Documentos obtidos pela Polícia Federal durante as atividades de busca e apreensão da Operação Hurricane (Furacão, em inglês), em 13 de abril último, apontam supostos pagamentos realizados por bicheiros e integrantes da máfia dos caça-níqueis a diversos políticos do Rio de Janeiro, entre os anos de 2001 e 2002. A lista, composta por anotações manuscritas, inclui os nomes de quatro candidatos ao governo do Estado em 2002: Benedita da Silva (PT), governadora que foi derrotada ao tentar se reeleger; Rosinha Garotinho (PMDB), que venceu a eleição; o ex-prefeito de Niterói, Jorge Roberto da Silveira (PDT); e Solange Amaral (DEM), hoje deputada federal.
A relação contém ainda os nomes de dois candidatos a vice-governador: o ex-prefeito Luiz Paulo Conde (PMDB) e o delegado federal Flávio Furtado (PTB), que compôs a chapa de Silveira.
Deputados federais
Em documento remetido à juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6ª Vara Federal do Rio, o delegado Élzio Vicente da Silva identificou também os nomes de quatro deputados federais à época: Josias Quintal (PMDB), ex-secretário de Segurança que se elegeu naquele ano; Bispo Rodrigues (PR), que renunciou ao mandato em meio ao escândalo do mensalão; André Luiz (PMDB), cassado em 2005 por acusação de tentar extorquir dinheiro do bicheiro Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira; e Eurico Miranda (PP), que não se reelegeu em 2006.
Na atual Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, o delegado aponta os nomes de outros três peemedebistas: o ex-chefe da Polícia Civil Álvaro Lins, o ex-secretário estadual de Esportes Chiquinho da Mangueira e Domingos Brazão.
O documento apresenta números simples, sem detalhes. Por meio do cruzamento de dados, a Polícia Federal concluiu que os valores pagos correspondem a esses mesmos números multiplicados por mil reais.
Rosinha
Por esta conversão, a ex-governadora Rosinha teria recebido R$ 1,6 milhão. Já Solange Amaral teria embolsado uma quantia de R$ 200 mil, enquanto Silveira e Conde teriam recebido R$ 100 mil cada um. No caso de Benedita da Silva, as contas da PF somam R$ 40 mil.
O registro dos pagamentos estava em uma mala preta, marca Montblanc-Mesterstuck, lacrada com segredo, no quarto usado como escritório na residência de Luciano Andrade do Nascimento, o Boca. O escritório fica localizado na Rua Dezoito de Outubro, 346, apartamento 502, no bairro da Tijuca.
Capitão Guimarães Nascimento, de acordo com a polícia, é braço direito de Júlio César Guimarães Sobreira, que por sua vez é sobrinho de Ailton Guimarães Jorge – o Capitão Guimarães –, preso e acusado de chefiar a máfia dos jogos no Estado. Na busca, os federais também apreenderam R$ 1.931.099 em espécie. Boca foi denunciado como responsável pelos pagamentos de propinas a políticos, policiais e servidores públicos.
Em outras listas achadas no escritório da Betec Games, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, aparece também o nome do deputado federal Simão Sessim (PP), primo do bicheiro Aniz Abrahão David, o Anísio da Beija Flor, também preso sob acusação de ser um dos chefões da máfia dos jogos no Rio ao lado de Capitão Guimarães. Os dados indicam que Sessim receberia pagamentos mensais no valor total de R$ 3 mil.
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Na lista, só abreviaturas
Os documentos encontrados pela PF apresentam nomes abreviados: Jo/Pau, A. Lins, J. Quintal, B. Rodrigues, Flavio Furtado, B. Silva, Amigo Magalhães, S. Amaral, JR Silveira, Conde, P.Almeida, Rosinha, D Braz – André Luiz, Pau, Eurico, Ch. Mang. Na soma dos números escritos, o maior valor aparece para as iniciais Jo/Pau num total de 2.500, que, pela tabela da PF, equivaleria a R$ 2,5 milhões. Somados a mais 580, anotados ao lado das iniciais Pau, a cifra sobe para mais de R$ 3 milhões.
O segundo maior número está relacionado ao nome Rosinha. Pela regra dos policiais, teriam sido pagos os seguintes valores totalizados: Domingos Brazão – André Luiz (R$ 50 mil), Eurico Miranda (R$ 50 mil), Álvaro Lins (R$ 35 mil), P. Almeida (R$ 30 mil), Bispo Rodrigues (R$ 25 mil), Chiquinho da Mangueira (R$ 25 mil), Josias Quintal (R$ 20 mil) e o Amigo Magalhães (R$ 15 mil). Ficaram sem identificação, porém, Jo/Pau, Amigo Magalhães e P. Almeida.