“Todas as entidades que realmente se dedicam a defender os interesses populares deveriam aderir com entusiasmo à Campanha Nacional de Combate à Corrupção Eleitoral, lançada em Brasília pela Ordem dos Advogados do Brasil e pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ela é uma excelente oportunidade para iniciar um processo de esclarecimento da população. Hoje se evidencia um cabal desconhecimento sobre a mecânica da eleição proporcional. Mesmo entre pessoas que deveriam ter a obrigação de saber como a coisa funciona, ignora-se que todo voto dado a candidato vai na verdade para um “caldeirão” só a legenda ou coligação partidária à qual o candidato está vinculado. Não há candidaturas independentes de legenda.
Enquanto o eleitorado não compreender que essa eleição se dá apenas entre legendas, será impossível avançar muito. O desenvolvimento da democracia brasileira passa necessariamente pelo fortalecimento dos partidos, pois sem eles não haverá chances para uma representação verdadeira. Na barafunda de hoje, os partidos foram transformados em números e as legendas ficam ocultas por eles, facilitando a tarefa dos corruptos e compradores de votos, que ingressam nos partidos não para defender idéias, mas para se servir deles como canais às suas ambições.
Ao permitir que os candidatos ocultem as legendas por trás de números e mantenham o mandato após atraiçoar os partidos que os elegeram, a legislação mostra uma de suas falhas mais gritantes. Caberia então a essa campanha levar à população a informação exata sobre como se dá o processo de eleição proporcional para que o eleitor não seja traído pela ignorância.
As eleições proporcionais •para vereador, deputado estadual e deputado federal são diferentes das eleições majoritárias. Nestas, há um confronto entre o candidato e os candidatos das outras chapas. Quem obtiver mais votos se elege. Nas eleições proporcionais a situação é bem diferente. Foi por isso que o vereador Léo Mion se elegeu com 1.136 votos e o ex-vereador Adelino Ribeiro nem suplente é, mesmo obtendo 2.945 votos. Isso porque não existe enfrentamento entre os candidatos (Mion contra Ribeiro, por exemplo), mas entre as legendas (PFL+PSDB contra PT+PL contra PPS contra PMDB, por exemplo). Os votos são somados para cada partido ou coligação e vão determinar quantas cadeiras no parlamento vão caber a cada legenda. Essas cadeiras serão ocupadas pelos candidatos que somarem mais votos dentro da legenda.
Isso quer dizer que se há enfrentamento entre candidatos, ele se dá dentro do mesmo “caldeirão”, ou seja, da mesma sigla ou coligação. Em suma, todo voto proporcional é voto na legenda. Enquanto o eleitor não compreender que vota de fato na legenda e o voto no candidato serve apenas para apontar que o pretende vitorioso no embate interno, será difícil melhorar a representação parlamentar e torná-la mais fiel à vontade popular. O que persiste ainda hoje, mesmo com toda a máquina de comunicação disponível, é uma tremenda desinformação sobre o processo eleitoral”.