O governo não quer brincadeira de mocinho e bandido na base aliada: disparou uma operação para sepultar de vez a CPI da Navalha, que parecia assegurada pela oposição com apoio de 30 senadores e 172 deputados (uma a mais que o mínimo necessário). Mesmo assim, terá de enfrentar resistências. “Não vou retirar minha assinatura, mas a pressão está grande”, admitiu o deputado Paulinho da Força (PDT-SP), um dos signatários da CPI, que foi procurado pelo líder da bancada, Miro Teixeira (PDT-RJ), e pelo presidente da legenda, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, para retirar seu apoio à comissão.
O Palácio do Planalto transferiu aos líderes e dirigentes partidários a responsabilidade de barrar a investigação. Exige que as bancadas demonstrem unidade, sob ameaça de perder os cargos já indicados ou ainda em disputa no segundo escalão do governo.
Para inviabilizar a CPI da Navalha, os representantes do governo ameaçam tomar de volta os cargos ocupados por apadrinhados dos parlamentares da base que apoiarem a instalação da comissão. Como a oposição não passa de 120 deputados, sem o apoio dos governistas dissidentes a CPI da Navalha estaria inviabilizada.
A maior preocupação do governo é que a oposição use a criação de qualquer CPI para atrair ao centro da investigação a família do presidente Lula. O irmão dele, Genival Inácio da Silva, o Vavá, é alvo de investigação da Polícia Federal, acusado de fazer lobby no governo a favor de empresários que exploram máquinas de jogos ilegais. Oficialmente, o assunto não tem nada a ver com a CPI da Navalha, proposta para investigar relações de políticos e funcionários públicos com a empreiteira Gautama. Mas o governo teme a repetição da CPI dos Bingos. Controlada pela oposição, ela estendeu suas investigações a tantos assuntos que acabou ganhando o apelido de “CPI do Fim do Mundo”.
Deputados do PDT e do PSB que assinaram o requerimento são os principais alvos da ação do ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, e do líder do governo na Câmara, José Múcio Monteiro (PTB-PE), que comandam a operação. A avaliação do Planalto é de que as investigações feitas pela PF e pelo Ministério Público já têm causado preocupações demais e que a instalação da CPI serviria apenas para acrescentar mais pirotecnia ao assunto, uma vez que a apuração dos fatos vem sendo feita de forma satisfatória por delegados e promotores.
“Nós já temos conhecimento de que oito deputados pretendem retirar as assinaturas, mas vamos pagar para ver. Quem desistir da CPI que explique suas razões”, pressiona o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), ele próprio um dos integrantes da base governista. De acordo com Delgado, esses deputados das bancadas do PDT e do PSB estariam somente esperando a apresentação do requerimento para providenciar a retirada das assinaturas. É por essa razão, segundo ele, que a lista dos que subscreveram a CPI não foi divulgada até agora.
Cargos
No PMDB, a estratégia é outra: “Alguns deputados do PMDB assinaram o requerimento para barganhar com o governo e já teriam assumido o compromisso de retirar seus nomes em troca de cargos no governo”, acusa o deputado Chico Alencar (PSol-RJ). Trata-se do grupo liderado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que anda descontente com o fato de o presidente Lula não ter entregue a presidência de Furnas Centrais Elétricas para o ex-prefeito carioca Luiz Paulo Conde e a diretoria da BR Distribuidora para o ex-governador fluminense Moreira Franco. A rebelião teria sido aplacada com a possível nomeação de Moreira para a diretoria de Benefícios e Loterias da Caixa Econômica Federal.
Alencar avalia que a oposição deveria ganhar mais tempo para apresentar o requerimento, pois a confusão está muito grande na base governista por causa da reforma política. A aprovação do voto em lista fechada, que deve ser votada hoje, pode gerar muitos descontentamentos na base e favorecer os oposicionistas. Como houve um acordo de cúpula entre os grandes partidos para aprovar a lista fechada, alguns deputados da base, e de legendas nanicas, ameaçam fazer uma retaliação ao governo por se sentirem prejudicados por essa possível mudança no sistema eleitoral.
Estratégia
A intenção da oposição é fazer um esforço concentrado para conseguir mais assinaturas, principalmente entre oposicionistas que não subscreveram a proposta, como a bancada baiana do DEM, o antigo PFL. Esses parlamentares estariam solidários com o deputado Paulo Magalhães (DEM-BA), sobrinho do senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), supostamente envolvido com o esquema da empreiteira Gautama, do empresário Zuleido Veras, apontado como chefe da máfia que fraudava licitações públicas desbaratada pela Polícia Federal durante a Operação Navalha.
“Nós temos a promessa de mais dois nomes do DEM, que o líder da bancada, deputado Onyx Lorenzoni (RS), ficou de nos entregar ainda hoje. A bancada do PMN também ficou de apoiar a CPI, mas até agora ninguém assinou o requerimento”, disse Delgado.
Outra estratégia é ameaçar o governo com a criação de outra CPI, caso a da Navalha seja barrada. Uma alternativa seria a CPI dos Jogos Ilícitos, proposta pelo deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP). Nesse caso, seria uma comissão mais diretamente voltada para a investigação sobre Vavá, o irmão de Lula.