Licitações públicas, relações familiares e doações de campanha deveriam ser como água e azeite, e não se misturar. Mas ocorreu em meio à passagem do petista Carlos Wilson (PE) pela Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero). A Oficina Cerâmica Brennand, que forneceu material usado em recentes reformas de aeroportos brasileiros, pertence ao artista plástico Francisco Brennand. Wilson é casado há 10 anos com Maria Helena Vasconcelos Brennand, uma das filhas do artista. A empresária doou R$ 120 mil ao marido nas últimas eleições — a segunda maior doação individual recebida pelo hoje deputado federal. Na época do repasse, Maria Helena fazia parte do quadro societário e respondia pela diretoria comercial da oficina.
Nos três anos e três meses que Carlos Wilson ocupou a presidência da Infraero — ele se afastou da empresa em março de 2006 para concorrer à Câmara —, empreiteiras contratadas, por meio de licitação, para modernizar a estrutura dos principais aeroportos do Brasil utilizaram material fabricado pela Oficina Brennand, com sede em Pernambuco, para revestir pisos e paredes. Os projetos dos terminais de Guararapes (Recife), Santos Dumont (Rio de Janeiro) e Mário Aloísio (Maceió), entre outros, confirmam a opção pela cerâmica do artista plástico.
A Oficina Cerâmica Brennand funciona no bairro da Várzea, no Recife, próximo à Universidade Federal de Pernambuco. Num levantamento realizado pelo Correio, quatro pessoas apareceram como sócias da empresa: o próprio Brennand, a mulher Deborah Vasconcelos Brennand e duas filhas, Maria da Conceição e Maria Helena, as responsáveis por tocar os negócios do pai. Ainda de acordo com a pesquisa, a mulher de Carlos Wilson ocupou o cargo de diretora comercial da empresa entre março de 2005 e março deste ano.
A prestação de contas eleitoral de Carlos Wilson, disponível no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revelou que Maria Helena não defende apenas os interesses do pai. Ela ajudou o marido a retornar ao Congresso, de onde ficou afastado por quatro anos, ao financiar parcela significativa das despesas de campanha. A empresária repassou a ele R$ 120 mil. Somados ao que o candidato tirou do próprio bolso (R$ 165 mil), o casal respondeu por mais da metade dos recursos. Wilson declarou receitas num total de R$ 571,5 mil. Amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele conquistou vaga na Câmara com 141,2 mil votos.
Na berlinda
De volta ao Parlamento desde 1º de fevereiro, o petista se viu mergulhado num turbilhão de denúncias de irregularidades em contratos da Infraero. Há suspeitas na aplicação de recursos públicos em obras de infra-estrutura, avaliados em R$ 2,7 bilhões, em oito aeroportos do país. Auditorias preliminares do Tribunal de Contas da União (TCU), realizadas ao longo de 2006, constataram como a cifra foi inflada por sobrepreços e superfaturamento em processos de licitação e contratos de serviços. Por trás dos problemas, técnicos do tribunal levantaram indícios de ação orquestrada pela cúpula da Infraero com diferentes fornecedores.
A pedido do ministro da Defesa, Waldir Pires, a Controladoria Geral da União (CGU) também entrou no caso e apura irregularidades na contratação, por R$ 26,8 milhões, de mídia eletrônica nos aeroportos brasileiros. Depois de se instalar na sede da empresa, a CGU decidiu ampliar a investigação. Foi a pedido da Controladoria que o ex-diretor financeiro da Infraero Adenhauer Figueira Nunes foi afastado do cargo.
Os adversários do governo Lula estão de olho na administração de Carlos Wilson na Infraero. As irregularidades investigadas pelo TCU reforçam o coro da oposição pela instalação da CPI do Apagão Aéreo na Câmara. Depois de uma reação da base governista, que conseguiu barrá-la, a apuração parlamentar dependerá, agora, de decisão do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), que julga mandado de segurança de autoria do PSDB, PFL e PPS pela abertura da comissão.
Deputado se explica
O ex-presidente da Infraero e deputado Carlos Wilson (PT-PE) afirmou ao Correio não há irregularidade em sua prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral. O petista disse que sua mulher, Maria Helena Brennand, fez doação como pessoa física, mas não há qualquer relação entre o dinheiro utilizado na campanha e a Oficina Cerâmica Brennand, empresa da qual Maria Helena apareceu como sócia e que forneceu material de reforma de aeroportos brasileiros. “Há mais de 30 anos a Brennand (empresa) fornece material para os aeroportos, como obras de arte”, defendeu-se. Ele citou o exemplo do mural de autoria do artista plástico Francisco Brennand fixado no terminal de Guararapes, na capital pernambucana, no final da década de 1950.
Wilson argumentou que a definição sobre o tipo de material utilizado no revestimento de pisos e paredes dos aeroportos coube sempre aos autores dos projetos, e não à Infraero. Destacou ainda que os projetos de reforma dos terminais são anteriores à sua chegada na estatal, em 2003. E voltou a insistir que os negócios da família Brennand, sua gestão na Infraero e sua campanha para deputado não se misturam: “Podem conferir minha prestação de contas. Não há nada mais legítimo. Não tem contribuição de construtoras, mas só de pessoas físicas”, argumentou o parlamentar.
A mulher de Carlos Wilson também foi procurada pela reportagem, no telefone da Oficina Brennand, no Recife, não retornou ao recado. Também contatada pelo Correio, a assessoria de imprensa da Infraero confirmou que a empresa da família Brennand forneceu material, mas não informou detalhes dos contratos sob a justificativa de não estarem disponíveis. (MR)