Líderes do Senado dos Estados Unidos sabatinaram nesta quarta-feira (12) o diretor da CIA (agência central de inteligência norte-americana), Michael Hayden, sobre a destruição de fitas de interrogatórios de dois membros da al-Qaeda que supostamente mostravam atos de tortura.
No início dos dois dias de audiências a portas fechadas no Congresso, Hayden teve que dar informações sobre as ações da CIA, que já está com sua imagem arranhada por causa de problemas de maus-tratos a detidos na luta antiterrorista.
“É um grande prazer vir aqui e apresentar os fatos que conhecemos (…). Ficaremos muito contentes se os fatos indicarem o caminho”, disse Hayden aos jornalistas antes de entrar na Comissão de Inteligência do Senado.
A palavra mais ouvida em Washington nestes últimos dias é “investigação”. Isso porque o Departamento de Justiça, o inspetor-geral da própria CIA e o Congresso pretendem realizar investigações internas.
Os legisladores querem saber se houve obstrução à Justiça, por que as fitas foram destruídas e quem deu a ordem. Amanhã, a Comissão de Inteligência da Câmara de Representantes fará essas mesmas perguntas.
O presidente da comissão, o democrata Silvestre Reyes, e o republicano com maior autoridade, Pete Hoekstra, prometeram que sua investigação não deixará espaço para dúvidas.
Na segunda-feira, os dois desmentiram que a comissão havia sido informada sobre a destruição das fitas, e agora exigem detalhes sobre os interrogatórios da CIA.
Em declarações à rádio pública “NPR”, a legisladora democrata Jane Harman afirmou que foi informada sobre a existência das gravações em 2003, quando integrava a comissão. Além disso, expressou dúvidas de que o diretor das operações clandestinas da CIA, José Rodríguez, tenha atuado apenas na eliminação das fitas.
Há muitas perguntas e pouca clareza “sobre um assunto tão grave, e o Congresso tem que chegar ao fundo da verdade”, declarou Harman, uma das poucas legisladoras que receberam relatórios secretos sobre o programa de interrogatórios da agência.
Desde quinta-feira, quando a destruição das gravações em 2005 foi divulgada, Hayden disse que centenas de horas de gravação foram eliminadas para evitar o vazamento e possíveis represálias contra os agentes que participaram dos interrogatórios.
As fitas em questão foram gravadas em 2002. Em uma delas aparecia Abu Zubaida, cuja atitude desafiante tornou necessária – de acordo com o próprio Hayden – a aplicação de “outros métodos” de interrogatórios não especificados.
Além disso, a CIA, apoiada pela Casa Branca, alega que a agência de espionagem obteve permissão explícita para destruir as gravações em que outro suposto membro da rede terrorista Al Qaeda também aparece.
A porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, frisou que os “Estados Unidos não torturam” e que “todos os interrogatórios foram realizados dentro da legalidade”.
Horas antes da chegada de Hayden, o secretário de Justiça americano, Michael Mukasey, afirmou em entrevista coletiva que o departamento de Justiça investigará a fundo o ocorrido.
No entanto, Mukasey não quis se pronunciar sobre a nomeação de um promotor independente, como pediam alguns democratas, por considerá-la “hipotética”.
As investigações e denúncias que se multiplicam a cada dia no Congresso colocaram em evidência as táticas de interrogatório da CIA e, em particular, o uso da asfixia simulada contra os detidos.
John Kiriakou, um ex-interrogador da CIA, declarou ao jornal The Washington Post que a asfixia simulada, utilizada por menos de um minuto contra Zubaida em 2002, porque ele não cooperava, provavelmente o enganou e ajudou a salvar vidas.
No entanto, Kiriakou esclareceu que agora considera que esse método pode ser considerado tortura e não deve ser utilizado.
Além de estar sendo discutido pelos legisladores, o assunto das fitas chegou à campanha pré-eleitoral, já que vários candidatos democratas, entre eles o governador do Novo México, Bill Richardson, exigem uma investigação plena.