Por decisão da ministra Eliana Calmon, relatora do inquérito da Operação Navalha no Superior Tribunal de Justiça (STJ), a Polícia Federal afastou ontem, por 60 dias, o delegado Zulmar Pimentel, diretor-executivo da Polícia Federal e segundo na hierarquia da corporação. Foi também suspenso do cargo o delegado Cesar Nunes, atual superintendente da PF em Salvador. A medida do STJ atingiu ainda o delegado Paulo Bezerra, cedido ao governo da Bahia, onde ocupa o posto de secretário de Segurança Pública do estado.
Pimentel e Nunes participavam ontem de encontro de diretores regionais da polícia em Tabatinga (AM). Eles foram chamados às pressas a Brasília, onde receberam a comunicação do diretor-geral da PF, Paulo Lacerda. Em nota divulgada no início da noite, a PF informou ter solicitado ao STJ o envio de peças da investigação que estejam relacionadas aos servidores e autorização para que os documentos sejam utilizados com o objetivo de se abrir procedimento administrativo disciplinar.
Eliana Calmon explicou ontem que o afastamento dos três delegados se deu porque eles teriam vazado informações ainda na fase da investigação que culminou na Operação Navalha. O pedido partiu do Ministério Público, que analisou os relatórios de contra-informação da própria polícia e recomendou o afastamento dos agentes federais das funções. Todos os três vão responder às acusações de vazamento e abuso de poder na Justiça Federal da Bahia, de acordo com a assessoria do STJ.
Os relatórios da PF apontam que o vazamento de informações teria ocorrido na Operação Octopus, apuração que deu origem à Navalha. A Octopus investigava a participação de delegados e agentes da PF em esquema de fraudes a licitações públicas no Nordeste e levantou indícios de envolvimento de policiais com o empresário Zuleido Soares Veras, dono da Gautama.
Informação privilegiada
Documentos do setor de inteligência apontam que o delegado João Batista Santana, então superintendente regional no Ceará, teria recebido informação de Zulmar Pimentel “acerca de existência de investigação contra o mesmo, inviabilizando, assim, o prosseguimento desta (a Operação Octopus)”.
Em 23 de fevereiro de 2006, segundo ainda com os relatórios da Octopus, o diretor-executivo da PF viajou a Fortaleza a pretexto de conversar com João Batista sobre suposta batida policial que ocorreria no Ceará e sobre outro assunto administrativo. A polícia levantou informações de que Zulmar teria avisado ao colega que ele seria exonerado do cargo em 8 de março, porque era alvo de investigação. Escutas telefônicas entre João Batista e outros interlocutores teriam confirmado a suspeita. A notícia chegou a outros investigados, caso dos delegados Cesar Nunes e Paulo Bezerra.
Zulmar declarou ontem que a decisão de afastamento foi política, motivada por suposições levantadas pela área de inteligência da corporação. Ele explicou que foi designado pelo diretor-geral Paulo Lacerda para uma missão oficial: avisar ao então superintendente João Batista que ele seria afastado do cargo. Nunes incumbiu a assessoria da PF de responder por ele. De acordo com a corporação, ele negou a acusação. Bezerra avisou, por meio da assessoria, que não comentaria o caso porque está afastado da PF desde que assumiu a secretaria de Segurança Pública da Bahia, em janeiro.