Termina hoje o prazo de 48 horas que Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, deu à Frente pela Defesa da Legítima Defesa para que responda à intimação sobre o uso indevido de sua imagem no primeiro dia de propaganda do “Não” no referendo das armas, quando se buscou associar sua luta pela liberdade com o direito de usar armas.
A intimação foi enviada na quarta-feira passada para o presidente da referida Frente, deputado federal Alberto Fraga. Como o deputado negou aos jornalistas a existência do documento, na quinta-feira a Fundação Nelson Mandela enviou cópia da intimação à ong Viva Rio, solicitando que o divulgasse para conhecimento da opinião pública brasileira. Ontem, durante um debate no programa Boa Noite Brasil, da TV Band, o representante do Viva Rio, sociólogo Antônio Rangel, fez a denúncia e leu partes da intimação do velho dirigente, hoje com 87 anos e que passou 28 anos preso por sua luta contra o apartheid.
O advogado de Mandela, Don Macrobert, explica que o ex-presidente foi informado de que a Frente pelo Direito à Legítima Defesa ilustrou o seu programa televisivo com sua imagem e que teria ‘ficado furioso’. O documento protesta pelo “uso da imagem do Sr. Mandela, feita durante sua visita a São Paulo, em que aparece levantando o punho, em um vídeo clip em favor do “Não” no referendo que se realiza no Brasil”. Afirma considerar “incorreto, impróprio e ilegal usar sua imagem quando sua luta não guarda relação alguma com a venda de armas”, e enfatiza que “os objetivos da luta do Sr. Mandela guardam uma clara e óbvia diferença com o uso abusivo que estão fazendo de seu nome e imagem”. Ao final, o advogado afirma que “tomará as medidas legais necessárias se, no prazo de 48 horas, não houver uma confirmação de que as referidas ações ofensivas contra o Sr. Mandela não mais serão veiculadas ou usadas”.
O representante do Viva Rio acrescentou que aprendeu a organizar destruições públicas de armas na África do Sul, durante a presidência de Mandela, que promoveu diversas campanhas de entrega voluntária e de destruição de armas, ensinamentos que foram úteis para o Viva Rio organizar campanhas semelhantes no Brasil. Terminou o debate acusando a Frente do “Não” de “fraude” e exortando os eleitores a seguirem os ensinamentos do líder africano, votando “Sim” no referendo.
Perfil: Nelson Mandela e a luta contra o racismo e pelo desarmamento
“A luta é minha vida”. A frase de Nelson Mandela, nascido em 1918, na África do Sul, resume sua existência. Mandela dedicou sua vida à luta contra a discriminação racial e as injustiças contra a população negra.
Mandela foi o fundador da Liga Jovem do Congresso Nacional Africano, em 1944, e traçou uma estratégia que foi adotada anos mais tarde pelo Congresso na luta contra o apartheid. A partir daí ele foi o líder do movimento de resistência a opressão da minoria branca sobre a maioria negra na África do Sul.
Hoje, é símbolo de resistência pelo vigor com que enfrentou os governos racistas em seu país e o apartheid, sem perder a força e a crença nos seus ideais, inclusive nos 28 anos em que esteve preso (1962-1990). Nem mesmo as propostas de redução da pena e de liberdade que recebeu de presidentes sul-africanos ele aceitou, pois o governo queria um acordo onde o movimento negro teria que ceder. Ele preferiu resistir e em 1990 foi solto.
Sua liberdade foi um dos primeiros passos para uma sociedade mais democrática na África do Sul, culminando com a eleição de Nelson Mandela como presidente do país em 1994. Um fato histórico onde os negros puderam votar pela primeira vez em seu país. No mesmo ano, Mandela foi eleito presidente e apoiou o movimento pelo desarmamento na África do Sul conhecido como África do Sul Sem Armas. “Parabenizo o Gun Free South África e as igrejas pela campanha para livrar a África do Sul das armas. Sua semente corajosa ajudou a livrar nosso país da violência e do medo. Eu rezo para que essa iniciativa seja um exemplo para outros países”, afirmou o “velho” (old man), como é chamado carinhosamente pelo povo.
No começo deste mês, dia 03 de outubro, matéria publicada no site da BBC revelou o resultado de uma enquête com a pergunta: “Quem Manda no Seu Mundo?”. Quinze mil pessoas participaram e escolheram Nelson Mandela para governar o mundo.