A aposentada Marucia Mialik ficou entre as 18h e a meia-noite de pé no Aeroporto Juscelino Kubitschek no último episódio de caos aéreo, uma quinta-feira de rebelião de controladores e vôo. Com a mesma determinação com que esconde a idade, essa senhora vaidosa e bem cuidada recusou-se, enquanto aguardava um vôo para Curitiba, a sentar-se no chão, único lugar disponível, como fizeram outros passageiros. Mal sabia ela que autoridades não precisam passar por desconforto como aquele em dias de crise. Cinco órgãos públicos mantêm salas de apoio no aeroporto, que custam aos cofres federais mais de R$ 1,3 milhão por ano.
Apesar do gasto milionário, assim como ocorria com a aposentada, muitos parlamentares desconhecem a existência do privilégio. Não é por menos. A sala de apoio da Câmara fica em um local de difícil acesso. Atrás do balcão de atendimento de duas companhias aéreas. Para chegar lá é preciso passar por um estreito corredor e subir uma escada.
A sala de 43 m² tem quatro sofás, um aparelho de TV de 20 polegadas, fax, telefone e uma pequena copa. Conta com uma mesa, uma cadeira e um computador para um funcionário. Mas estão lotados no lugar seis servidores não concursados da Câmara, com salários entre R$ 6,5 mil e R$ 8,7 mil. Os cargos chegaram a gerar disputa entre os líderes partidários, que exigiam a transferência dos funcionários para o prédio do Congresso. Até agora, no entanto, nada foi feito.
O Correio esteve na sala da Câmara no final da tarde da última quinta-feira. Dos seis servidores, encontrou apenas três na área de check-in do aeroporto. A informação foi a de que os servidores ficam, na maior parte do tempo, circulando pelo aeroporto. Além do gasto com funcionários, a Câmara paga à Infraero R$ 5,6 mil mensalmente pelo aluguel do espaço.
A sala do Senado também fica em um local discreto, atrás dos balcões de venda de passagens das companhias aéreas. Com 28 m², é mais modesta. Tem dois sofás, um aparelho de TV de 20 polegadas e um fax. Conta ainda com duas mesas e um computador, espaço suficiente para apenas um funcionário, que a equipe do Correio encontrou no mesmo dia. Mas estão disponíveis para o setor quatro servidores dos quadros do Senado, que ganham salários iniciais de R$ 5,5 mil, sem contar as gratificações e os acréscimos por tempo de serviço. O Senado paga ainda R$ 2,3 mil por mês à Infraero pelo aluguel da sala, além de R$ 1 mil mensal de despesas com água e luz. Os dados foram divulgados pelo site Contas Abertas a partir de pesquisa no Siafi, o sistema de acompanhamento de gastos do governo federal, e comentados pelas assessorias de imprensa dos órgãos.
O Senado mantém também uma funcionária no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Herança ainda dos tempos em que o Rio de Janeiro era capital do país. A Casa não paga aluguel à Infraero, porque a estatal que administra os aeroportos cedeu espaço de seu escritório para a servidora.
Só apoio
Câmara e Senado dizem não se tratar de salas vip, nos moldes das oferecidas por companhias aéreas a usuários fiéis, onde são servidos bebidas e petiscos. São chamadas de “salas de apoio”. Foram criadas apenas como local de descanso eventual a parlamentares e funcionários e para trocas de passagens, em caso de problemas. Isso porque os funcionários dos gabinetes é que marcam as passagens e emitem bilhetes no próprio Congresso. As companhias aéreas possuem balcões especiais no Anexo IV da Câmara. E, ao contrário do brasileiro comum, os parlamentares não pegam filas para despachar bagagens e ter acesso ao portão de embarque. O apoio oferecido no aeroporto serve apenas para eventuais problemas. Para isso, as duas casas do Legislativo gastam anualmente R$ 929 mil com o serviço. “É um absurdo o privilégio”, reclamou dona Marucia, depois de ser informada sobre as regalias.
O Judiciário também mantém salas vip no aeroporto. A área do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) fica no setor de embarque, com acesso restrito aos passageiros que vão viajar. Segundo as assessorias dos órgãos, não há funcionários contratados apenas para cuidar das salas. Quando um ministro dos tribunais viaja, um servidor vai ao aeroporto para ajudá-lo. O lugar serve apenas para acomodar os magistrados enquanto aguardam os vôos, diferentemente do restante dos passageiros que têm acesso a áreas comuns de embarque. A sala fica a maior parte do tempo fechada. Mesmo assim, para manter um espaço de 41 m², o STJ paga à Infraero R$ 13,6 de aluguel. O STF gasta valor idêntico.
O maior espaço, porém, é mantido pelo Ministério de Relações Exteriores. O Itamaraty possui uma sala de 117 m², área de um apartamento de dois ou três quartos. Dados do Siafi apontam repasses constantes do ministério à Infraero de cerca de R$ 9,3 mil. A assessoria de imprensa, porém, disse não ter sido possível sexta-feira obter dados sobre o custo de manutenção da sala vip no aeroporto de Brasília. O Itamaraty tem ainda outra sala, de 72 metros quadrados, no aeroporto do Galeão. Segundo o ministério, as salas servem apenas para a recepção de chefes de Estado estrangeiros (presidentes e primeiros-ministros). As autoridades nacionais não têm acesso ao local.