O presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Pernambuco, Júlio Alcino de Oliveira, lembrou hoje (24) a importância do voto para a cidadania brasileira, acrescentando que só na época das eleições é que se conhece a verdadeira igualdade entre os cidadãos, uma vez que cada pessoa tem direito a um voto. “Entendo, que no momento de eleições, vale tanto o voto do agricultor do sertão, do desempregado e do aposentado quando o voto do presidente da República, de um ministro de Estado ou um de um dirigente da OAB”, afirmou Júlio Alcino de Oliveira. “Nesse momento, o voto do maior empresário do país vale tanto quanto o voto de José e o de Maria”.
Ao descrever a importância do voto como prova de cidadania, o presidente da OAB pernambucana destacou a Campanha Nacional contra a Corrupção Eleitoral, lançada no início deste mês pela OAB em parceria com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Por meio desse movimento, que chega em 2006 à sua quarta edição, serão instalados comitês em todos os Estados para receber do eleitor denúncias de tentativa de compra de votos e de irregularidades como o uso de caixa dois de campanha.
“Voto não pode ser moeda de troca, não deve ser trocado por uma cesta básica, por um padrão de time de futebol, por uma bola ou por qualquer outra coisa. O voto é, exatamente, o instrumento da mudança, o exercício maior da cidadania”, destacou Júlio Alcino de Oliveira.
O dirigente da OAB-PE ressaltou, ainda, a bondade do povo brasileiro, característica que o impede, muitas vezes, de exercitar o voto da maneira correta. “Muitas vezes, o brasileiro exercita o voto com a bondade, o voto do amigo, o voto do compadre, o voto do vizinho, o voto do presidente da Associação dos Moradores ou do Clube de Mães. Enfim, o brasileiro é extremamente bondoso com um instrumento tão sério que é o voto”, alertou Júlio de Oliveira. “Acho que o brasileiro tem que parar e refletir para buscar na memória em quem não deve votar”.
A seguir, a íntegra de entrevista concedida pelo presidente da Seccional da OAB de Pernambuco, Júlio Alcino de Oliveira:
P – Como o senhor está avaliando as preparações para as eleições de 2006? Acha que essa crise política que envolveu o governo federal e parlamentares, de uso de caixa dois e demais irregularidades, pode se refletir nas eleições de outubro próximo?
R – Acho que deve ser um referencial para a população exercer o seu direito de voto. Voto não se vende. Voto é um instrumento de cidadania e eu não me canso de assim falar. Voto não pode ser moeda de troca, não deve ser trocado por uma cesta básica, por um padrão de time de futebol, por uma bola ou por qualquer outra coisa. O voto é, exatamente, o instrumento da mudança, o exercício maior da cidadania. Por isso, acredito que cada brasileiro, ao votar para presidente da República, para governador de Estado, para a Assembléia Legislativa e para o Congresso Nacional deve pensar muito bem sobre a proposta do candidato e analisar a vida pregressa do candidato, sua postura ética e lisura se já tiver cumprido um mandato eletivo.
P – O senhor acredita que o povo fará bem essa diferenciação entre os bons e maus candidatos?
R – Com certeza. A sociedade brasileira vai saber separar o joio do trigo. Todos esses exemplos que, infelizmente, a nação está vivenciando devem ser usados como referencial para saber que não se pode votar como aí está. Temos que fazer de toda eleição e, principalmente, dessa próxima um instrumento do caminhar para a consolidação da democracia, para a busca da justiça social. E esse é o papel da Ordem, juntamente com a CNBB. Nós fizemos um trabalho muito importante no último pleito eleitoral, principalmente quanto às eleições municipais. Agora, estaremos ampliando esse trabalho e, com certeza, a Ordem dos Advogados do Brasil, vigilante de todo o processo democrático, com tanta história de luta em nosso país, fará um monitoramento fiel para que a sociedade não admita mais qualquer tipo de escândalo envolvendo qualquer pessoa da República.
P – O senhor acha que o brasileiro já desenvolveu o que muitos chamam de memória política? Ou seja, o povo vai se lembrar na hora de votar quem esteve e quem não esteve envolvido em denúncias?
R – Acho que ainda não de forma suficiente. Isso porque acredito que o brasileiro é um povo muito bondoso. Muitas vezes, o brasileiro exercita o voto com a bondade, o voto do amigo, o voto do compadre, o voto do vizinho, o voto do presidente da Associação dos Moradores ou do Clube de Mães. Enfim, o brasileiro é extremamente bondoso com um instrumento tão sério que é o voto. Mas, com certeza, o papel da imprensa tem sido de fundamental importância ao mostrar os fatos e denunciar os envolvidos. Diante disso, acredito que o eleitor vai se lembrar mais e passar a buscar, lá no fundo da memória, que aquele escândalo não pode ser mais aceito, que aquele escândalo não pode mais estar presente na vida da República. Acho que o brasileiro tem que parar e refletir para buscar na memória em quem não deve votar.
P – O senhor acha que esses comitês que OAB e CNBB vão instalar no país inteiro vão ajudar na busca por eleições mais limpas este ano?
R – Com certeza. Lá no meu Estado, Pernambuco, encampamos uma ação extremamente efetiva por meio da qual se diminuiu muito a influência do poder econômico e do poder político sobre o eleitorado. Dizer que vamos conseguir coibir isso em todo o Brasil, um país de dimensão continental, ainda é um sonho. Mas chegar bem próximo do coibir, do inibir, é que é importante, é tarefa primordial. Então, já me sinto satisfeito de inibir, de fiscalizar, monitorar. Só assim não teremos a influência nefasta do poder econômico e do poder político sobre o eleitor. E que venha a lembrança de cada brasileiro. Que ele busque lá na sua memória o nome do candidato que não merece seu voto, o nome do candidato que não tem compromisso com sua cidade, com o seu Estado, mas busca o mandato parlamentar unicamente para ter privilégios e enriquecer às custas do voto da população brasileira. Entendo que, no momento de eleições, vale tanto o voto do agricultor do sertão, do desempregado e do aposentado quando o voto do presidente da República, de um ministro de Estado ou um de um dirigente da OAB. Então, isso é muito importante. O momento das eleições é aquele em que temos a verdadeira igualdade, porque cada pessoa tem direito a um voto, mesmo aquela mais humilde. Nesse momento, o voto do maior empresário do país vale tanto quanto o voto de José e o de Maria.