BRASÍLIA – A oposição cobrou ontem do Palácio do Planalto explicações sobre denúncias de que o empresário Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sócio da empresa Gamecorp, estaria atuando no governo para defender interesses da Telemar, empresa de telecomunicações, e de uma produtora de vídeos. Reportagem publicada pela revista Veja desta semana, assinada pelo jornalista Alexandre Oltramari, afirma que Lulinha foi “acionado para defender os interesses da Telemar junto ao governo” e teria ligações com o lobista Alexandre Paes dos Santos, o APS, que foi alvo de investigações da Polícia Federal.
Esta não é a primeira vez que a oposição se mobiliza para cobrar do Palácio do Planalto explicações sobre a atuação de Fábio Luiz com a Telemar. Desde que foi denunciada a compra da Gamecorp pela Telemar, ano passado, o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL) tem assumido reiteradas vezes a tribuna do Senado cobrando explicações que pesam contra o filho do presidente de ter sido beneficiado pela empresa de economia mista, sem obter qualquer resposta.
A proximidade do poder justificaria, segundo a reportagem, o investimento de R$15 milhões que a Telemar fez na Gamecorp, empresa cuja sociedade Fábio Luiz divide com Kallil e Fernando Bittar, filhos do ex-prefeito de Campinas Jacó Bittar, um dos mais próximos amigos do presidente Lula. De acordo com a Veja, os sócios se reuniram em Brasília com o secretário de Direito Econômica, Daniel Goldberg, em três ocasiões diferentes, para “sondar que posição a Secretaria de Direito Econômico (SDE) tomaria caso a Telemar comprasse a concorrente Brasil Telecom – fusão que a lei proíbe ainda hoje”.
Segundo a assessoria de imprensa do Ministério da Justiça, órgão ao qual a SDE é subordinado, nos encontros, o assunto tratado foi a indicação de um escritório de advocacia e de uma consultoria em direito tributário para assessorar os sócios na condução dos negócios da Gamecorp.
A reportagem da Veja afirma que, quando estavam em Brasília, Fábio Luís e Kallil usavam as instalações de uma sala abrigada no escritório do lobista brasiliense Alexandre Paes dos Santos. Conhecido na capital federal, APS ganhou dimensão nacional em 2001, quando uma de suas agendas, apreendida pela Polícia Federal com ordem judicial, revelou indicações de que, por intermédio de lobistas, seriam feitos pagamentos de propina a políticos.
À Veja, ele confirmou que a dupla ocupava a sala, que lhes fora cedida a pedido da empresária Arlete Siaretta, do grupo Casablanca, um conjunto de empresas que se dedica principalmente à produção de filmes e eventos, além da gravação de comerciais e distribuição de DVDs. Segundo a revista, o objetivo de Siaretta ao se aproximar do filho do presidente era “abrir as portas do governo” petista, já que ela estava “carimbada” por trabalhos prestados ao PSDB.
A investida de Siaretta, sugere a reportagem, deu certo, pois a Casablanca “continuou tendo, no governo petista, a mesma participação que tinha no mercado nos oito anos dos tucanos, algo em torno de 50% de todos os contratos de filmes feitos para as empresas de publicidade que prestam serviço ao governo”.
Segundo a matéria assinada pelo jornalista Alexandre Oltramari, apesar das evidências de que Lulinha e Kalil mantêm-se mergulhados no mutismo sobre a real dimensão dos negócios e interesses que ajudaram em Brasília, eles negam. Não falam sobre seus despachos na sala ao lado da do lobista APS, bem como sobre suas andanças por empresas privadas e gabinetes federais. O assessor da dupla, procurado pela revista, disse que Kalil esteve na mansão do lobista APS, mas que Lulinha jamais colocou os pés lá.
APS desmente o assessor dos empresários e confirma que o filho do presidente Lula despachava no escritório cedido por ele. Quando Veja quis saber sobre outros detalhes, o assessor disse que Lulinha e Kalil não prestariam nenhum esclarecimento adicional.
“As investidas de lobista de Lulinha em Brasília e suas conexões empresariais merecem um esclarecimento mais pormenorizado. Todo pai tem direito de ver no filho um Ronaldinho e na filha uma Gisele Bündchen. Da mesma forma é vital tentar entender o mistério por trás de certas transformações extraordinárias dos filhos de presidentes, em especial quando elas ocorrem durante o ápice de poder dos pais”, completa a Veja.