Quando o arquiteto Oscar Niemeyer projetou o Palácio do Planalto, em 1956, ele fez questão de deixar o interior dos gabinetes visíveis para a população do lado de fora. Na visão do arquiteto, seria uma forma democrática de o povo acompanhar o que se passa nos principais gabinetes do governo federal. Anteontem, uma cena inusitada foi captada: o assessor especial de Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Garcia, e o jornalista Bruno Gaspar foram flagrados comemorando com gestos obscenos a notícia sobre a possível falha mecânica no avião da TAM que explodiu na terça-feira, matando cerca de 200 pessoas. Marco Aurélio e o jornalista festejaram porque a nova informação, na visão particular deles, tira do governo a culpa pelo acidente.
Enquanto assistia ao Jornal Nacional, Marco Aurélio fez por três vezes o gesto obsceno em que se bate a palma da mão aberta contra a outra mão fechada. Ao seu lado, o assessor Bruno Gaspar se empolgou ainda mais e esticou os dois braços para a frente e depois trouxe os cotovelos em direção ao quadril, representando uma cópula.
A atitude de Marco Aurélio e do jornalista provocou revolta em políticos e na população (Leia O Povo Fala). Ontem, o presidente do PSDB, Tasso Jereissati (CE), cobrou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma atitude enérgica contra o assessor. “O assessor foi flagrado em explícita cena de regozijo. Atitudes dessa natureza são inaceitáveis e ofendem toda a população, ainda consternada com a maior tragédia da aviação nacional”, disse o senador. Não é a primeira vez que um funcionário do primeiro escalão do governo reage com ironia à crise aérea. No dia 13 de junho, a ministra do Turismo, Marta Suplicy, recomendou à população que “relaxasse e gozasse” ao esperar o vôo atrasado no aeroporto.
O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), disse que o país assistiu de forma “estarrecida” ao gesto de Garcia. “Como se isso aliviasse a dor das famílias de luto e afastasse a responsabilidade de um governo que demonstra incompetência para lidar com o apagão aéreo”, criticou. Nem deputados aliados pouparam Marco Aurélio. “As atitudes e frases deveriam ser evitadas para não ter esse tipo de situação que constrange a todos”, disse o deputado Marco Maia (PT-RS), relator da CPI.
“Privado”
A Comissão de Ética Pública, órgão de assessoramento do presidente da República, analisará o caso. A decisão foi tomada ontem pelo presidente-interino do órgão, Marcílio Marques Moreira. O tema será discutido na próxima reunião, marcada para o dia 30. A Comissão de Ética não tem poder de punir um servidor público, mas de recomendar a punição. Caberá ao presidente Lula acatá-la ou não. Depois da reação negativa, Marco Aurélio pediu desculpas por sua reação, que classificou de “gesto privado”. Ele negou que tenha comemorado a notícia de falha no avião da TAM. “Meu gesto não expressa satisfação, alívio ou felicidade”, garantiu. O jornalista Bruno Gaspar deu a mesma justificativa para o flagrante: “Estávamos num momento privado, extravasando nossa indignação com a cobertura parcial e precipitada de certos setores da imprensa, que tentaram politizar a tragédia”.
SITE DA INTERNET EXIBE IMAGENS
Meia hora depois de irem ao ar, as cenas em que o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, faz gestos obscenos foram parar no site de internet You Tube, famoso por abrigar vídeos caseiros. Pelo menos 12 links mostram, na íntegra, a polêmica atitude. Um dos caminhos para acessar as imagens já tinha sido visitado ontem por 9 mil usuários. Eles deixam comentários críticos ao assessor. “Não esperamos essa reação do governo”, disse um internauta. “Tive a impressão que os gestos magoam a família das vítimas”, reagiu outro internauta. No Orkut, foi criada uma comunidade para repudiar as cenas. O nome é impublicável.