seu conteúdo no nosso portal

Condenação de dois está aquém da responsabilidade pelas 19 mortes, diz advogado

Condenação de dois está aquém da responsabilidade pelas 19 mortes, diz advogado

Eldorado dos Carajás (PA) - Há dez anos, José Batista acompanha o processo de reforma agrária no Pará. Advogado, ele é responsável pela defesa dos agricultores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra (MST) e membro da coordenação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no município de Marabá.

Eldorado dos Carajás (PA) – Há dez anos, José Batista acompanha o processo de reforma agrária no Pará.

Advogado, ele é responsável pela defesa dos agricultores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra (MST) e membro da coordenação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no município de Marabá.

Nesta entrevista, Batista falou sobre o confronto que resultou na morte de 19 agricultores sem-terra e deixou outros 69 feridos. Ocorrido em 17 de abril de 1996, o conflito ficou conhecido como o “Massacre de Eldorado dos Carajás”.

Agência Brasil – Dez anos após o confronto, qual a posição da CPT sobre o caso?

José Batista – Temos consciência dos interesses políticos que rondaram o processo. O comportamento do próprio Tribunal de Justiça é muito questionável. E também do Ministério Público. Essas condições favoreceram aqueles que deram a ordem [de desobstrução da rodovia PA-150, onde cerca de 1,5 mil trabalhadores faziam um protesto contra a demora na demarcação de terras]. Nosso entendimento é que eles também deveriam ser denunciados.

ABr – Não tem mingúem preso, mas dois comandantes foram condenados.

José Batista – Isso já é um avanço no histórico brasileiro de impunidade? A sensação que temos é que a impunidade venceu porque a condenação, apenas dos dois, está muito aquém daquilo que deveria ser a responsabilização das dezenove mortes. O fato de terem sido colocados em liberdade nos traz a preocupação de que, se perderem os recursos, a polícia não mais os encontre. Os dois fazendeiros acusados de matar o sindicalista João Canudo, em 1985, foram condenados a dezenove anos de prisão há mais de um ano. Perderam o recurso e a polícia não conseguiu localizá-los até hoje.

ABr – Quando o senhor diz “aquém da responsabilização”, refere-se aos que estariam acima, na cadeia de comando, ou aos que teriam efetuado os disparos?

José Batista – Aos dois níveis. Quando a pista foi desobstruída, foram recolhidos apenas seis corpos. Esses foram mortos no conflito. Depois da pista desocupada, aqueles que ficaram feridos à margem da estrada, e que não tinham condições de correr, foram executados. Infelizmente, a cena do crime foi totalmente deformada pela própria polícia. As provas foram omitidas e isso fez com que a identificação dos policiais ficasse muito difícil. Então houve absolvição de todos.

ABr – Em relação aos seis mortos durante a desocupação. Naquele momento, foi um conflito?

José Batista – Não houve conflito. Houve um massacre. O sinal para o batalhão de Paraopebas avançar seria o som de tiros. A distância era de aproximadamente 400 metros. A equipe que fez a filmagem estava do lado do batalhão de Paraopebas. Quando ouviu os primeiros tiros, o cinegrafista saiu caminhando por entre o povo. Ali já havia trabalhadores caídos. A imagem que aparece nos jornais, em que os trabalhadores avançam contra a tropa do coronel Pantoja [Mário Colares Pantoja, um dos dois comandantes da operação], foi quando ele chegou lá. Já haviam ocorrido tiros e já tinham duas pessoas caídas.

ABr – Então a imagem não foi iniciada no começo do conflito?

José Batista – Quando o conflito iniciou, o cinegrafista estava no mínimo há 400 metros do outro lado. Teve que atravessar toda a multidão para chegar no local.

ABr – Mas ele não diz isso?

José Batista -Ele fala claramente que estava do lado inverso.

Compartihe

OUTRAS NOTÍCIAS

Sócio retirante desligado antes do Código Civil de 2002 não se submete ao prazo de dois anos
TJMT mantém multa aplicada a posto por falta de informação sobre preços
Borracheiro receberá adicional de insalubridade por estresse térmico