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Dona de quiosque ao lado da Câmara dos Deputados tinha emprego de luxo

Dona de quiosque ao lado da Câmara dos Deputados tinha emprego de luxo

Divina Vitalina de Jesus (foto) tem uma rotina pesada. Com o marido desempregado, dois filhos, ela mantém a família com uma birosca montada em área pública, entre o Anexo 4 da Câmara dos Deputados e o Anexo do Itamaraty. Vende até 50 pratos-feitos por dia. Pedaços de carne cozida, frango e arroz com feijão, tudo ao preço módico de R$ 6. Mas ela teve uma renda extra durante quatro anos, pelo menos no papel: ocupava cargos de confiança na Câmara. Nos últimos dois meses, esteve lotada no gabinete do deputado reeleito Nelson Marquezelli (PTB-SP), com salário de R$ 3,4 mil. Antes, ocupava um cargo de natureza especial (CNE) na Segunda Secretaria da Câmara, com salário de R$ 2,2 mil. 'Eu fazia coisinhas mínimas. Servia café, entregava papéis', conta a servidora — que certamente está entra as copeiras/contínuas mais bem pagas do país, pelo menos no papel.

Divina Vitalina de Jesus tem uma rotina pesada. Com o marido desempregado, dois filhos, ela mantém a família com uma birosca montada em área pública, entre o Anexo 4 da Câmara dos Deputados e o Anexo do Itamaraty. Vende até 50 pratos-feitos por dia. Pedaços de carne cozida, frango e arroz com feijão, tudo ao preço módico de R$ 6. Mas ela teve uma renda extra durante quatro anos, pelo menos no papel: ocupava cargos de confiança na Câmara. Nos últimos dois meses, esteve lotada no gabinete do deputado reeleito Nelson Marquezelli (PTB-SP), com salário de R$ 3,4 mil. Antes, ocupava um cargo de natureza especial (CNE) na Segunda Secretaria da Câmara, com salário de R$ 2,2 mil. “Eu fazia coisinhas mínimas. Servia café, entregava papéis”, conta a servidora — que certamente está entra as copeiras/contínuas mais bem pagas do país, pelo menos no papel.

A comerciante não soube explicar onde funciona a Segunda Secretaria. Disse que fica no térreo do prédio principal na Câmara. Na verdade, fica no subsolo. Quando abordada pela reportagem, inicialmente procurou esconder a jornada dupla. “Isso vai me prejudicar. Esse trailer é minha única fonte de renda”, desconversou. Foi, então, informada de que o seu nome teria sido usado como “laranja” no gabinete de um deputado. A maior parte do seu salário estaria sendo repassada para o deputado ou para funcionários do gabinete. “Não sou laranja. Vamos lá no gabinete esclarecer isso. É lá no Marquezelli”, respondeu.

Capixaba

A chefe de gabinete de Marquezelli, Burbara Zogbi, explicou por que Divina foi contratada, em 10 de novembro, praticamente a um mês do final do ano legislativo: “O Nilton Capixaba (PTB-RO) pediu para deixar ela aqui. Antes, ela tinha um CNE na Segunda Secretaria”. Burbara acrescentou que a funcionária acompanhava o motorista Jurandir nas visitas aos ministérios: “Antes, era o Jurandir que fazia isso. Mas, você sabe como é… tem que estacionar o carro. Então, passamos a mandar ela junto”. Além do salário de R$ 3,4 mil, a servidora recebia vale-transporte e ticket-alimentação. Questionada, Divina lembra de um valor diferente. “Eu recebia uns mil e poucos reais.”

Mais tarde, a chefe de gabinete telefonou para informar o salário de Divina. Mas acrescentou que a secretária parlamentar já havia sido exonerada. “Ele pediu para sair. O movimento de quentinhas aumentou muito”, tentou justificar. Quando foi a demissão? “No dia 25 de janeiro”, respondeu. Na quinta-feira, portanto. Desde a terça-feira o Correio estava apurando os detalhes da contratação da assessora pelo gabinete de Marquezelli. Divina afirmou que soube da investigação dois dias antes. O jornal informou o conteúdo da reportagem a servidores da Segunda Secretaria. Não houve resposta. Marquezelli também foi procurado em seu gabinete e por telefone, mas não foi encontrado.

Anarquia

O caso de Divina é, na verdade, um pequeno exemplo da anarquia em que se transformou o quadro de cargos comissionados da Câmara na atual legislatura. Em outubro, um mês após a publicação de reportagem no Correio sobre a farra de CNEs na Câmara, o presidente da Casa, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), exonerou 1.160 assessores. A decisão resultou numa faxina de apadrinhados, funcionários fantasmas e parentes de deputados. Eles recebiam salário entre R$ 1,9 mil e R$ 8,2 mil. Pelo menos 47 familiares de parlamentes, incluindo filhos, mulheres, mãe, irmãos e sobrinhos, perderam o privilégio. Mas alguns dos parentes e apadrinhados acabaram acomodados nos gabinetes dos deputados.

A reportagem no Correio mostrou, inicialmente, que 600 cargos de confiança criados para assessorar órgãos técnicos estavam loteados politicamente entre 149 deputados e 24 ex-parlamentares — números que correspondem a um terço da Casa. Juntos, eles geravam uma despesa de R$ 20 milhões por ano. Desviados de função, esses assessores estavam acomodados em gabinetes dos deputados, cargos da Mesa Diretora, lideranças partidárias e até em escritórios dos deputados nos seus estados de origem.

Mulheres e filhos

Ao fazer uma radiografia dos 2.365 CNEs, a Mesa Diretora identificou dezenas de casos de nepotismo mesmo nos cargos que não estavam desviados de função. Havia 34 filhos e sete mulheres de deputados abrigados na Casa. Aldo decidiu exonerar todos os parentes até segundo grau — mulher, pais e filhos. Nem a cúpula da Câmara escapou dos cortes. O primeiro vice-presidente, José Thomaz Nonô (PFL-AL), tinha o sobrinho Aloysio Araújo acomodado na liderança do PFL, com salário de R$ 2,89 mil. Nilton Capixaba, um dos parlamentares envolvidos com a máfia dos sanguessugas, mantinha a mulher, Lucimar Nunes, na liderança do seu partido. Também perdeu o emprego a filha do líder do PP, Mário Negromonte (BA), Daniella Souza.

Na modalidade de desvio de função, o campeão era o primeiro secretário da Câmara, Inocêncio Oliveira (PL-PE), com 55 CNEs nomeados. Documento obtido pelo Correio informa, em 44 páginas, o nome do assessor, a lotação oficial (órgão técnico), a lotação efetiva e o nome do parlamentar que fez a indicação. O corregedor da Casa, Ciro Nogueira (PP-PI), preencheu 39 cargos. Capixaba tinha 31 cargos.

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