A reconstituição do rapto e do assassinato da estudante Isabela Tainara Faria, 14 anos, começou a ser preparada pela Polícia Civil do Distrito Federal. Agentes, delegados e peritos preferem fazer o trabalho com a presença dos três suspeitos: o gari preso há uma semana e os outros dois homens que ele afirma terem participado do crime. Caso não prendam os dois cúmplices do prisioneiro nos próximos dias, a equipe da Delegacia de Homicídio (DH), responsável pela investigação do caso, admite levar o detento sozinho ao local onde a menina foi deixada morta: o matagal atrás do Condomínio Vida Nova, na QR 603 de Samambaia.
Vizinhos da área verde pertencente ao Governo do Distrito Federal revelaram ao Correio que policiais civis estiveram, no último sábado, nos pontos onde os restos mortais de Isabela foram localizados, 45 dias após o assassinato. Os agentes tentaram identificar fragmentos das roupas e do material escolar da estudante, mas saíram da área sem novas pistas. Além de ter passado 10 meses do crime, o terreno está tomado pelo mato alto. Ainda assim, os policiais esperam que o gari preso aponte locais onde possam haver marcas da violência cometida contra Isabela.
Sem provas técnicas para indiciar o gari pelo seqüestro e homicídio, os agentes da DH contam com a ajuda dos peritos para incriminá-lo. A maior aposta é o carro do preso, um Santana, que ele diz ter usado no rapto de Isabela. O veículo está apreendido desde quinta-feira passada. Os técnicos do Instituto de Criminalística tentam encontrar qualquer vestígio da menina no Santana. A descoberta de um fio de cabelo ou de uma impressão digital da garota, por exemplo, seria capaz de vincular o homem detido ao crime.
Esperança
Por enquanto, investigadores da Polícia Civil e representantes do Ministério Público do Distrito Federal têm apenas a confissão do prisioneiro. Ela possibilitou o pedido de prisão temporária contra o acusado. Mas, apesar de filmada e assinada, a confissão não é suficiente para levar o suspeito ao tribunal. “Só a confissão não adianta. Por isso, o carro é uma esperança, mas pequena. O problema é que se passou muito tempo desde o crime. Podem ter lavado várias vezes o veículo”, disse a promotora Maria José Miranda, do Tribunal do Júri de Brasília, que assessora a polícia e acompanha o caso desde o início.
A própria promotora, no entanto, relembrou uma investigação concluída em Brasília há alguns anos. O carro usado por um acusado de assassinato surgiu exatamente como elo entre autor e vítima. Na época, a polícia tinha motivos para acreditar que a morte tinha ocorrido dentro do veículo. E o localizou em Uberlândia (MG) somente quatro anos depois do crime. “Os peritos avaliaram o carro e encontraram nove fios de cabelo da pessoa assassinada. Estava ali a prova que ligava o suspeito ao homicídio”, contou Maria José.
Ela teme ainda que os dois comparsas acusados pelo preso tenham tido tempo para se livrar de outras possíveis provas do homicídio da estudante, principalmente depois da divulgação de que um dos supostos envolvidos na trama de rapto e morte está preso no Departamento de Polícia Especializada (DPE). A prisão temporária tem validade de um mês. É o tempo que a polícia tem para reunir as provas. Existe a possibilidade de se conseguir a prorrogação da detenção, mas o pedido precisa ser fundamentado com novos elementos na investigação.
Violência
O homem detido desde quinta-feira confessou a participação no seqüestro da menina, disse ter planejado e executado o rapto com dois cúmplices, mas não revelou nomes e endereços dos supostos envolvidos (leia detalhes no quadro ao lado). A estudante, segundo o acusado, morreu porque os comparsas a estupraram, antes mesmo de pedir resgate. Eles a levaram de carro do Sudoeste, quando ela saía do curso de inglês, no fim da tarde de 14 de maio. A violência sexual ocorreu no veículo, segundo o acusado. Ainda na versão do gari, ela foi asfixiada logo em seguida, com um saco plástico. O corpo de Isabela foi deixado no matagal atrás da QR 603 de Samambaia.
Com a ajuda de professores e pesquisadores do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB), peritos do Instituto de Criminalística confirmaram que Isabela morreu no mesmo dia do desaparecimento, 14 de maio. A certeza teve como base a análise dos insetos coletados no corpo da estudante, por meio de uma ciência conhecida como entomologia forense. Mas o corpo da menina foi enterrado sem que os laudos periciais apontassem a causa da morte. Eles também não puderam confirmar a violência sexual. Devido ao avançado estado de decomposição, ficou impossível coletar vestígios dos assassinos na vítima.