Depois de torrar milhões de reais com gasolina, os deputados federais encontraram outra forma de gastar o dinheiro público. Vários deles estão usando a verba indenizatória (R$ 90 mil por semestre) com o aluguel de táxi aéreo, para visitar as suas base eleitorais nos finais de semana. O segundo vice-presidente da Câmara, Inocêncio Oliveira (PR-PE), gastou quase R$ 70 mil no primeiro semestre com aluguel de aviões, sendo R$ 32 mil em junho. A concentração de gastos num único mês tem explicação: ele aproveitou a mordomia para participar de festas juninas nas quatro cidades que formam o seu principal reduto eleitoral.
A nova Câmara mantém a farra dos gastos com a verba indenizatória. Foram cerca de R$ 40 milhões nos primeiros seis meses do ano. O legislativo não fornece os totais. Limita-se a disponibilizar na internet as despesas de cada parlamentar, mês a mês. O Correio examinou as prestações de contas de bancadas de 21 estados, equivalentes a 72% da Câmara. Esses deputados tiveram um gasto de R$ 29,2 milhões. Projetando esse gasto para o universo de 100% dos deputados, a despesa total seria de R$ 40,3 milhões.
A Câmara não divulga as notas fiscais e comprovantes de despesas. Faz apenas uma prestação de contas, onde os gastos são agrupados em rubricas como locomoção, alimentação, pesquisas, consultorias ou divulgação do mandato.
Algumas despesas acabam camufladas. O líder do PR, Luciano Castro (RR), por exemplo, gastou R$ 57 mil no semestre no item “aluguel de imóveis para escritório e despesas concernentes a eles”. Procurado pelo Correio, o deputado afirmou que aplicou 70% dessa verba em ligações telefônicas. Ele e seus assessores chegaram a gastar R$ 8,4 mil em janeiro. Em seis meses, foram R$ 36 mil. “Já briguei com todo mundo por causa de telefone, mas a gente opera muito por telefone. As minhas funções de líder exigem ainda mais”, comentou o líder republicano.
Jair Bolsonaro (PP-RJ) guardou a maior parte da verba para comprar selos. Ele gastou R$ 54 mil para enviar 90 mil cartas a seus eleitores no mês de junho. A sua assessoria informa que ele mantém uma mala direta com 120 mil eleitores. Seria uma forma de compensar o pouco espaço que tem na mídia. Ele só aparece na grande imprensa quando, por exemplo, faz discursos propondo o fechamento do Congresso.
Locomoção
A verba para locomoção inclui despesas feitas com hospedagem e alimentação nas viagens dos parlamentares e de seus assessores nos seus estados. Os deputados argumentam que precisam manter o contato com os eleitores, principalmente nos finais de semana, para colher reivindicações, opiniões, e para sentir a repercussão do seu trabalho no Congresso. Mas alguns exageram.
Inocêncio fez três roteiros juninos. No primeiro final de semana, partiu de Recife, esteve em Salgueiro e Juazeiro do Norte e voltou para a capital a bordo de um King Air, um bimotor turbohélice com cabine pressurizada. Custo do trajeto: R$ 13,6 mil. O segundo roteiro incluiu Serra Talhada, principal base eleitoral de Inocêncio, e Salgueiro. Mais R$ 11,5 mil de gastos. O deputado também pegou um avião para fazer uma viagem ida e volta a Arco Verde, cidade distante cerca de 260 quilômetros da capital. Custo do frete: R$ 7 mil.
Mas ele não foi o único a alugar aviões. Roberto Rocha (PSDB-MA) gastou R$ 69 mil com transporte aéreo, sendo R$ 23,5 mil em março e R$ 31,2 mil em maio. No final de semana passado, o deputado saiu de São Luís e percorreu cinco cidades em dois dias. A mais distante, Carolina, fica a 600 quilômetros da capital em linha reta. O deputado conta que fez contatos com lideranças locais, visitou obras e participou de vaquejadas. Ele argumenta que só o seu município tem território correspondente à metade do estado de Sergipe, com distância de 400 quilômetros entre a sede e alguns povoados. “Percorrer tudo isso de carro é impraticável. Só de avião mesmo”, comentou. Clóvis Fecury (DEM-MA) gastou R$ 26,4 mil em abril com aluguel de aviões. Ele costuma percorrer o estado a bordo de um Cesna para se reunir com lideranças políticas.
Verba represada
Roberto Balestra (PP-GO) gastou 44,8 como locomoção, sendo R$ 29,3 mil em abril. A assessoria do deputado afirmou que os gastos ficaram aparentemente concentrados num único mês porque foram apresentadas notas fiscais de dois ou três meses em abril. Pelas normas da Câmara, a verba semestral de R$ 90 mil pode ser distribuída ao longo de seis meses ou ser gasta em apenas dois ou até um mês.
O campeão de gastos com aluguel de aviões é Mussa Demes (DEM-PI). Ele torrou toda a verba indenizatória nesse item. Segundo informou a sua assessoria, ele tem um contrato fixo de R$ 15 mil por mês com uma empresa de táxi aéreo. Seria o único jeito de visitar os mais longínquos municípios do Piauí.
Darcísio Perondi (PMDB-RS) visita periodicamente 120 municípios gaúchos. Gastou R$ 70 mil neste semestre nos deslocamentos semanais. Mas não alugou nenhum avião. Viajou sempre de carro, às vezes percorrendo distâncias de 700, 800 quilômetros. “Eu vou de carro. A maioria dos que usam avião é do Norte ou Nordeste, onde as distâncias são maiores. Essa verba é questionada às vezes. Mas, se o deputado não usar, fica só em Brasília. O deputado precisa desse contato. É muito questionado no interior, mas essa cobrança é boa”.