Pesquisa da UnB revela que os brasilienses desconhecem as funções dos órgãos fiscalizadores do poder público .Denúncias diárias em jornais revelam uma política manchada pelos escândalos. Em meio a notícias sobre mensalão, sanguessugas e dossiê encomendado, o brasileiro não sabe mais em quem confiar. Desconhece, inclusive, os órgãos responsáveis pelo combate à corrupção no País. Atribui a responsabilidade ao Ministério Público da União (MPU), à Polícia Federal e à própria sociedade civil. A falta de informação deixa à mostra as falhas de um sistema de combate ao uso ilícito da máquina pública, como a sua distância da população.
Essa constatação foi feita por alunos da disciplina Teoria e Análise da Corrupção, do curso de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). Coordenados pelos professores Ricardo Caldas e Robson Pereira, os estudantes entrevistaram 839 pessoas de diversas cidades do Distrito Federal para saber “Em quem o povo confia?”.
Entre os resultados mais impressionantes, estão os relacionados ao Tribunal de Contas da União (TCU) e à Controladoria Geral da União (CGU). A maioria dos entrevistados (55,1%) afirmou desconhecer as atribuições do TCU, o principal órgão de fiscalização do dinheiro e dos bens públicos. “Considerando que 3,5% não responderam ou disseram ‘não saber’, é possível que esse número seja mais alto do que o indicado”, acrescenta Caldas. Entre os que conhecem o Tribunal, 39,6% não confiam no seu trabalho.
Situação pior acontece com a Controladoria, órgão que responde pelo Brasil perante a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (UNCAC). Suas atribuições são desconhecidas por 68,4% da população. Entre os 27,3% que têm noção do trabalho da CGU, 40,6% não acreditam na sua eficiência. “Isso mostra que o povo não está sendo incluído no processo. Essa ausência de interação pode gerar um sentimento ainda maior de impunidade e o aumento do desvio de verbas”, afirma o especialista da UnB.
De acordo com Caldas, a falta de confiança em relação às instituições pode influenciar na maneira como é feita a fiscalização. “A percepção desses órgãos pela população aponta para uma reflexão mais apurada de como a corrupção está sendo combatida no Brasil e como deveria ser”, avalia. Segundo Caldas, as pessoas deixam até mesmo de denunciar quando não acreditam na instituição.
Confiança no MPU
A pesquisa mostra, no entanto, que o brasileiro ainda tem esperança. A maioria (86,2%) acredita que o uso ilícito dos bens públicos pode ser combatido. “Isso demonstra que o Brasil deve ter um alvo a ser atingido. A população sabe que a corrupção não será eliminada por completo, mas acha que a situação pode melhorar”, analisa Ricardo Caldas.
Para assumir a difícil tarefa, os entrevistados afirmaram que o Ministério Público da União (24,4%), a Polícia Federal (22,8%) e a própria sociedade civil (22,7%) são os mais indicados. De acordo com o professor Robson Pereira, a confiança nesses dois órgãos tem motivos diferentes. “A PF se mostrou muito eficiente nos dois últimos anos e a população percebe isso. O MPU, por sua vez, tem determinado melhor seu tipo de ação”, explica Pereira.
A responsabilização da sociedade por parte da própria população chamou a atenção dos pesquisadores. “Chegamos em um momento de amadurecimento, em que o povo percebeu que precisa participar mais do processo”, afirma Pereira. Segundo os professores, esse despertar da sociedade deve-se, principalmente, a uma profunda decepção com os três poderes que, ao invés de combaterem a corrupção, abrem espaço para ela.
Os pesquisadores encontraram outros dados interessantes sobre a relação entre população e políticos. Em meio à campanha eleitoral para o primeiro turno, 90,1% dos entrevistados disseram não confiar nos políticos em geral. Pouco mais de 73% não acredita no trabalho dos senadores. Em relação à Câmara Federal, o resultado foi ainda mais alarmante: 85,7% das pessoas não confiam nos deputados.
A Justiça também teve um nível de desaprovação significativamente alto na pesquisa (53,4%). Apenas 6,5% das pessoas consideram os juízes pessoas confiáveis. Os entrevistados apontaram como instituições “limpas” bombeiros (36%) e professores (28,6%).