Analfabeto, estrábico e manco, o morador de rua Agamenon da Conceição comemorou seus 37 anos na prisão, no último dia 28, com seu par de muletas. Está detido há 80 dias sob acusação de tentar furtar uma tesoura e um pente de um carroceiro – colega com quem dividia as marquises da Rua Frei Caneca, na região central – para fazer a barba.
– Estava bêbado. Eu só queria a tesoura e o pente para cortar a minha barba, que estava muito comprida, me dando coceira. Um homem passou na rua e me viu pegando as coisas do outro, que é meu amigo. Ele chamou a polícia. Não precisava disso. A gente estava sem documento e acabou indo para a delegacia.
Preso no Centro de Detenção Provisória (CDP) da Vila Independência, na zona leste, desde o dia 23 de agosto, Agamenon não se conforma.
– Um promotor matou três pessoas e está solto. Eu não matei ninguém e estou aqui – disse ao Diário, em entrevista autorizada pela Justiça, por ele e pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), na segunda-feira passada.
Agamenon foi denunciado e interrogado pela juíza Carolina Freitas, no Fórum da Barra Funda, em 11 de outubro. Apesar do pedido de liberdade provisória feito pelo defensor público Thomaz Farqui, a juíza manteve a prisão até o julgamento. A alegação é que o réu tem antecedentes – tentativa de roubo, em 1989, e porte de entorpecente, em 1999.
– Para efeito legal, ele voltou a ser primário – disse Farqui.
Na terça-feira, o defensor entrou com novo pedido.