo Willian Domingos da Silva, a esteticista Elsa Soares da Silva, o mestre de candomblé Alexandre dos Santos Silva Neto e a faxineira Eva dos Santos Marinho. Os dois últimos já morreram enquanto Willian e Elsa respondem ao processo em liberdade.
Raptado, Michael foi amordaçado e passou por um ritual de sacrifício que envolveu, entre outras crueldades, espancamento, retirada de três dentes, amputação de todos os dedos das mãos para, ao final, ter a cabeça decepada. Apesar da tentativa de ocultação do cadáver, o corpo do menino foi encontrado 20 dias depois do fato, semi-enterrado, com a barriga para baixo e a cabeça virada para cima. Ao lado do corpo haviam sete copos descartáveis brancos, um pente de cabo vermelho, plástico de buquê de flores, fitas vermelhas, velas amarelas e vermelhas, cigarrilhas, talco, pingas, cerveja, vinho jurubeba, champanhe, uma caixa de papelão e um vidro de esmalte que tinha escrito, em seu rótulo, a palavra “pomba-gira”, que segundo a promotoria significa uma entidade espiritual que exige sangue humano.
Motivo torpe
De acordo com a denúncia do promotor Élvio Vicente, Michael morava com sua tia, Ana de Fátima, proprietária de um salão de beleza freqüentado por Elza e Eva, que eram amigas. O garoto passava o dia brincando nas imediações do salão e conhecia as cliente da tia, tendo inclusive dormido um dia na casa de Eva. Eram comuns as reclamações de Elza com relação a seus fracassos amorosos. Depois de se separar de seu marido – que a deixou para viver um romance com um homem nos Estados Unidos – a esteticista passou a se relacionar com várias pessoas e apaixonou-se por Adevaildo, com quem iniciou um caso. Este, contudo, trabalhava em uma farmácia e se envolveu com o proprietário dela, Anselmo Pereira, que também era homossexual.
Novamente decepcionada, Elza teria, segundo a denúncia, comentado que estava disposta inclusive a “dar a vida de seu próprio filho ao diabo para conseguir seu amor de volta”. Para ajudar a amiga, Eva contactou Willian, que decidiu que as questões amorosas de Elza seriam resolvidas em um ritual de magia negra, o qual necessitaria de um sacrifício. Para o MP, Elza escolheu Michael para ser sacrificado porque tinha antipatia por ele, que era deficiente físico e andava “meio que rebolando” pelo fato de ter uma das pernas maior que a outra.
Élvio Vicente denunciou os quatro acusados do crime por homicído com três qualificadoras (circunstâncias que podem aumentar a pena): motivo torpe, uso de meio cruel e de recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Segundo o MP, contudo, os quatro denunciados não foram os únicos responsáveis pelo crime, mas os demais envolvidos foram beneficiados pelo “pacto de silêncio” que existe entre os freqüentadores do candomblé, impossibilitando, assim, sua identificação. Sabe-se, apenas, que várias pessoas acomodadas em quatro caminhonetes e mais seis pais-de-santo, além de William, participaram do processo desde o rapto do garotinho até o início do ritual, o qual foi presenciado apenas pelos pais-de-santo. Na tentativa de colher o maior número de informações possível, a promotoria arrolou, para depor em juízo, oito testemunhas, quatro informantes ligados à família da vítima e 18 informantes ligados ao candomblé.