Agentes da Polícia Federal envolvidos com as investigações sobre o presidente do Senado, Renan Calheiros (foto) (PMDB-AL), dizem nos bastidores que a denúncia de que comprou emissoras de rádio em Alagoas valendo-se de laranjas e de dinheiro de origem desconhecida tem potencial para dificultar-lhe a vida nas próximas semanas. A história veio à público numa reportagem da revista Veja e posteriormente foi confirmada pelo ex-deputado João Lyra — sócio oculto no negócio e agora inimigo declarado de Renan. O caso rendeu ao parlamentar alagoano uma representação no Conselho de Ética da Casa, por quebra de decoro, e já há um processo disciplinar instaurado contra ele a pedido do Psol.
O próximo processo que Renan Calheiros enfrentará, entretanto, será o do suposto tráfico de influência do senador na compra de uma fábrica de bebidas de seu irmão, o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), pela Schincariol (leia mais no texto ao lado). “Não há documentos suficientes que comprovam que o presidente do Senado esteve envolvido na negociação”, afirma um delegado que trabalha diretamente nos casos que envolvem Renan. “Do ponto de vista da investigação policial, não há nada contra ele”, acrescenta a fonte.
Na outra representação, também protocolada pelo Psol, Renan é citado em um depoimento como intermediador de negociações para a arrecadação de dinheiro de ministérios ligados ao PMDB. Neste caso, também não há comprovação de nenhum ato de Renan que tenha conotação criminosa.
Mas a situação de Renan Calheiros não é idêntica a esses dois casos quando se trata da compra das duas emissoras de rádio em Alagoas. A partir da revelação do caso, o próprio Senado, por intermédio de seu corregedor, Romeu Tuma (DEM-SP), e a Polícia Federal chegaram a testemunhas consideradas importantíssimas para a investigação. Há depoimentos confirmando cada uma das denúncias e até mesmo a veracidade da relação entre Renan e seu primo Tito Uchôa, apontado por João Lyra como laranja do presidente do Senado na operação.
À Polícia Federal, porém, Lyra não entregou documentos que possam comprovar o envolvimento do presidente do Senado nas negociações das emissoras. “Ainda faltam alguns papéis para embasar o processo”, diz o delegado, ressaltando que o alvo principal das investigações teria que ser Tito Uchôa. “Se ele é acusado de ser o laranja do senador, então deveria ser a principal meta das apurações.”
O caso do laranjal de Alagoas é uma intrincada rede de negócios e política. Renan e João Lyra, um político, outro usineiro, decidiram, em 1998, criar juntos um grupo de comunicação para fazer frente à Rede Gazeta, do ex-presidente Fernando Collor de Mello, adversário de ambos. Como não tinha dinheiro, conforme a denúncia, Renan pediu um empréstimo a Lyra e os dois tornaram-se sócios da JR Radiodifusão, dona de duas emissoras de rádio, e de O Jornal, segundo diário mais lido de Alagoas. Hoje rompido com o ex-aliado, Lyra afirma que Renan pagou-lhe as parcelas do empréstimo pontualmente, sempre em dinheiro vivo, por vezes em dólares. Nenhuma das empresas jamais esteve registrada no nome dos reais donos.