Cerca de 70 pessoas foram encontradas em situação análoga à de escravo na Fazenda Parque Recreio no Recreio dos Bandeirantes, durante inspeção realizada por representantes do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro, Superintendência Regional do Trabalho e Polícia Federal. Diversas irregularidades trabalhistas foram encontradas no local, entre elas servidão por dívida, salários não pagos, alojamentos impróprios e carteiras de trabalho retidas.
A propriedade pertence ao empresário Pasquale Mauro, dono do Hospital Rio Mar. A fazenda tem sido preparada para se tornar uma área rural urbana temática e turística. Os trabalhadores encontrados foram arregimentados para exercerem funções de serventes, pedreiros e serviços gerais a fim de construir os locais que serão destinados ao público visitante.
Oriundos da Paraíba e de Pernambuco, os trabalhadores receberam proposta para trabalharem no Rio de Janeiro por um salário médio de R$ 800,00. O intermediário ou “gato” da suposta contratação é chamado por eles de “Nego de Totô”.
Dados colhidos revelam que a maioria dos trabalhadores é analfabeta e deixou a família com a falsa promessa de ganhar dinheiro para a construção de um prédio no Rio de Janeiro. Este não é o primeiro grupo a vir de regiões do Nordeste. Alguns já foram demitidos e retornaram para suas respectivas cidades, mas a maioria está instalada na cidade ou nos próprios alojamentos concedidos pelo empregador.
O grupo atual embarcou no dia 25 de outubro em um ônibus fretado pelo “gato” e foi instalado em alojamentos inadequados, pois os locais não têm água potável e nem condições de higiene e segurança. Um dos alojamentos contém 14 quartos. Em cada um dos cômodos dormem quatro homens em beliches precárias. O local é chamado de “Carandiru” pelos trabalhadores. Na porta de cada quarto não há fechaduras, mas há correntes que são colocadas para garantir a segurança dos trabalhadores, pois o alojamento já foi invadido por ladrões.
Segundo depoimentos colhidos no local, os trabalhadores são submetidos a uma jornada excessiva, além custearem a própria alimentação e alojamento. “Trabalhamos de segunda a segunda, pois se não trabalharmos nos finais de semana, não comemos. Não temos dinheiro, não recebemos salário e sequer temos notícias dos nossos familiares. Quando recebermos, teremos que pagar a passagem de ônibus (R$ 300,00). Eu só quero voltar para casa”, disse um dos trabalhadores.
Um menor foi encontrado entre os demais. Ele conta que recentemente foi vítima de acidente de trabalho, cortou um dos dedos em uma máquina e foi levado ao hospital pelos próprios colegas de trabalho. “Quase perdi o dedo. Levei 12 pontos e continuo trabalhando normalmente”, disse.
A inspeção foi realizada pela procuradora do Trabalho Juliane Mombelli e pelos auditores fiscais do Trabalho Bárbara Rigo, Leonardo Loppi e Luciano Moraes Silva. O empresário não compareceu ao local e a equipe foi recebida pelo advogado Diogo Maia no Hospital Rio Mar. Na condição de representante legal, o advogado recebeu notificação, sendo-lhe dado prazo até a próxima sexta, dia 28/11, para que sejam apresentados todos os dados dos trabalhadores trazidos. Paralelamente, serão calculados pelos auditores fiscais os valores das rescisões trabalhistas e demais verbas devidas. Na noite desta terça-feira, o alojamento foi interditado por condições inadequadas e por estar frontalmente em desacordo com as normas regulamentadoras do MTE.
Segundo a procuradora do Trabalho, o proprietário deverá assegurar a alimentação dos trabalhadores e a integridade física até a data da rescisão contratual, além de garantir o retorno às cidades de origem.
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