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Parte da história da Ação Penal 470 ficará para sempre guardada com a morte de dois personagens da trama: José Carlos Martinez e José Augusto Dumont
Tereza Cruvinel Se eles não tivessem morrido antes de 2005, estariam hoje na Papuda ou talvez nem tivesse havido o escândalo do mensalão, pois levaram para o túmulo segredos importantes sobre a origem do esquema. José Carlos Martinez, então presidente do PTB, morreu em outubro de 2003 num acidente de avião, depois de ter negociado o ingresso de seu partido na base de apoio ao governo Lula, sendo sucedido por Roberto Jefferson. José Augusto Dumont, vice-presidente executivo do Banco Rural e verdadeiro gestor do banco, já tinha conexões com Marcos Valério desde 1998, no chamado mensalão mineiro. Com ele, acertou a concessão dos empréstimos que alimentaram o valerioduto, e, segundo o STF, são fictícios. Mas a condenação sobrou foi para a presidente do Banco, Kátia Rabelo, que teria funções institucionais e não gerenciais, e para o executivo José Roberto Salgado. Martinez, senhor do PTB, apoiou a candidatura de Ciro Gomes à Presidência em 2002. No segundo turno, ambos apoiaram Lula, assim como a maior parte das seções estaduais do partido. Vitorioso, Lula antecipou as indicações de Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda, buscando acalmar o mercado, e de José Dirceu para o Gabinete Civil, encarregando-o das negociações para compor o ministério e a base de apoio ao futuro governo. O PT, mesmo dobrando a bancada, elegera apenas 17% dos deputados federais. Durante as negociações, Lula desautorizou um acordo que Dirceu firmara com o PMDB, envolvendo a cessão do Ministério de Minas e Energia, onde já decidira colocar a gaúcha Dilma Rousseff. Com seu raio de ação limitado aos pequenos partidos, Dirceu focou no PP e no PTB. O PL, partido do vice José Alencar, outro implicado, integrava naturalmente a base. Indicações partidárias Se não tivesse morrido, Martinez, de temperamento oposto ao do explosivo Jefferson, dificilmente teria “chutado a barraca” como fez seu sucessor. Poderia ter esclarecido a natureza e o destino do dinheiro recebido pelo PTB. Bailarina encarcerada Com a morte de Dumont, Kátia recebeu a pena maior dentro do chamado “núcleo financeiro” do esquema, sendo condenada por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e evasão de divisas, a uma pena de 16 anos e 8 meses de prisão, afora a multa de R$ 1,5 milhão. Em 1998, foi no Rural que Marcos Valério obteve empréstimos que teriam financiado a campanha de políticos de Minas Gerais, o que ficou conhecido como “mensalão mineiro” e ainda não julgado. Valério o teria ajudado também a evitar que o Rural fosse incluído na lista de bancos denunciados pela CPI do Banestado. Aproximação explosiva Entre os políticos mineiros corre uma versão que só Dumont poderia ter confirmado. A de que os empréstimos eram, na verdade, antecipações de pagamento a Valério por uma comissão que ele receberia de Dumont, se conseguisse resolver, com a ajuda de Delúbio, um problema do Rural que valeria milhões: a suspensão da intervenção do Banco Central no Banco Mercantil de Pernambuco. Como o Rural detinha 22% das ações, seria remunerado por elas com mais de R$ 1 bilhão. O então presidente do BC, Henrique Meirelles, recusou-se entretanto a atender o pedido da dupla Valério/Delúbio. A bola de neve cresceu e acabou se espatifando. Mas Dumont morreu antes disso.
Fonte: Correio Braziliense |
Os segredos eternos do grande escândalo do mensalão