A quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa provocou um jogo de empurra entre dois órgãos do governo federal, que querem se livrar da responsabilidade pelo crime. O vazamento dos dados complicou ainda mais a situação já delicada do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. As duas instituições em questão — a Caixa Econômica Federal e a Polícia Federal — são subordinadas, respectivamente, aos ministérios da Fazenda e da Justiça. E vêm sendo pressionadas pelo Palácio do Planalto para abafar o caso.
Dois funcionários de alto escalão da Caixa Econômica Federal disseram ao Correio, depois de pedirem para não serem identificados, que a PF invadiu a conta do caseiro e transmitiu os dados para um assessor próximo de Palocci. A PF veio a público negar que seus agentes tenham invadido a conta do caseiro usando um programa de computador específico para quebrar senhas de acesso pela internet. Extraoficialmente, uma fonte da PF confirmou a parte da história segundo a qual quem deu publicidade aos dados foi um assessor de Palocci — informação confirmada também por um funcionário do próprio ministério.
O presidente da Caixa, Jorge Mattoso, tem sofrido pressões ainda mais fortes. Mattoso foi obrigado a cancelar uma viagem a São Paulo para tratar pessoalmente da crise em que o banco se meteu. A conta do caseiro é da instituição. E o banco é o responsável legal pelo sigilo dos dados financeiros de seus clientes.
Nesta segunda-feira, o advogado de Francenildo, Wlício Nascimento, entrou com queixa-crime pedindo à Procuradoria do Distrito Federal que abra inquérito para apurar a responsabilidade pela violação da movimentação financeira. O presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC) afirmou que Mattoso pode responder por improbidade administrativa. O partido apresentará nesta terça à CPI dos Bingos um pedido de convocação do diretor da Caixa, para que ele preste esclarecimentos sobre o caso.
Mattoso ficou até o início da noite desta segunda trancado em sua sala, no 21º andar da instituição, com o chefe de gabinete, Luiz Philippe Torelli. Depois de submeter várias vezes o texto de uma nota oficial ao Planalto, ficou acertado que a Caixa se limitaria a dizer que abrirá um procedimento interno para apurar o vazamento das informações do caseiro, o que foi feito num lacônico texto de quatro linhas distribuído à imprensa.