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Anatomia dos crimes mostra como os bandidos fardados matam nos estados nordestinos

Anatomia dos crimes mostra como os bandidos fardados matam nos estados nordestinos

As investigações da comissão parlamentar de inquérito apontam para uma mudança de perfil dos grupos de extermínio. Os antigos matadores que trabalhavam sozinhos, andavam a cavalo, atiravam com armas de cano longo e cobriam o rosto com máscaras negras praticamente não existem mais. Hoje, muitos bandos agem em conjunto e usam técnicas e armas sofisticadas, como na Paraíba e em Pernambuco. Segundo apurou a CPI, 89 pessoas, entre mandantes e executores, atuam na divisa dos estados, nas cidades limítrofes de Pedras de Fogo (PB) e Itambé (PE).

As investigações da comissão parlamentar de inquérito apontam para uma mudança de perfil dos grupos de extermínio. Os antigos matadores que trabalhavam sozinhos, andavam a cavalo, atiravam com armas de cano longo e cobriam o rosto com máscaras negras praticamente não existem mais. Hoje, muitos bandos agem em conjunto e usam técnicas e armas sofisticadas, como na Paraíba e em Pernambuco. Segundo apurou a CPI, 89 pessoas, entre mandantes e executores, atuam na divisa dos estados, nas cidades limítrofes de Pedras de Fogo (PB) e Itambé (PE).

Em maio de 2000, as milícias foram denunciadas à CPI do Narcotráfico, acusadas de matar mais de cem pessoas entre 1995 e 2000. Dos homicídios, 37 ocorreram no município pernambucano. Os crimes também ocorreram em Alhandra (PB), Goiana (PE), Timabaúba (PE), Juripiranga (PB) e Caporaã (PB), cidades vizinhas. Os grupos buscam eliminar, essencialmente, meninos de rua e homossexuais. Outros crimes são tráfico de drogas e de armas e roubo de carga. Para despistar, os pistoleiros matam em um estado e desovam o corpo no outro.

Uma das parcerias mais citadas pela comissão é a do grupo Anjos da Guarda (PE) e do policial paraibano Manoel César de Albuquerque, o Cabo César, morto em 2003, mas por conta de uma cirrose hepática. Em seu lugar, assumiu um homem identificado apenas como Soldado Flávio. Em audiência pública realizada no dia 28 de outubro de 2003, o promotor de Justiça de Pernambuco Humberto da Silva Graça contou que os “anjos” começaram suas atividades como seguranças de comerciantes e passaram, ao longo de uma década, a cometer crimes como pistolagem, tráfico de drogas, roubos de cargas, seqüestros, assaltos e desmanches de veículos. O grupo é sediado em Timbaúba, reúne mais de 30 integrantes, age em 12 municípios e só começou a ser desmontado em 2002. Apesar da prisão de alguns justiceiros, depoimentos prestados à CPI indicam que o bando continua atuando sob o comando de Abdoral Gonçalves de Queiroz.

Segurança

Conhecidos por todos da cidade, os Anjos da Guarda começaram seus trabalhos garantindo a segurança de membros da prefeitura. Chegavam a participar da abertura de desfiles de 7 de Setembro. O chefe da quadrilha, Abdoral, chegou a ser preso, mas, segundo o promotor, “despachava na cadeira do delegado”. Levantamento do Ministério Público de Pernambuco apontou que, só de crianças, 32 foram assassinadas em práticas conhecidas como “arrastões”: o menor era arrastado da rua ou de sua casa, levado a um local ermo ou até mesmo em praça pública, e executado. Depois, os assassinos carbonizavam os corpos.

Em 1999, quando assumiu a promotoria de Timbaúba, Humberto deparou-se com uma situação inusitada: não havia processos criminais na prateleira. Durante as investigações, ele constatou que a ausência de inquéritos tinha como explicação o envolvimento de policiais civis e militares nos crimes chefiados por Abdoral.

As ações dos Anjos da Guarda não se restringem às regiões de Timbaúba e Mata Norte de Pernambuco. Vários depoentes da CPI acusaram a quadrilha de trabalhar em conjunto com Cabo César, da Paraíba. Em depoimento sigiloso, um jovem que não pode ter seu nome divulgado reafirmou a ligação entre Abdoral e o cabo, que não fazia questão de esconder seus crimes. O rapaz contou que presenciou um assassinato ocorrido na Feira de Troca de Pedras de Fogo, quando o policial chegou por trás de um homem conhecido como Zé das Medalhas e atirou na sua cabeça com uma pistola 380. Na frente de várias testemunhas, César teria dito: “Ninguém vai sair dizendo por aí que fui eu que matei, senão volto e mato vocês”, ameaçou. Além do cabo, o jovem citou outros cinco policiais, entre civis e militares, acusados de fazerem parte do grupo de extermínio.

O secretário de Defesa Social de Pernambuco, João Braga, reconhece que existem grupos de extermíno no estado. “Estamos empenhados em combatê-los”, diz. Ele afirma que, desde 2003, 23 integrantes de milícias que atuavam em Caruaru, Paudalho, Carpina, São Lourenço da Mata e Camaragibe foram presos pelo Núcleo Especializado na Apuração de Homicídios Múltiplos (NEAHM) da Polícia Civil. Entre eles, o ex-policial militar Antônio Alves Moreira Filho, conhecido como Abelha, chefe de uma quadrilha que atuava nas proximidades de Paudalho.

Ceará

Já no Ceará, onde a ação dos exterminadores assusta principalmente os moradores do Vale do Jaguaribe, campeão dos crimes de pistolagem, os homicídios são considerados atos isolados. Em 26 de abril de 2004, em resposta ao pedido de dados estatísticos feito pela CPI, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social enviou fax assinado pelo coordenador operacional, coronel Djair José Silva Mendes, informando que nem as polícias Civil e Militar nem o Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) tinham registro de ocorrências de ações criminosas de grupos de extermínio. Testemunhas relatam, contudo, que em Jaguaribe existe uma escola de pistolagem comandada por policiais.

“A omissão do Estado é criminosa”, acusa Íris Tavares, deputada estadual pelo PT. Ela denuncia a ação de pistoleiros que exterminam mulheres no Cariri. Segundo a deputada, mais de 40 foram assassinadas nos últimos cinco anos. “Se o governo do Ceará não age porque tem medo, está sendo cúmplice da situação”, diz. Íris Tavares já sofreu várias ameaças de morte, mas afirma que vai continuar a lutar contra os grupos de extermínio. “Não tenho a menor pretensão de recuar”, garante.

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