Preso em Bangu 8, indiciado na quinta-feira na CPI da Mílicia, o ex-deputado estadual Álvaro Lins deve sofrer esta semana mais um revés: a 15ª Vara de Fazenda Pública determinou, a partir de um pedido do Ministério Público, o seqüestro dos bens em seu nome e dos que supostamente teria em nome de ‘laranjas’.
Para o ex-chefe da Polícia Civil, a totalidade de seu patrimônio se resume a dois imóveis adquiridos, há três anos, em Barra Mansa, no Vale Paraíba. Juntos, teriam custado R$ 65 mil. Um deles, em ponto nobre, onde morou um juiz, teria sido adquirido pelo ínfimo valor imobiliário de R$ 25 mil. Enquanto a Justiça tenta descobrir o verdadeiro patrimônio de Álvaro, o segredo permanece tendo parte da família como cúmplice.
Durante a Operação Gladiador, em 2006, uma planilha das despesas pessoais dele, localizada na casa de Mário Franklin Leite Mustrange de Carvalho, o Marinho, secretário particular do ex-deputado, revela que Álvaro possuía despesa mensal de mais de R$ 25 mil, fora compras feitas à vista, como um Toyota Corolla blindado de R$ 113.800. Os policiais encontraram contas de condomínio de dois apartamentos em Copacabana — uma de R$ 220, na Rua Santa Clara, e outra de R$ 1.200, na Rua 5 de Julho —; de um no Grajaú, de R$ 260; e de uma casa em Itaipava, de R$ 650.
Segundo relatório da Polícia Federal, Luciana Gouveia dos Santos, usada como laranja pelo ex-marido, adquiriu à vista, em fevereiro de 2006, um imóvel na Rua Paula Freitas, em Copacabana, por R$ 450 mil. Com a quebra de sigilo fiscal, ficou constatada a incompatibilidade dos rendimentos de Luciana com a transação. Por carta, Lins concedeu entrevista a O DIA — a primeira desde que foi preso.
O senhor é inocente?
Eu sou inocente. Só para ilustrar, sabe qual foi um dos três motivos citados pela Procuradoria Federal e acatados pela Juíza Convocada do TRF da 2ª Região paraminha prisão? O atentado contra o Delegado Alexandre Neto. Mesmo a Procuradoria sabendo que quem atentou contra este senhor foram PMs que estão presos e respondendo a processo. Desde 1997, quando passei em 1º lugar no concurso para a Polícia Civil, há um grupo de delegados que tenta me atingir porque eu fui capitão da PM. Fui inocentado de tudo que me acusaram e, em menos de 3 anos, tornei-me Chefe de Polícia. Eles nunca aceitaram isso. Tudo virá à tona em breve, isto se não me calarem antes na prisão.
Se o senhor se considera perseguido por alguns policiais, por que foi cassado por seus colegas da Alerj?
A Alerj promoveu um julgamento político, em que a verdade vale muito menos que as versões. Eles tinham uma denúncia contra mim e consideraram isto suficiente para justificar o que queriam fazer. Até o deputado Nilton Salomão votou, apesar de estar impedido pela Justiça. Ademais, existem fatores políticos ligados à própria disputa interna no PMDB e que um dia serão revelados.
Como o senhor justifica seu padrão de vida, considerado incompatível com seus rendimentos?
Meu padrão de vida é o normal da classe médica. Minha esposa é médica e trabalha de 8h às 20h diariamente em cinco empregos, além de ser sócia de uma clínica e proprietária de uma empresa prestadora de serviços médicos, tudo antes de me conhecer.
Qual a sua rotina dentro de Bangu 8?
Se uma pessoa adormecesse encarcerada numa prisão no século XIX e acordasse hoje dentro de Bangu 8, só notaria a diferença por causa da luz elétrica. Fico trancado numa cela de 17m durante 14 horas por dia e num calor de até 45 graus. Por ser perto de um lixão, a companhia é de insetos e urubus, além do mau cheiro insuportável.
O senhor acredita que vai perder o cargo de delegado de polícia em razão das mesmas acusações que acarretaram a perda do seu mandato?
Me demitir da polícia se transformou numa decisão também política. Se o critério for o direito e a Justiça, jamais poderei ser demitido
O senhor já esteve envolvido com os grupos paramilitares, a milícia?
A milícia é a deturpação da “polícia comunitária”, mas surgiu sob aplausos de muitos. Lembro de várias reportagens retratando Rio das Pedras como exemplo de “favela sem violência”. Até Eduardo Paes elogiava.
O senhor tinha conhecimento da atividade ilícita da milícia na época em que era chefe de polícia?
É preciso lembrar que deixei a Chefia de Polícia no início de 2006 para candidatar-me a Deputado e a milícia com a estrutura tal qual existe hoje, com lucro e a disputa por comunidades, não era tão evidente, muito menos seus componentes, ou a participação de elementos da segurança pública e outros, o que passou a ocorrer depois e de forma mais aberta.
O senhor acredita que vai deixar a prisão em breve? Como viveria hoje? Continuaria no Rio?
Sou policial há 23 anos e só consigo achar que meu trabalho valeu a pena quando lembro das pessoas seqüestradas que trouxe de volta para suas casas. Fora isso nada mais me fez sentir gratificado, nem a prisão dos mais perigosos criminosos do Rio. Quando sairvou direto para minha casa. O futuro a Deus pertence.
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