O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal dom Geraldo Majella, diz que o programa de educação sexual do governo federal induz à promiscuidade, ao promover a distribuição de preservativos em suas campanhas contra a Aids. “Favorecer uma educação, para quê? Para estimular a precocidade da criança, do adolescente, como no caso da camisinha. Será que isso é educativo? Isso é induzir todos à promiscuidade”, afirmou dom Geraldo. Ele encerra hoje seu mandato à frente da CNBB, para transmitir o cargo ao arcebispo de Vitória da Conquista, dom Geraldo Lyrio Rocha, eleito na semana passada.
Dom Geraldo também criticou a iniciativa do ministro da Saúde, José Ramos Temporão, de promover um debate sobre o aborto, e disse que se houver um plebiscito para legalizar a prática, a Igreja fará uma grande campanha para incentivar os fiéis a votarem contra. Dom Dimas Lara Barbosa, novo secretário-geral e porta-voz da CNBB, que assume o cargo hoje, poucas horas antes da chegada do Papa Bento XVI ao Brasil, afirmou que a sociedade atual cultiva o “senso do descartável” e condenou a prática do ficar, comum entre adolescentes e jovens.
“O senso do descartável do ficar, que era próprio das garotas de programa, é hoje vivenciado pelas adolescentes. Os meninos apostam entre eles para saber quem fica com mais garotas numa noite. No dia seguinte, eles não sabem nem o nome delas, o que significa que essa pessoa, com quem ficou, não vale absolutamente nada. O problema é grave e atinge adolescentes e pré-adolescentes” afirmou. Ele falou sobre a sexualidade ao detalhar a posição da Igreja sobre o aborto. A discussão em torno do assunto foi transformada em polêmica na véspera da chegada do Papa.
Em entrevista a rádios católicas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que pessoalmente se opõe ao aborto, mas entende as “jovens desesperadas por uma gravidez indesejada”. O tema é um dogma da Igreja Católica.
Para o novo porta voz da CNBB, “o sexo é a bola da vez numa espécie de relativismo ético que busca afastar a Igreja dos debates da sociedade, como ocorreu no passado, durante o regime militar, quando a Igreja foi acusada de politização”. Ele afirma que existe uma mentalidade de laicismo, que quer transformar a religião em algo de foro íntimo e que não deveria opinar sobre quase tudo na sociedade.
Dom Dimas disse que a Igreja não pode agir com base em pesquisas de opinião pública. Para o bispo, a pesquisa serve para direcionar os investimentos e a capacitação, mas não para mudar o evangelho. E citou Jesus, quando ele indagou aos apóstolos se eles também queriam ir embora e deixá-lo sozinho.
O clérigo condenou o aborto e afirmou que ele é parte da violência, que banaliza a vida. Segundo ele, muitas das campanhas do governo são vistas com reserva pela Igreja porque o planejamento familiar deve ser competência do casal e não do Estado. Citou uma campanha em que um anjo e um diabo foram usados para sugerir o uso de camisinha no carnaval a um rapaz, diante de uma moça que se oferecia para ‘um programa legal’.
“O anjinho dizia não vai, você não trouxe camisinha. Então o diabo dizia: ‘você é um idiota’. Oras, ele só é chamado de idiota porque perdeu a oportunidade de uma noite caliente” — disse o bispo. Segundo ele, a publicidade incentiva o sexo precoce. Perguntado se a Igreja não estaria ultrapassada porque é assim, afinal, que a sociedade se comporta, o prelado foi enfático: “Não é o que a Igreja apresenta em sua missão.”
Passeata
Cerca de 2 mil manifestantes aproveitaram a visita do papa Bento XVI e realizaram ontem uma passeata na Esplanada dos Ministérios contra o aborto. Defendendo a mesma causa, subiram no mesmo palanque padres, pastores evangélicos e espíritas. Ao discursarem contra o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, os três líderes religiosos de doutrinas diferentes deram-se as mãos. “Temporão, não seja só ministro da Saúde, seja ministro da vida”, disse o padre e deputado federal José Linhares (PP-CE), do alto de um carro de som. Os manifestantes se reuniram em frente à Catedral de Brasília às 14h. A maioria era formada por evangélicos que seguravam cartazes contra o governo federal.
“Estamos defendendo o direito à vida”, disse o coordenador da manifestação, Paulo Melo, secretário da ONG Associação Nacional Pró-Vida. Em frente ao Ministério da Saúde, os manifestantes criticaram duramente Temporão. Disseram que ele não valoriza a vida, nem a família. “Ministro, não defenda a morte de inocentes. Olhe para a sua família e mude suas idéias”, disse a advogada Maria Dolly Guimarães, presidente da Federação Paulista do Movimento em Defesa da Vida.
A passeata parou em frente ao Congresso e fez um minuto de silêncio em homenagem ao deputado federal Enéas Carneiro (PR-RJ), morto no domingo. Enéas era um dos organizadores da marcha contra o aborto. Os manifestantes prepararam cartazes vermelhos e um dragão negro que simbolizava o SUM (Sistema Único da Morte). Nas laterais da alegoria, foram afixadas bonecas com manchas vermelhas que simbolizavam fetos abortados. (Colaborou Ulisses Campbell)
SEM MEDO DA ESQUERDA
O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, explicou que a Igreja Católica não teme os governos de esquerda, mas condena as tentativas de instaurar regimes ditatoriais e a recente legalização do aborto no distrito da Cidade do México. A condenação da Igreja ocorre, explica o cardeal, quando “estes governos pretendem retomar regimes anacrônicos e ditatoriais ou quando se tornam reféns de fortes poderes que propagam modelos de vida cada vez mais distantes e hostis à tradição cristã”. Questionado se a Igreja vê com suspeita a volta da esquerda latino-americana, Bertone, em entrevista à revista católica italiana 30Giorni, afirmou que a “Igreja não teme as siglas, mas eventualmente, os conteúdos”. Bertone também revelou que “uma certa teologia da libertação, não poluída com doutrinas opostas à fé cristã, como as marxistas”, possui espaço dentro da Igreja.