A pedido da Polícia Federal, a 5ª Vara da Justiça Federal no Mato Grosso do Sul determinou a quebra de sigilo bancário e fiscal das 85 pessoas que tiveram a prisão decretada no inquérito da Operação Xeque-Mate. Ainda estão na cadeia 67 pessoas. Entre elas estão Dario Morelli Filho, compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o empresário Nilton Cezar Servo, apontado como líder da máfia dos caça-níqueis. A medida judicial não incluiu o irmão de Lula, Genival Inácio da Silva, o Vavá, também investigado, mas que teve o pedido de prisão negado.
Os policiais começaram a receber as informações, que já revelaram indícios de enriquecimento ilícito dos envolvidos. A PF concentrará esforços em esmiuçar as transações financeiras de Servo e Morelli, acusados pela polícia como dois dos principais articuladores do esquema. A investigação policial apontou os dois como sócios de casa de jogos de azar no litoral paulista, negócio que estaria em nome de laranja. A dupla nega a parceria.
Para os investigadores, Servo repassava dinheiro a Morelli, que entre outras tarefas teria a função de corromper policiais. Vários policiais civis e militares do Mato Grosso do Sul foram presos por envolvimento com a máfia dos caça-níqueis. Só em 2005, por exemplo, os rendimentos do compadre de Lula foram de R$ 53 mil e a movimentação financeira chegou a R$ 320 mil.
Prisão preventiva
A Receita calcula essa movimentação a partir do que é recolhido de CPMF. Preso na segunda-feira da semana passada, Morelli teve a prisão temporária de cinco dias renovada por mais cinco na última sexta-feira. A PF avalia, agora, se tentará mantê-lo atrás das grades por mais tempo, juntamente com outros acusados. Os responsáveis pelo inquérito devem decidir hoje sobre o pedido de conversão da prisão temporária em preventiva.
A PF acredita que os registros bancários e fiscais ajudarão a destrinchar a engenharia da organização que atuava em pelo menos cinco estados. As ações ilícitas atribuídas ao grupo pelos investigadores incluem lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal. Muitas das máquinas usadas pelos empresários investigados eram contrabandeadas para o Brasil. Os suspeitos também distribuiriam propina para ter facilidades na administração pública.
Foi por causa desses indícios que a polícia passou a investigar Genival Inácio, irmão do presidente Lula. Escutas telefônicas flagraram Vavá pedindo dinheiro a integrantes da quadrilha, incluindo Nilton Cezar Servo. Os dois se conhecem há pelo menos 10 anos e, segundo advogados que os defendem, a relação não envolveria negócios.
Contra Vavá pesa a suspeita de ter usado o nome do presidente Lula para defender interesses de Servo e demais investigados pela Operação Xeque-Mate junto a órgãos do governo e do Judiciário. A PF apura se, em troca, o irmão de Lula recebeu propina. Vavá teve a casa vasculhada por agentes federais e foi indiciado por crimes de tráfico de influência e exploração de prestígio.
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Coronel envolvido
A máfia dos caça-níqueis sobreviveu nos últimos anos graças à associação com policiais. Ao todo, 14 policiais foram detidos na Operação Xeque-Mate. O ex-comandante da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul durante o governo José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, José Ivan de Almeida, mais conhecido como “Coronel Ivan”, é um dos principais suspeitos de envolvimento com o esquema.
Deputado estadual pelo PSB, Coronel Ivan é apontado pela Polícia Federal como um dos líderes de uma das cinco organizações criminosas que fazem parte da máfia dos caça-níqueis. Teria sociedade com Ari Silas Portugal e Hércules Mandetta Neto, que estão presos. Como tem direito a foro privilegiado, ficou de fora da operação.
A Procuradoria da República explica que o coronel “não é alvo da investigação, pois, atualmente, ocupa cargo de deputado e tem foro privilegiado”. “No entanto, constatou-se o envolvimento de José Ivan de Almeida com a organização criminosa em razão dos freqüentes contatos telefônicos que mantém com o investigado Ari Silas Portugal”. As conversas apontam possíveis pagamentos de propina e tráfico de influência.
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Delegados se explicam
O delegado titular da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio da Polícia Federal em Campo Grande, Aldo Roberto Brandão, afirmou ontem, que nasceu em uma barbearia a denúncia de que ele provocou vazamento de informações sobre a Operação Artêmis 3, desencadeada no dia 4 de abril deste ano, contra a chama “máfia dos caça-níqueis”. O depoimento foi tomado ontem à tarde, mesmo com o delegado sob licença médica.
Explicou que um dia depois das apreensões, estava no salão de barbeiro, situado em frente ao escritório de Elenilton Andrade, um dos acusados de ser gerente de casas de bingo pertencentes a Nilton Cezar Servo. Na ocasião, a PF apreendeu 465 máquinas caça-níqueis, e Andrade comentou notícias dos jornais dando conta das apreensões, dizendo que a “polícia quer acabar com o jogo”. Brandão respondeu: “A tendência é acabar mesmo”.
Ao contrário do que disse Brandão no depoimento, a PF possui gravações em que no dia 19 de abril, Andrade contou a um conhecido identificado como Alexandre Frozino Ribeiro, que Aldo havia avisado 15 dias antes da Artêmis 3, para “o pessoal retirar o equipamento da rua porque haveria repressão da PF”. Um delegado da Polícia Civil também foi ouvido. Marcelo Vargas, ex-titular da Delegacia de Ordem Política e Social do MS (Deops), prestou depoimento e foi liberado durante a manhã. Disse que não tem nenhuma culpa, com relação à máfia dos caça-níqueis. Na Justiça comum, Vargas responde a processo sobre o desaparecimento de R$ 12 mil, referentes a taxas de porte de armas cobradas pelo Deops.
Outro depoimento considerado importante nas investigações sobre as quadrilhas de jogo de azar foi do chefe do Serviço Reservado da Polícia Militar, coronel Marcos Antônio David dos Santos. Irritado e de pouca conversa, deixou às pressas o prédio da PF, depois do depoimento, dizendo apenas que e seu nome foi envolvido na Operação Xeque-Mate por um dos “ouvidos” dos “grampos” da PF.
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Conversas suspeitas
Numa das gravações interceptadas pela PF, com autorização da Justiça, o coronel Ivan Almeida, ex-comandante da PM de Mato Grosso do Sul e atual deputado estadual (PSB), cobra, em 2 de março deste ano, dinheiro de Ari Portugal, um dos presos pela Operação Xeque-Mate.
• CORONEL IVAN ALMEIDA: Você não vai ter o dinheiro hoje, né? Eu vou parar de ir atrás de vocês.
• ARI PORTUGAL: Por quê?
• ALMEIDA: Ah, era segunda e sexta. Eu, em 20 dias, recebi R$ 2.500. Eu vou parar.
• PORTUGAL: Tá doido, coronel?
• ALMEIDA: Eu tenho certeza que não recebi mais nada.
Em outro trecho, o coronel diz que é dono de máquinas de jogo.
• ALMEIDA: Não usa mais meu nome. Chega de vocês usarem meu nome, rapaz. Você está usufruindo. Chega, pára. Eu quero só que você me devolva aquelas 12 máquinas, que são minhas e o restante eu não quero nem saber.
• PORTUGAL: Que é isso?
• ALMEIDA: Não quero mais. Vivo atrás de vocês e, no dia que você quiser, você me dá R$ 1 mil. Aí nem me presta conta de nada. Eu não sou bobo, Ari. Você presta atenção na sua conversa. Se o cara ganha R$ 2 mil só por semana, eu não ganho nem metade disso?
• PORTUGAL: O senhor quer ver?
• ALMEIDA: Não quero mais. Não sou moleque. Ari, eu sou um deputado! Sou um coronel de polícia. Vivo atrás de você e você me dando o que você bem entende? Sem prestar conta!