seu conteúdo no nosso portal

A coragem supera a covardia

A coragem supera a covardia

'Dois fatos de grande importância para a vida do país ocorreram recentemente. Pelos seus reflexos nas instituições políticas, merecem destaque. A presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, não esperou 24 horas para rever a decisão do Tribunal Regional Federal (TRF), ordenando retorno da camarilha que fora libertada no dia anterior, beneficiada por uma decisão que surpreendeu a muitos. É de se admitir que os infratores não tiveram tempo sequer de tomar um banho, em casa, o que não seria suficiente para livrá-los das impurezas que trazem consigo. Os demais, que ainda não voltaram ao cárcere, continuarão desfrutando de soltura temporária, cabendo à Polícia Federal (PF) trazê-los novamente às grades. Com o episódio ocorrido em São Paulo, por certo, imaginavam que nada mais lhes poderia acontecer, partindo do entendimento de que no Brasil há uma facilidade incrível em se esquecer o que ocorreu no dia anterior. O favor que obtiveram deve-se ao foro privilegiado de que se beneficiam os detentores de mandatos eletivos, que, uma vez empossados, desvinculam-se daqueles que os escolheram.

“Dois fatos de grande importância para a vida do país ocorreram recentemente. Pelos seus reflexos nas instituições políticas, merecem destaque. A presidente do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie, não esperou 24 horas para rever a decisão do Tribunal Regional Federal (TRF), ordenando retorno da camarilha que fora libertada no dia anterior, beneficiada por uma decisão que surpreendeu a muitos. É de se admitir que os infratores não tiveram tempo sequer de tomar um banho, em casa, o que não seria suficiente para livrá-los das impurezas que trazem consigo. Os demais, que ainda não voltaram ao cárcere, continuarão desfrutando de soltura temporária, cabendo à Polícia Federal (PF) trazê-los novamente às grades. Com o episódio ocorrido em São Paulo, por certo, imaginavam que nada mais lhes poderia acontecer, partindo do entendimento de que no Brasil há uma facilidade incrível em se esquecer o que ocorreu no dia anterior. O favor que obtiveram deve-se ao foro privilegiado de que se beneficiam os detentores de mandatos eletivos, que, uma vez empossados, desvinculam-se daqueles que os escolheram.

A soltura dos infratores com a remessa de todos os inquéritos da “Operação Sanguessuga” para o STF, contemplando, inclusive, aos que não foram eleitos, constitui um vergonhoso privilégio que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) sempre combateu, por importar numa distinção imoral que estimula a impunidade. A decisão da ministra Ellen Gracie serviu para demonstrar que o STF não deve nem pode servir de abrigo aos que fogem do rigor da lei. Serviu, igualmente, para mostrar que deveremos ingressar numa nova fase, naquela Corte, renascendo a esperança no princípio da isonomia. Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É indispensável que o sejam, também, perante o julgador.

Enquanto a presidente do STF revelou em atos – e não em palavras – sua disposição em não dar trégua a essa quadrilha de malfeitores, já os presidentes e corregedores do Senado Federal e da Câmara dos Deputados optaram por uma solução que os deixou sob grave suspeita. Opuseram-se à instauração da CPI, pretextando que, em pouco tempo, será oferecida denúncia contra os indiciados. Assim, seria mais conveniente que o Congresso se conservasse comodamente inerte, transferindo à Procuradoria-Geral da República a iniciativa que lhe parecesse mais adequada.

A pusilanimidade foi tal que chegaram a afirmar que o Congresso Nacional não tem condições de investigar a participação dos parlamentares no escândalo das ambulâncias, pois a lista de suspeitos, a cada dia, torna-se maior, atingindo, a esta altura, 283 averiguados. A bisonha assertiva de que a documentação da PF estaria incompleta não passa de mero artifício: as eventuais omissões ou erros constatados poderiam ser corrigidos pela própria polícia, com o retorno do inquérito àquele órgão para as providências complementares. Restou, assim, evidente o conflito de posições entre a presidente do STF e aqueles que deveriam zelar pelo bom nome do Legislativo. A história nos ensina que as pessoas passivas sucumbem às suas desculpas e submetem-se aos seus temores. No episódio que envolveu os presidentes do Senado e da Câmara, nem mesmo as suas desculpas poderiam salvá-los perante a opinião pública, devido à falácia das escusas de que se valeram.

A transferência dos inquéritos à Procuradoria-Geral da República não resultou do temor que tivessem em cometer qualquer injustiça, mas, sim, da simpatia que pudessem receber do Executivo, evitando, com isso, o seu enfraquecimento no pleito que se aproxima. Esse é o verdadeiro motivo que inspirou essa iniciativa marcada pela frouxidão moral, que se contrapõe à intrepidez com que se houve a presidente do STF, instituição tão carente de pessoas que se disponham a cumprir, com denodo, o que está na Lei Maior”.

O artigo “A coragem supera a covardia” é de autoria do vice-presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Aristoteles Atheniense.

Compartihe

OUTRAS NOTÍCIAS

Sócio retirante desligado antes do Código Civil de 2002 não se submete ao prazo de dois anos
TJMT mantém multa aplicada a posto por falta de informação sobre preços
Borracheiro receberá adicional de insalubridade por estresse térmico