Ao concluir a leitura do livro A massai branca – livro ao qual indico – alguns pontos permearam meu inconsciente ao ponto de fomentar um debate que se exteriorizou.
O livro, em linhas gerais, aborda o encontro de uma européia, branca e loira, com um guerreiro africano, advindo de uma região no interior do Kenya.
Na ocasião, a moça abandonou o conforto de seu lar, seus amigos, suas regalias para ir atrás de um amor, até então platônico, já que o guerreiro não sabia de seus sentimentos.
A obra desenvolve sua trama de forma influente, e baseado em uma história completamente real que retrata a paixão desse novo e miscigenado casal.
Como toda história real o amor não é circundado apenas de boas e floridas noticias, vez que a autora contraiu malária mais de uma vez, hepatite, desnutrição etc. Ademais se viu numa árdua tarefa de agregar costumes diferentes de povos com realidades totalmente distintas.
Enquanto a suíça, mesmo não sendo uma pessoa de amplas posses, tinha uma casa, roupas, boa comida e uma vida estável o seu companheiro desfrutava das mesmas regalias, mas na visão de seu povo visto que sua casa era feita de madeira e o telhado, bem esse é melhor deixar para os futuros leitores, sua comida era carne de cabra e leite da mesma.
No entanto, não é este o ponto ao qual ensejou meu debate interior, essa relação produziu um fruto: uma menina, e segundo as tradições do povoado africano a circuncisão feminina era obrigatória.
Neste momento houve um choque cultural intenso tanto por parte da autora, como de leitor que vos narra.
Circuncisão feminina é uma nomenclatura não uníssona porque alguns países utilizam a denominação mutilação genital feminina.
Em Abril de 1997, numa declaração conjunta a OMS e a UNICEF definiram a MGF como todos os procedimentos envolvendo total ou parcial remoção dos genitais femininos exteriores ou outras lesões para os órgãos genitais femininos por razões culturais ou outras que não-terapêuticas.
E defiram como mutilação genital feminina os seguintes procedimentos:
I – excisão do prepúcio, com ou sem excisão de parte ou totalidade do clitóris (clitoridectomia);
II – excisão do clitóris com parcial ou total excisão dos lábios menores (excisão);
III – excisão da parte ou totalidade dos genitais externos e coser da abertura vaginal deixando apenas um pequeno orifício para permitir a passagem de urina e do fluxo menstrual (infibulação);
IV – sem classificação – inclui práticas como o piercing, inserção de substâncias corrosivas ou ervas na vagina.
As justificativas para tal procedimento são variadas:
I – psico-sexuais: a remoção do clitóris implica na proteção da castidade e assim valoriza-las perante a comunidade;
II – religiosos: são resultados da crença dos que defendem a pureza da mulher e que seus órgãos genitais contribuem negativamente para a sua formação;
III – sociológicos: são atos de iniciação e passagem para a idade adulta e inibição da libido;
IV – higiênicos: porque os órgãos genitais femininos exteriores são “sujos”.
De acordo com a tradição cultural brasileira a prática da mutilação genital feminina pode ser vista com estranheza e repulsa, afinal é uma tradição muito distante de nossa população.
Em verdade, não é o que ocorre na prática, pois entre alguns grupos indígenas da Amazônia tal procedimento é comum, e em algumas décadas atrás os Shipibo-Conibo, no Peru também seguiam esse ritual.
A mutilação genital feminina não é uma prática pouco usual, já que segundo dados estatísticos da ONU, a cliterodectomia é praticada em mais de 25 países. No Chifre de África e o Mar Vermelho, para a costa Atlântica e do Egito e Líbia no Norte para Moçambique, Angola e Malauí no Sul, no Iêmen, Arábia Saudita, Iraque, Jordan, Síria e Argélia Sulista.
Já a infibulação é praticada na Somália, Djibuti, a maioria na Etiópia, Sudão e Quênia, na Nigéria, Senegal, Gâmbia, Burquina Faso, Níger, Gana, Guiné Bissau, Guiné, Serra Leoa, Libéria, Togo, Camarões, República africana Central, Tanzânia, Chade, Burundi e Uganda.
Em pesquisas realizadas sobre o assunto me deparei com relatos de mulheres que defendem a mutilação e mostram com orgulho pequenas facas e tesouras que foram transmitidas por gerações na família, e que o desuso de tal procedimento seria uma completa afronta contra os costumes locais.
O combate contra a mutilação genital feminina existe, mas não demonstra a eficácia pretendida pelos legisladores locais.
Países como Egito, Guiné-bissau, Sudão e Portugal têm legislações especificas sobre o assunto, no entanto a conseqüência inibitória tem pouco efeito prático já que apesar dos índices serem reduzidos não foi extirpado.
Não foi realizado nesses países um trabalho de conscientização e de mudança de comportamento de forma eficaz a ponto de modificar uma cultura e uma tradição cultural perpetrada por gerações.
Neste esteio, uma questão ainda persiste: a mutilação genital feminina deve ser reprimida por não fazer parte do cotidiano das pessoas, ou como uma forma de prevenção de futuras gerações, independentemente das tradições culturais dos povos?