O próximo relatório parcial da CPI dos Correios, sobre a movimentação financeira das contas do empresário Marcos Valério de Souza e suas empresas, deve identificar novas fontes dos recursos que alimentaram o “mensalão”. As últimas revelações da CPI desmontaram as teses de que o Partido dos Trabalhadores (PT) teve `caixa dois´ de campanha e de que a legenda tomou empréstimo, intermediado pelo empresário, para pagar despesas de campanha, inclusive do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Além dos R$10 milhões dos recursos de publicidade do Banco do Brasil que foram desviados para o PT, segundo a denúncia feita anteontem pelo relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), o esquema montado por Valério foi irrigado com dinheiro de outras estatais, como os Correios, de empresas privadas, e pela retenção de R$90 milhões de Bonificações de Volume (BV), espécie de desconto tradicionalmente concedido por fornecedores de serviços de agências publicitárias.
O autor desse relatório, o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), também pretende mostrar que o empréstimo de R$55 milhões de Valério ao PT nunca existiu. “Uma coisa é a relação de Marcos Valério com os bancos e outra é a relação dele com o PT. Nunca foi assinado qualquer contrato ou nota promissória entre Marcos Valério e o PT. Ele chegou a entrar na justiça em São Paulo para cobrar essa dívida, mas o juiz arquivou a ação”, disse Fruet, acrescentando:
“A contabilidade da SMPeB de 2004 e 2005 apreendida não registravam esses empréstimos. Valério só retificou esses dados em setembro deste ano, ou seja, depois do início das investigações da CPI. E mesmo assim apresentou documentos rasurados e sem numeração. Portanto, podemos afirmar que esses empréstimos para o PT nunca existiram”.
De acordo com o deputado tucano, a CPI tem seguido duas linhas de investigação para tentar rastrear os R$55 milhões que teriam sido repassados para o PT e seus aliados. Até agora, só foi possível descobrir o destino de metade desses recursos. A primeira linha de investigação trabalha com a hipótese de que doleiros teriam recebido parte desse dinheiro no Brasil e autorizado o repasse no exterior para alguns beneficiários, como o publicitário Duda Mendonça.
A segunda possibilidade é a de que já exista uma conta no exterior para que doadores possam fazer seus depósitos sem prestar contas ou se identificar formalmente.
Ontem à tarde, a Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça recebeu oito caixas com
toda a documentação requerida pelo Brasil à Promotoria de Nova York contendo informações sobre os depósitos feitos na offshore Dusseldorf e demais contas do publicitário Duda Mendonça nos Estados Unidos. Serão tiradas duas cópias de todos os documentos, uma para o Ministério Público Federal e outra para a Polícia Federal, que serão enviadas até quarta-feira.
Pelo menos por enquanto, a CPI dos Correios não receberá cópias dos documentos. Por exigência da Promotoria de Nova York, tanto a Polícia Federal quanto o Ministério Público Federal terão que assinar um termo de compromisso de manter o sigilo dos documentos. As duas instituições vão analisar os documentos e devem pedir novas quebras de sigilo.
A viagem que integrantes da CPI fariam aos Estados Unidos está adiada por tempo indeterminado. A comissão não teve resposta a seus pedidos de audiência enviados ao Departamento de Justiça americano. O presidente da comissão, Delcídio Amaral (PT-MS), decidiu então suspender a missão. Segundo parlamentares da CPI, as autoridades americanas temem que as informações sobre a quebra do sigilo bancário da conta Dusseldorf sejam divulgadas para a imprensa, a exemplo do que aconteceu com os dados fornecidos pelas autoridades americanas à CPI do Banestado.
A conta Dusseldorf, que o publicitário Duda Mendonça abriu no Bank Boston Internacional em Miami, é o principal alvo da CPI nas investigações sobre as movimentações do empresário Marcos Valério, responsável pelos pagamentos aos políticos aliados, no exterior. Em depoimento à comissão, em agosto, o publicitário disse que foi nessa conta que ele recebeu R$10,5 milhões de pagamento pela campanha do PT em 2002. A esperança dos parlamentares é que, com a identificação de quem depositou na Dusseldorf, seja possível descobrir mais sobre as fontes de abastecimento do valerioduto.