A análise da movimentação financeira com os cartões de crédito corporativos do governo federal, de acordo com o Sistema de Administração Financeira da Secretaria do Tesouro Nacional (Consiafi), revela que serventes de limpeza, motoristas e sindicalistas estão autorizados a fazer saques na rede bancária e faturar compras. Na Universidade Federal de Uberlândia, em 2007, um grupo de 10 servidores, a maioria sem função de gestor, foi responsável por gastos de mais de R$ 175 mil. O maior sacador foi o motoboy da reitoria, Paulo Sérgio Duarte de Freitas. Ele movimentou R$ 46, 7 mil em um ano, além de fazer compras diversas em papelarias, casas de revelação de fotos e lojas especializadas em produtos para animais.
O levantamento no Consiafi demonstra ainda a existência de pelo menos 8,3 mil cartões corporativos, que consumiram o total de R$ 75,3 milhões no ano passado. Desse valor, R$ 57, 3 milhões foram sacados em dinheiro. O Estado de Minas analisou a movimentação, com os valores discriminados dos saques e das faturas de cada um. Ao contrário das compras com nota fiscal, rastrear os valores movimentados em espécie é praticamente impossível.
Ontem, a Controladoria Geral da União (CGU) informou que 7.145 pessoas são portadores do cartão. A diferença pode ser explicada porque unidades gestoras da Presidência e 30 órgãos do Executivo e Judiciário podem ter mais de um servidor para a movimentações financeiras, sendo que alguns cartões estão registrados em nome do setor. Um exemplo é a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). O órgão não registra o nome do servidor responsável pelos saques, que chegaram a R$ 29,1 mil em 2007.
Na Universidade Federal de Uberlândia, o Fundo de Suprimentos foi movimentado por 10 servidores. Além de Paulo Sérgio, as serventes de limpeza Terezinha Maria dos Santos e Marlene Graça Silva receberam cartões e sacaram R$ 15,5 mil e R$ 2,7 mil, respectivamente. As duas confirmam ter usado o cartão de plástico do governo. Segundo elas, as retiradas e os valores sacados eram determinados pelo seus superiores e seriam destinados ao pagamento de diárias aos motoristas.
Campeão
Considerando as movimentações financeiras, o campeão é o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, que gastou R$ 34,5 milhões com o cartão, sendo que mais de 92%, ou seja, R$ 31,8 milhões, foram sacados em espécie. Dentro da estrutura do ministério, a maior gastança foi promovida pelo IBGE, com saques que superaram a casa dos R$ 100 mil, como o servidor Valter Nichio Bertoni, da unidade de Rondônia, que consumiu, em espécie, R$ 121,2 mil. Para a fatura, as compras foram de modestos R$ 986,99, durante todo o ano.
Valter não está sozinho. Seu colega José Vitor Neves Guimar, coordenador da agência do instituto em Barra do Piraí (RJ), uma cidade com pouco mais de 93,2 mil habitantes, sacou R$ 115,3 mil e faturou R$ 296,60, em compras. A técnica judiciária Noeme de Castro Chaves, da subseção de Santarém (PA), retirou R$ 89 mil em espécie, sendo superada por sua colega Miriam Motta Correa Pinto, que sacou R$ 94,2 mil em dinheiro.
O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse ontem em Brasília que os saques em dinheiro de funcionários do IBGE se explicam pela necessidade de pagar despesas dos agentes do Censo. Ele lembra que boa parte dos pesquisadores trabalha em áreas isoladas e não tem como pagar suas despesas de transporte e alimentação a não ser com dinheiro.
Mas nem todo o governo é gastador. O Ministério do Turismo, por exemplo, em todo o ano passado, fez saques de apenas R$ 2,1 mil e compras faturadas no valor total de R$ 1,7 mil. Também o Ministério das Relações Exteriores se mostrou econômico. Fez retiradas no cartão de R$ 1 mil e compras no total de R$ 3,2 mil.
Maria Clara Prates, Alana Rizzo e Alessandra Mello
Do Estado de Minas