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Meninas superpoderosas contra a violência de gênero.

O enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher demanda a formação de meninas superpoderosas. A percepção é fruto das manifestações de centenas de alunas de escolas públicas em eventos como “Profissões”, iniciativa aplicada em unidades de ensino da Zona Leste da capital paulistana.

Por Fabíola Sucasas, dirigente do Movimento do Ministério Público Democrático (MPD), Promotora de Justiça Assessora do Núcleo de Inclusão Social do CAO Cível e Tutela Coletiva

O enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher demanda a formação de meninas superpoderosas. A percepção é fruto das manifestações de centenas de alunas de escolas públicas em eventos como “Profissões”, iniciativa aplicada em unidades de ensino da Zona Leste da capital paulistana.

As certezas e as dúvidas que afirmam têm colocado integrantes de instituições como o Ministério Público como um todo e o MPD em particular a refletir sobre novas estratégias de abordagem sobre o tema. Para isso, uma compreensão do atual contexto em que a causa está inserida precisa ser atualizada.

 

A Vara Especial de Violência Doméstica da Zona Leste contempla aproximadamente vinte e seis mil processos; milhares de mulheres, das mais variadas faixas etárias, depois de alguns anos de ciclos de violência, romperam com o silêncio e solicitaram ajuda do sistema de justiça. Uma rota crítica que se estabelece em cada um dos feitos e em meio a um cem número de obstáculos, como desde relatos de mal atendimento em serviços públicos até o reconhecimento das diversas estruturas negligenciadas do Estado.

As certezas e as dúvidas que afirmam têm colocado integrantes de instituições como o Ministério Público como um todo e o MPD em particular a refletir sobre novas estratégias de abordagem sobre o tema. Para isso, uma compreensão do atual contexto em que a causa está inserida precisa ser atualizada.

 

A Vara Especial de Violência Doméstica da Zona Leste contempla aproximadamente vinte e seis mil processos; milhares de mulheres, das mais variadas faixas etárias, depois de alguns anos de ciclos de violência, romperam com o silêncio e solicitaram ajuda do sistema de justiça. Uma rota crítica que se estabelece em cada um dos feitos e em meio a um cem número de obstáculos, como desde relatos de mal atendimento em serviços públicos até o reconhecimento das diversas estruturas negligenciadas do Estado.

A Nota Técnica Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde realizada a partir de informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), aponta que 527.000 estupros ocorrem por ano no Brasil. 89% deles atingem mulheres; 50% atingem crianças menores de treze anos. E os autores da violência sexual são as pessoas mais próximas, com quem as meninas detém intensos laços de confiança.

 

A mesma Nota Técnica aponta que 11,3% de todo o volume dos estupros envolvendo crianças, foram praticados pelos próprios pais; também, que 15% dos estupros são os chamados “coletivos”, eis que cometidos por duas ou mais pessoas. E recentemente, sobreveio notícia de que as notificações dos estupros coletivos dobraram em cinco anos.

E não há dúvida de que as consequências da violência sexual para crianças e adolescentes são extremamente gravosas, haja vista que estão em desenvolvimento e em processo de formação psicológica da autoestima.

 

Muitas outras faces violentam nossas meninas.

A exploração sexual infantil, entendida como a violência sexual que pressupõe uma relação de mercantilização na qual o sexo é fruto de uma troca, ainda que subnotificada é uma realidade que movimenta cifras bilionárias e percorre por 17% dos municípios de todo o país segundo a Organização das Nações Unidas; a ONU também aponta a internet como um campo fértil de vulnerabilidade e violência para as meninas, que são a maioria das vítimas de abuso e exploração sexual: em 2013, 81% dos materiais que continham abuso sexual de crianças retratavam meninas, que tiveram a transmissão indevida de suas imagens e foram ainda vítimas de abuso por meio da internet.

 

A pesquisa da Plan International “Por ser menina no Brasil – Crescendo entre Direitos e Violências”, também traz uma realidade de desigualdades de gênero no campo do trabalho doméstico, pois enquanto 76,8% lavam louça e 65,6% limpam a casa, apenas 12,5% dos seus irmãos homens lavam a louça e 11,4% dos seus irmãos homens limpam a casa. A mesma pesquisa confirma que são as mães que mais cuidam das meninas mesmo quando trabalham fora indicando não só que o cuidar anda é percebido como algo exclusivo do âmbito feminino, como a dupla ou tripla jornada da mãe.

 

A agência “Énois Inteligência Jovem” realizou, em parceria com o Instituto Vladimir Herzog e o Instituto Patrícia Galvão, estudo com meninas e jovens de 14 a 24 anos, das classes C, D e E. Os dados obtidos revelaram que 77% das meninas acreditam que o machismo impacta seu desenvolvimento e 90% responderam que deixaram de fazer alguma coisa por medo da violência, como usar determinadas roupas ou frequentar espaços públicos.

 

O Brasil assumiu compromissos internacionais para eliminar e prevenir a violência contra as mulheres de qualquer idade. Cito o compromisso para a redução da taxa de abandono feminino dos estudos e a organização de programas para aquelas jovens e mulheres que tenham deixado os estudos prematuramente; e também o de assegurar o direito de a mulher ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e costumes sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação.

 

O artigo 8º da Lei Maria da Penha garante a inclusão da perspectiva de gênero na educação. O Brasil assumiu esse dever, reconhecendo a necessidade de uma educação que prima pela igualdade de gênero.

Simples assim. Só que não.

 

Aquelas meninas que nasceram em 2006, ano em que a Lei 11.340 foi publicada e iniciou vigência, hoje tem onze anos de idade. Quantas delas no Brasil tem a garantia de uma educação feminista? Ainda crescem sob desigualdade de gênero, vulneráveis a uma série de violências que permeiam por todos os espaços, públicos e privados, como em casa, nas ruas, nos transportes públicos e privados e ainda carecem de representatividade e participação nos mais variados espaços de liderança.

 

Algumas iniciativas sugerem uma série de ações voltadas às jovens, as quais são importantes instrumentos de igualdade degênero e prevenção da violência contra a mulher.

 

Dentre as recomendações da Plan International na pesquisa já citada “Por ser menina”, além de campanhas e ações que possam incidir sobre o lugar das meninas no imaginário social e que possam levar os órgãos públicos responsáveis por políticas sociais para crianças e adolescentes a adotarem recortes de gênero, visando à diferenciação nas metas e estratégias dessa política, está a realização de ações de mobilização social das próprias meninas, incluindo a conscientização de seus responsáveis, famílias, lideranças e escolas, visando a seu empoderamento e protagonismo social.

 

A mesma Plan International apresenta uma série de iniciativas que promovem o empoderamento de meninas, desde a consciência de que o trabalho não é brincadeira, até educação sexual, capacitação profissional, oficinas de lideranças, dentre outros.

 

A também já citada pesquisa #meninapodetudo, aponta algumas atividades pioneiras, como a “Respectful Relationships” da Austrália, um plano nacional para trabalhar a violência contra a mulher dentro das escolas como forma de política pública, cuja cartilha apresenta uma base teórica sobre feminismo para que os professores utilizem o tema de forma transversal no currículo escolar.

 

A agência “Between Friends” de Chicago promove grupos de discussão e oficinas em sala de aula para o público adolescente voltados à compreensão de como construir e manter relacionamentos saudáveis, sobre namoro, violência e como preveni-la em suas próprias vidas, além de envolver-se em esforços de educação e prevenção com seus pares, escolas e na comunidade.

 

Outro programa realizado pela organização “Love is respect”, cujo objetivo é envolver, educar e capacitar jovens para prevenir e acabar com relacionamentos abusivos, é composto por advogados treinados que oferecem apoio, informação e consultoria para quem tem dúvidas ou preocupações sobre seus relacionamentos de namoro, através de ambiente virtual.

 

A plataforma digital da Planned Parenthood oferece, dentre outros, material de educação sexual para jovens, abordando temas como a puberdade, sexo, prevenção de gravidez, relacionamentos, privacidade online, etc. Em Sevilha, na Espanha, uma das suas principais linhas de ação em igualdade de gênero foi o desenvolvimento de uma proposta de formação para o ambiente escolar, primando pela consciência de gênero e prevenção da violência contra a mulher, focando alunos, professores e comunidade.

 

Vale citar também o rico material disponibilizado pela ONU Mulheres Brasil a respeito da iniciativa “O Valente não é Violento”, promovida dentro da campanha UNA-SE Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, cujo objetivo é o de estimular a mudança de atitudes e comportamentos dos homens, enfatizando a responsabilidade que devem assumir na eliminação da violência contra as mulheres e meninas.

 

São muitos os exemplos de iniciativas da sociedade civil capazes de contribuir para as políticas públicas brasileiras e permitir que o primado da igualdade de gênero seja um instrumento praticado da não violência contra a mulher. Bastam adotar, nossos Municípios, Estados e União, dentro de suas esferas de competências, tais iniciativas, ou mesmo suas próprias em nome do primado da garantia da observância dos direitos humanos.

 

Assim, para que seja fechada a rota crítica da intolerância e da discriminação de gênero, classe e raça que a maior parte da população enfrenta hoje é necessária uma educação que as torne superpoderosas desde cedo, muito cedo. Desta forma será possível, frente ao seu papel natural de educadora natural dos filhos, formar gerações de pessoas sem a inserção de preconceitos de qualquer tipo. Para que a mulher seja dona de si, livre de violência e valorizada por ser mulher, ela precisa ter convicção de quem ninguém fará isso por ela. A atitude nos pertence.

 

Meninas superpoderosas contra a violência de gênero.

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