Advogado criminalista há 20 anos, Eliseu Minichillo defende seis suspeitos de envolvimento no furto milionário de R$ 164,7 milhões do Banco Central. Em setembro, ele chegou a ter a prisão decretada pela Justiça, acusado de tentar fazer um documento falso para um dos clientes. Mostrou que o documento era verdadeiro e conseguiu o habeas-corpus. Na semana passada, concedeu a seguinte entrevista ao Estado:
Que tipo de problema os advogados enfrentam por causa da corrupção da polícia?
Para o advogado é complicado. O cliente está preso. Preso entre aspas. Está detido com o policial. Você chega no local e tem uma proposta pronta. Olha, dá ‘x’ que seu cliente vai embora. Se você vira as costas para o cliente, naquele momento em que ele está algemado, o sujeito pode ir para a cadeia ou ser morto. Se você bate o pé e manda o policial levar o caso para a delegacia, você passa a ser um problema para o cliente. Se o advogado faz o inverso, ou seja, participa do jogo da corrupção, ele está concorrendo para o crime. É uma situação ingrata. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Só resta rezar para nestas horas o telefone estar desligado.
Os valores pedidos pela polícia costumam ser altos?
Desde R$ 10 mil até R$ 1 milhão. Depende do caso, depende do cliente.
Quais são os criminosos mais visados?
Normalmente é o cliente que tem dinheiro. Que fez o que eles chamam de ‘a boa’. Cliente duro vai para a cadeia. Aquele que fez ‘a boa’ tem mais chance de ficar livre.
Quando a polícia pede um valor muito alto, o que o criminoso achacado pode fazer?
Vamos supor que foi estipulada determinada quantia. A pessoa que pagou aquela quantia ficou dura. Das duas uma: ou vai trabalhar honestamente, chegando à conclusão de que o crime não compensa, ou vai praticar outro crime. Não tem outra saída.
Ou seja: a corrupção policial acaba incentivando a prática de novos crimes?
Por um lado é um incentivo. Porque o sujeito vai precisar de mais dinheiro e deve fazer novos crimes para conseguir. Por outro lado, é um desestímulo, porque o sujeito chega à conclusão de que o crime não compensa. Já vi casos de clientes que desistiram do crime por causa disso. Tudo o que ele ganha os policiais pedem. Então o jeito é trabalhar honestamente. Ele monta uma quitanda, alguma coisa. Se a polícia vier incomodar, ele chama a corregedoria. Agora que ele está fazendo a coisa certa, pode dizer: ‘Não venha me incomodar que eu não te devo mais nada.’
O sr. tem 20 anos de experiência como advogado. Nesse período a corrupção policial aumentou ou diminuiu?
Diminuiu. Antigamente o policial entrava na polícia com uma mentalidade de roubar. Não era aquela mentalidade de fazer polícia, que é um trabalho bonito, de servir ao público. Infelizmente o policial entrava na polícia já com segundas intenções. Entrava para ficar rico. Hoje está mudando para melhor. Há mais treinamento.