O doleiro argentino Carlos Alberto Quaglia surpreendeu ontem os parlamentares da CPI dos Correios ao admitir em depoimento que sua empresa, a Natimar Negócios e Intermediações Ltda, foi usada para lavagem de dinheiro vindo do empresário Marcos Valério, operador do “mensalão”. O dinheiro de Valério foi depositado entre 26 de abril e 24 de maio de 2004 na conta mantida pela Natimar na corretora Bônus-Banval, que já enfrenta a acusação de repassar dinheiro ilegal para o PP e o PT.
No primeiro trimestre de 2004, a Natimar recebeu R$6,4 milhões do “valerioduto” e repassou o dinheiro em pelo menos 139 transferências, algumas feitas a pessoas ligadas a políticos. A Natimar também foi responsável, em 2004, pela entrada no país de mais de US$14 milhões, num empréstimo contraído em condições consideradas suspeitas pela comissão.
Quaglia revelou que depois que o dinheiro de Valério foi depositado na conta da Natimar, ele recebeu de um dos sócios da corretora, Enivaldo Quadrado, diversas cartas em branco para a transferência do dinheiro, que alegou na CPI ter assinado sem ver. Quaglia contou ter acreditado que a quantia fora depositada erradamente na conta de sua empresa e que, só depois de autorizar as operações, percebeu que estava sendo usado pelo dono da Bônus-Banval:
“Estou achando que não foi erro. E não foi a primeira vez. Ele (Quadrado) criava transferências… Seria para lavar dinheiro, evidentemente. A Natimar caiu como uma luva”, disse Quaglia, que negou conhecer Valério. O depoimento de Quaglia fortaleceu ainda a suspeita de que ele é apenas um laranja e que o dono de fato da Natimar é o também doleiro Najun Turner, preso ano passado por evasão de divisas.
Quaglia disse que Turner tinha carta branca para operar em nome da empresa na compra de ouro e na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BMF). Turner, que depôs em seguida com uniforme de presidiário, confirmou a informação. A suspeita sobre Quaglia é reforçada por seu patrimônio declarado. Dono de uma empresa que movimentou mais de US$20 milhões nos últimos anos, ele tem poucos bens: uma casa de padrão médio e um Santana 95. A CPI, agora, quer saber quanto ele ganhou para irrigar o esquema de Marcos Valério:
“Não é possível que o senhor não tenha recebido nada. Nós não vamos acreditar que tudo não passou de um erro e que o senhor repassou milhões sem saber”, afirmou o deputado Onyx Lorenzoni (PSDB-RS). A CPI também não acreditou na versão apresentada por Quaglia para explicar o empréstimo contraído junto a empresa paraguaia Discovery. O doleiro contou que a Natimar fechou a exportação de máquinas agrícolas para o Uruguai e para a Holanda, mas que, com a desvalorização do dólar, desistiu do negócio.
A comissão também vai se debruçar sobre a lista de pessoas que receberam os repasses da Natimar. Os parlamentares já identificaram depósitos em contas de pessoas ligadas ao deputado José Janene (PP) e de empresas de produção de eventos para campanhas eleitorais, como showmícios. Em seu depoimento, Quaglia disse que só conhece dois destinatários do dinheiro: a mulher e o filho de Najun Turner, que receberam cerca de R$115 mil.
Em seu depoimento, Turner negou que tenha revelado ao doleiro Antônio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona, na cela em que os dois ficaram presos, num presídio de Guarulhos, a existência de uma operação no valor de R$8 milhões que o PT teria feito para o PP. O objetivo, segundo contou Toninho em sessão fechada da CPI dos Bingos, seria o de levar o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), quando eleito para o cargo, para a base aliada do governo.